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Entre o sustento e a expressão: o impasse de quem vive de arte

Encomendas, docência, autonomia e recusa ao mercado são relatos do esforço de transformar identidade em sustento


Tayná juntou a paixão de seu marido, o futebol, com a sua paixão, o artesanato | Crédito da foto: Artur Matos
Tayná juntou a paixão de seu marido, o futebol, com a sua paixão, o artesanato | Crédito da foto: Artur Matos

Por Lucas Mendes | Agência Abre Aspas


Tayná Poncio trabalhava na área corporativa, com marketing. Ela faz artesanato há anos, como hobby e também para presentear amigos, porém, desde a metade do ano de 2025, decidiu transformar o passatempo em seu trabalho. Ela conta que sua relação com a arte já a ajudava antes mesmo de tornar-se sua profissão. “O artesanato era uma forma de desestressar”. 


Contudo, viver de arte traz consigo algumas decisões. “Já recusei trabalhos por não se alinharem com a minha identidade artística”, diz a artesã. A frase resume um conflito comum entre artistas que vivem do próprio trabalho: como transformar arte em sustento sem fazer da criação apenas uma resposta ao que o mercado pede.


“Quando o cliente quer algo muito específico, que não permita que meu processo criativo flua, eu oriento, até indico, outros artistas que possam fazer”, conta Tathiani Silveira, artista plástica. A recusa, nesses casos, não aparece como gesto isolado, mas como parte de uma escolha de trabalho. Ao evitar encomendas que descaracterizem a sua linguagem, ambas as artistas tentam manter alguma coerência entre sustento e criação.


ALINHANDO TRABALHO E PAIXÃO


“Você vai se surpreender, mas eu não vendo as minhas obras. Eu coloco muito da minha personalidade, da minha pessoalidade e do sentimento que estava vivenciando enquanto a produzia, e isso dificulta me desvincular. Todas são uma extensão de mim”, relata Tathiani quando perguntada sobre o conflito entre criar algo artisticamente e criar algo para uma entrega comercial.


A renda de Tathiani vem, principalmente, das aulas de pintura que ministra em sua galeria, localizada no Bairro Maria Luiza, em Cascavel. As aulas incluem abordagens com técnicas variadas que vão desde pintura a óleo, grafite e aquarela. 


As suas turmas também variam, com alunos na faixa etária infantil, adultos e crianças do espectro autista. “Olha que fofura", diz Tathiani com semblante de ternura, enquanto mostra um desenho dotado de traços pueris. “Eu não posso com essas minhas crianças”, completa. Embora ela não venda suas obras, aconselha para que seus alunos comercializem seus próprios quadros, pois, dessa forma, podem adquirir mais variedade e qualidade de materiais, tornando-se artistas melhores. 


Para complementar a sua renda, Tathiani realiza a customização de ambientes, pintando murais em paredes. Ela comenta que coloca muita paixão em cada um dos murais, já que o processo criativo muda de parede para parede, de acordo com a arquitetura do lugar. A artista sente-se como a genitora de cada um dos trabalhos.


De acordo com ela, as aulas são ministradas de segunda a sexta, nos três turnos do dia, e a pintura dos murais é realizada nos finais de semana. Visto que a artista não comercializa os seus quadros, negando até mesmo propostas com preços elevados, a agenda cheia tornou-se uma forma de equilibrar a renda e também de estar em constante contato com a arte, que é, evidentemente, sua paixão.


Tayná, por sua vez, vende suas obras, porém, preza para que não sejam feitas de forma padronizada em escala industrial. Para ela, esse é o tipo de trabalho que grandes empresas podem realizar no seu lugar. Trabalhar dessa forma esfriaria a relação com o seu artesanato.


Para além disso, em diversos momentos, Tayná negocia com seus clientes para que as obras tenham um material de melhor qualidade, o que, por vezes, faz com que ela abra mão de parte do seu lucro. Mas este tipo de atitude é um cuidado da artesã para que a obra tenha um resultado mais prazeroso para si e para o cliente. “O artesanato é um acalento tanto para quem faz quanto para quem recebe”, comenta.


PROCESSO CRIATIVO E SEUS EFEITOS


De acordo com o Instituto Brasileiro de Geográfia e Estatística (IBGE), em fevereiro deste ano, o cenário de produção cultural no Brasil emprega cerca de 5,9 milhões de pessoas, muitos desses sendo artistas, cada um com sua forma autoral de produzir para se expressar.


Durante a produção, vai se evidenciando o que de mais particular o artista possui: o processo criativo. Ambas deixam claro não abrir mão do que surge durante seu processo criativo, pois o é o que torna-se linguagem, trazendo à tona as suas emoções.


Tayná relata que vê o artista como alguém egocêntrico, pois está sempre a fim de entregar um trabalho bem-feito. Esse trabalho deve conversar precisamente com o que ela sentiu enquanto produzia aquela obra. Quando isso não ocorre, ela faz questão de não expô-la, para refinar até que chegue próximo do resultado esperado. “Tem uns 4 trabalhos que eu não trouxe nesta feira porque não achei bom o suficiente para estar aqui. A arte é a liberdade de me expressar da maneira que eu preciso”, relata.


Já Tathiani diz que o seu processo criativo é a sua ética enquanto artista, abrir mão da autenticidade seria antiético consigo mesma, enfatizando que esse processo é mais caro a ela do que qualquer valor financeiro. Dessa forma, ela deixa claro o quanto estar criando e expressando é sua forma de se ver no mundo. De certa forma, também é como a veem, sejam clientes, amigos, familiares, alunos, etc. 

Para que se compreenda de forma detalhada a fidelidade ao processo criativo, Tathiani comenta que precisou desenhar um trem. Ela viajou para Guarapuava, região centro-sul do Paraná, para visitar uma ferrovia e analisar como eram os trens. “As pessoas me perguntavam se não era mais fácil ver uma foto da internet. Eu até concordava, porém ir até lá e entender ‘o que era o trem’ fazia parte do meu processo criativo”, relata a artista.


Tathiani faz arte desde seus 11 anos, mas identificou-se como artista apenas aos 15 | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Tathiani faz arte desde seus 11 anos, mas identificou-se como artista apenas aos 15 | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Em entrevista antiga à Rádio e Televisão de Portugal, Maria da Conceição Tavares, economista e matemática, ex-professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, dizia que a arte talvez não desse dinheiro, mas permitia “ficar vivo”. A afirmação ajuda a nomear o que aparece no relato das artistas que tentam sustentar suas criações, para além do lucro, de forma que o que foi produzido exprima as suas emoções e autenticidade.


ARTISTAS AUTÔNOMOS 


Dados da Sondagem de Mercado de Trabalho do FGV IBRE (2024) apontam que 67,7% dos trabalhadores brasileiros por conta própria desejam um emprego com carteira assinada, a fim  de ter uma maior estabilidade financeira e direitos trabalhistas.


O trabalho autônomo no Brasil, por si só, tem suas dificuldades. Viver de arte e cultura também. Segundo a ONG Contas Abertas, entre 2001 e 2015, foram previstos R$ 33,6 bilhões para a cultura. No entanto, apenas R$ 18,6 bilhões foram investidos de fato, o que demonstra que o fomento estatal à produção cultural não é uma prioridade, respingando na realidade dos artistas.


Para criadores autônomos, a rotina quase sempre exige negociação. É preciso aceitar encomendas, dar aula, fazer trabalhos sob demanda e, ao mesmo tempo, preservar um espaço em que a criação continue sendo própria. Em muitos casos, viver de arte significa justamente isso: administrar, o tempo todo, o limite entre sustento e identidade.


No caso de Tayná e Tathiani, viver de arte não significa apenas vender. Significa escolher o que aceitar, o que recusar e o que ainda precisa permanecer como parte de si.

1 comentário


Um respiro ver que Cascavel respira cultura, ótimo texto!

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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