Por que é proibido pisar na grama?
- Lucas Lobo

- há 1 dia
- 5 min de leitura
Desde 1971, afirmações de Jorge Ben permanecem como acusações ao autoritarismo

Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas
Após uma já extensa e consolidada produção, em 1971, Jorge Ben (ainda não “Jor”) lançava seu oitavo disco de estúdio. Negro é Lindo, inspirado nas crescentes do movimento negro estadunidense, reafirma questões que fogem às identidades e expressam, até hoje, algumas das frustrações de existir em relação ao autoritarismo.
Gravado em meio a ditadura, o álbum reflete seus temas através de estilos historicamente associados aos movimentos negros espalhados pelo mundo - sem perder de vista a propriedade nas variações que uma mesma faixa pode encontrar, marca registrada do cantor.
O soul, famoso gênero musical afro-americano, característico em seu violão, se junta ao funk, uma das principais expressões artísticas da negritude, que se politizava em partidos naquele momento. O que nunca se perde de vista, e que pode ser entendido como mais uma das afrontas de Jorge Ben contra imposições, é a manutenção do samba que formou sua carreira. Embora bastante influenciado pelas manifestações políticas da música negra nos Estados Unidos da América, não havia de se perder a perspectiva de um som brasileiro, que refletisse, em conciliação, o momento social complexo do país.
Negro é Lindo conta com 10 faixas, sendo as mais emblemáticas aquela de mesmo nome do álbum, ‘Negro é lindo’, e a icônica contradição às repressões políticas, ‘Porque é proibido pisar na grama’. Na produção, o cult Arthur Verocai e Trio Mocotó.
JORGE MUITO BEN
Ainda vivo e dono de uma das grandes obras da história da música brasileira, Jorge Ben estreou em 1963 com Samba Esquema Novo, álbum que carrega os clássicos ‘Mas que nada’, ‘Por causa de você, menina’ e, recentemente revivido e admirado pelas novas gerações, ‘Chove chuva’. Desde o começo da carreira, o artista empregava um estilo bastante autoral, misturando samba, jazz e rock em acordes muitas vezes deliberadamente desajustados.
Anterior ao lançamento de Negro é Lindo, e além de Samba Esquema Novo, outros seis discos foram gravados por Jorge: Sacundin Ben Samba (1964); Ben É Samba Bom (1964); Big Ben (1965); O Bidú: Silêncio no Brooklin (1967); Jorge Ben (1969); Força Bruta (1970). Posteriormente, ainda lançaria dois de seus maiores sucessos, Tábua de Esmeralda (1974) e Solta o Pavão (1975).
Com tamanha diversidade na abordagem estilística de suas músicas, caminhou por diversos grupos da MPB, seja a Bossa Nova, os Tropicalistas e até a Jovem Guarda.
Não fosse o bastante, é possível observar a complexidade nas variáveis de sua obra também em seus interesses ora humanos ora místicos - quando não uma ode no que se relacionam. Jorge demonstra simpatia por questões políticas e identitárias, pelo cotidiano e pelo afeto, mas chama mesmo a atenção seu olhar à personagens históricos, elementos culturais brasileiros e fundamentações espiritualizadas. Desse modo, não dificilmente, ao ouvir suas músicas, alternamos entre o amor direcionado, o descontentamento material, um fanatismo esportivo e aprofundamentos sempre bastante particulares em conceitos da alquimia e filosofia cristã.
Pode parecer difícil de acompanhar, mas o maior mérito de sua produção é jamais extrapolar os limites da música. Na verdade, pelo contrário, mais admirável que sua capacidade de elaboração teórica, Jorge Ben é um instrumentista genial. Devemos sempre observar o comportamento de suas músicas, desde as especificidades da teoria musical até as formulações estéticas, como sendo extremamente autoconscientes e controladas. Por vezes, certas faixas beiram um estilismo psicodélico: Jorge grita, se descontrola, foge o tom, rompe com as regras (caso de ‘Oba, lá vem ela’). Por outras, a rigorosidade no que há de fundamental e tradicional nos gêneros trabalhados é o que estabeleceu diversos de seus lançamentos em clássicos incontestáveis da música brasileira (caso de ‘País tropical’).
SÃO JORGE BEM ESTIMADO
Devoto do Santo Guerreiro, Jorge Ben jamais fez questão alguma de ocultar sua admiração por São Jorge, mártir cristão e padroeiro dos cavaleiros, soldados, escoteiros, esgrimistas e arqueiros. A aproximação do artista com o Santo rendeu ‘Jorge da Capadócia’, uma de suas músicas mais queridas e referenciadas, e diversos momentos emblemáticos de sua carreira, como o show com Zeca Pagodinho, em que recita a oração do Santo.
Essa proximidade torna também sua produção religiosa e intelectual mais específica e curiosa. Todo o disco Tábua de Esmeralda, considerado por ele mesmo sua obra-prima, está voltado para os estudos da alquimia, prática que une filosofia, química, magia e espiritualidade. Ben já chamou o álbum de “alquimia musical” e já revelou pautar parte de suas razões em seus estudos da prática: “Comecei a admirar a maneira deles verem o mundo, a perseverança no trabalho”. Este fato demonstra que o músico sempre prezou antes pela pluralidade de seu conhecimento, a construção de boas concepções sociais e musicais e um pensamento diverso do que pela ortodoxia de sua crença.
Mesmo que tentem associar a música popular brasileira à uma caricatura racista do povo, Jorge Ben expõe que a densidade de suas produções está, principalmente, em sua construção lírica profundamente interessada pela modulação do som. Nunca é à toa, como nunca é vazio. Na gritaria desenfreada e na Bossa Nova suavizada, o que nunca deixa de importar é a maneira com que os temas explorados são expressados através daquilo que caracteriza música enquanto arte.
Não esqueçamos da vez que, em ‘Assim falou Santo Tomás de Aquino’, o letrista sublime deu voz ao texto de uma das mais influentes e estabelecidas filosofias da religião. Jorge recitou-a em um samba. Jorge leu Santo Tomás de Aquino e o transformou em som, em música.
PORQUE É PROIBIDO PISAR NA GRAMA
As perspectivas religiosas formam a parte, possivelmente, mais importante e autoral de Jorge, mas não pude deixar de ter minha atenção roubada em Negro é Lindo por sua amiração pelas pessoas.
‘Porque é proibido pisar na grama’ trabalha, em tons melancólicos, uma sucessão de questionamentos que beiram uma ironia contestadora. A faixa inicia com o despertar, um eu lírico que acorda em visões de mundo e passa a investigar sua realidade: “Acordei com uma vontade de saber como eu ia; E como ia meu mundo”. Continua sua análise se utilizando de anseios para expressar suas proibições. A casa, o dinheiro, a maneira de se sensibilizar: tudo é entregue forçosamente ao personagem, que sonha com tudo que lhe é imposto, mas que esbarra nas dificuldades dessa própria imposição: “Preciso de uma casa para a minha velhice; Porém, preciso de dinheiro pra fazer investimentos; Preciso às vezes ser durão; Pois eu sou muito sentimental, meu amor”. A finalização fantástica encerra os anseios materiais, as convicções morais e os impeditivos burocráticos em clara piada contra um autoritarismo caricatural, cruel e estupido: “Preciso saber urgentemente; Porque é proibido pisar na grama”.
A frase, evidentemente associada a placas de proibição, brinca ao se utilizar de uma negação simplória, e provavelmente inútil, de maneira generalista. Inclusive, podemos entender o não-contato com a grama como um contato negado das pessoas com a terra - remetendo Rousseau em Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Se nem ao menos o chão nos é direito, se nem ao menos a existência em um espaço de convívio nos é permitido, por qual motivo deveríamos aceitar as demais desgraças da sociedade-civil?
Dessa maneira, ‘Porque é proibido pisar na grama’ se marca como uma das músicas mais politicamente materialistas da carreira de Jorge Ben. Uma proposta cínica de transgressão, de revolta contra o status-quo. O eu lírico frustrado implora para entender o que está o impedindo. A letra nunca o respondeu, ela somente confirmou; notem, a todo momento foi colocado o “porque” sintaticamente de resposta. Coube à nós a compreensão dessa frustração, através da modulação do som. Percebemos, em seus questionamentos incessantes, que semanticamente sempre foi um “por que”. Nem mesmo o questionador ou tampouco a questão puderam estar livres da imposição de um autoritarismo (o da linguagem), mas finalmente puderam encontrar seu sentido sem repressão (música estruturalmente).
No fim, Jorge Ben modulou perguntas históricas. Com dialética, estabeleceu o que reprime e o que liberta em uma mesma frase. Mesmo assim, tudo retorna ao frustrante basilar. Ainda não pisamos na grama.




Comentários