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A música realmente piorou?

Na geração mais tecnológica da história, retorna fortemente a pergunta: a qualidade musical realmente se perdeu ou isso é apenas um saudosismo natural?


No mundo das premiações, trends, inteligências artificiais e plataformas digitais, a construção musical entra em cheque | Crédito da foto: Reprodução.
No mundo das premiações, trends, inteligências artificiais e plataformas digitais, a construção musical entra em cheque | Crédito da foto: Reprodução.

Por André Felipe | Agência Abre Aspas


Segundo o mais recente relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), a indústria musical movimentou 31,7 bilhões de dólares no ano de 2025, sendo essa sua maior receita da história e o 11º ano consecutivo de alta em receitas. Destes, foram 21 bilhões de dólares vindos das plataformas de streaming que, consequentemente, causaram o aumento dos assinantes, que também atingiram sua alta histórica: 837 milhões. Nessa linha, o Brasil se consolidou como um dos países que mais cresce nas métricas, sendo o 8º de maior faturamento na área.


Apesar do aumento significativo em receitas, a música brasileira é comumente colocada em posição de crise ideológica e técnica, com os topos das paradas brasileiras tendo sérios problemas de criatividade, sempre voltadas para plataformas digitais, com refrões repetitivos e ritmos chicletes; e, de certa forma, isso é uma verdade. Pelo menos, pensando no mainstream brasileiro.

Em uma análise breve das músicas e artistas mais ouvidos no Brasil em 2025, notamos um padrão claro: domínio do funk, sertanejo e pagode; sendo o top 1 em artistas conquistado pela dupla Henrique e Juliano pelo segundo ano consecutivo, e tendo a música ‘Tubarões’, de Diego & Victor Hugo, ocupando o topo entre as músicas mais ouvidas no país. Apesar disso, outros grandes (e polêmicos) nomes também aparecem entre os mais ouvidos do ano, como Pedro Sampaio, Wiu e Zé Felipe, constantemente acusados de plágio e tendo músicas que seguem a “mesma fórmula” em lançamentos recentes.

As “culpadas” (se podemos chamar dessa forma) são as redes sociais, essencialmente o TikTok e o Instagram, que possuem um poder imensurável de marketing gratuito para tais composições. Com trechos de 20 a 30 segundos, podem mudar trajetórias de músicas, artistas e compositores. Ao vermos as músicas mais usadas em vídeos nas redes sociais, temos o mesmo resultado: domínio de Pop, Funk e Sertanejo. Além disso, vemos o aumento de gêneros unicamente consumidos dentro das mídias sociais, como o phonk, que geralmente faz paródia de um funk já consolidado, e das músicas em ‘speed up’, sendo uma versão mais acelerada de músicas que também já existem. No geral, alguns gêneros são mais afetados por essa padronização nas criações musicais, mas a crítica se expande por todo o meio, de forma que, falar mal das realizações brasileiras atuais tenha se tornado uma opinião popular e amplamente divulgada por pessoas influentes dentro das mais diversas comunidades musicais, como o artista Ed Motta, que teceu duras críticas ao gênero e ao público envolvido no Hip Hop. A pesquisa do pernambucano Leonardo Sales, analista de dados e auditor no ministério da Transparência, Fiscalização e Controladoria-Geral da União (CGU), mostra um estudo que aponta uma queda significativa no número de acordes nas músicas brasileiras dos anos de 1960, 70, 80 e 90, até hoje. 


Ainda assim, mesmo com a suposta queda qualitativa das produções, os números sobem - o que não necessariamente diz respeito ou tem a ver com qualidade. Pensando que certos estilos musicais são voltados exclusivamente para a viralização, desde sua letra, até seu marketing, o propósito não está pautado na realização de músicas de qualidade do ponto de vista técnico. Por outro lado, essas existências não deveriam pressupor que músicas lotadas de instrumentais, vocais e acordes sejam necessariamente superiores. Qualitativamente ou quantitativamente falando, ambas abrangem universos completamente distintos, com a multifuncionalidade das construções líricas afetando diretamente as avaliações musicais e como elas são construídas para chegarem na mesma sistemática de notas, resultados ou análises. 

Ainda assim, o caminho pelo qual a música brasileira seguiu entra em um rumo totalmente ligado ao comercial, ao produto e a capitalização máxima da renda que uma faixa pode extrair. Esse padrão é explicado por Walter Benjamin, em seu livro “A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica (1936)”, em que o autor trabalha a respeito da mercantilização e reprodução sistemática de obras de arte. As músicas, por exemplo, tornam-se comercialmente mais valorizadas, mas vivem em desconexão do seu “valor ritual” e da sua “aura”, transformando-as em cada vez mais abstratas, imitáveis e repetíveis - aumentando os números, mas piorando muito em qualidade. 


De certa forma, o mainstream da música brasileira vive grande crise técnica e estética, o que nos ensina a valorizar ainda mais o mercado underground de artistas que, mesmo não estando em grandes paradas, entregam trabalhos de extrema qualidade e excelência. O ano de 2025 para o rap brasileiro, por exemplo, figurou como um dos maiores anos da história da cena, com lançamentos de qualidade de artistas consolidados, como BK e Djonga, mas entregando trabalhos absurdos de artistas sem a mídia devida, como Don L, com sua apoteótica continuação de ‘Caro Vapor’, e FBC com ‘Assaltos e Batidas’, o álbum mais político e crítico de sua carreira. Além disso, a cena elevou o patamar para artistas mulheres, como as rappers AJULLIACOSTA e Ebony, com seus álbuns ‘Novo Testamento’ e ‘KM2’, respectivamente. 

Saindo do rap, o ano ainda teve grandes surpresas, como os premiados ‘CAJU’, da talentosíssima Lineker, que entrega um trabalho extremamente delicado e bem produzido, e do já clássico ‘Dominguinho’, de João Gomes, que deixou o seu famoso piseiro de lado para investir, juntamente de Jotape e Mestrinho, em um ritmo suave e lotado de instrumentos, característico do forró brasileiro. Além disso, também contamos com com a sobrevida do rock nacional em ‘O Mundo Dá Voltas’, do BaianaSystem, e dos extraordinários ‘Coisas Naturais’, de Marina Sena, ‘AFIM’, de Zé Ibarra, ‘Um Mar pra Cada Um’ e ‘Antes Que A Terra Acabe’, ambos da talentosa Luedji Luna. 


No geral, ainda existe muito talento na música brasileira, existe muita criatividade em pequenos projetos e muita inovação em pequenas produções. Existe uma ótima nova geração escondida em meio a vídeos de 30 segundos, anúncios pagos em plataformas de streaming e grandes produções focadas em viralizar nas mídias sociais, porque Brasil sempre foi sinônimo de música boa, e música boa é sinônimo de Brasileiro.

1 comentário


Texto excelente! É maravilhoso ler algo que foge do óbvio e valoriza quem realmente faz música com alma. Parabéns pelo texto❤️

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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