Mais que barracas e histórias: conheça quem produz e vende na Feira do Teatro
- Mateus Dias

- há 19 horas
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Empreendedores se reúnem aos domingos para comercializar seus produtos em Cascavel (PR)

Por Mateus Dias | Agência Abre Aspas
Fora dos palcos, o entorno do teatro também produz histórias. Aos domingos, em Cascavel (PR), o espaço ao lado do prédio se transforma em ponto de encontro entre feirantes, artistas, consumidores e curiosos.
Em um espaço que estimula a cultura, a arte e a comunidade em geral, surgiu, em fevereiro de 2018, a Feira do Teatro. Como o nome entrega, esse evento é realizado ao lado do prédio que já recebeu tantas histórias e que, semanalmente, aos domingos, reúne vendedores, artistas e consumidores.
O evento junta famílias, amigos, casais e pets em um espaço para dividir as manhãs. Além disso, é um incentivo ao empreendedorismo e à cultura local. Inclusive, no mês de abril de 2026 a Feira do Teatro foi titulada como patrimônio cultural da cidade, inclusive, o primeiro da história de Cascavel.
Nessa história, existem protagonistas, pessoas cuja ausência não permitiria o simples fato da feira existir: os vendedores do local. Em cada barraquinha que se passa, narrativas diferentes são encontradas em produtos, origens e relações. Cada espaço se torna um lar para quem trabalha.
QUEM FAZ A FEIRA ACONTECER
Logo em uma das primeiras barracas, os agricultores Ari e Mara vendem frutas, verduras e outros alimentos orgânicos produzidos na chácara onde vivem, a cerca de 45 quilômetros dali. Todos os domingos, saem cedo da propriedade para montar o espaço na feira.
Os dois não utilizam agrotóxicos em sua produção, uma maneira alternativa em meio a região de Cascavel, muito conhecida pelo agronegócio tradicional. Ao se tratar dos orgânicos, Seu Ari diz que “o produto tem uma boa aceitação, só falta mais divulgação (...) A gente agradece muito o espaço aberto para nós e para levarmos esse conhecimento para as pessoas”.
Para Ari, a feira funciona também como vitrine para um tipo de produção que ainda circula pouco fora desse espaço, em um evento que, além de apresentar ao público os vendedores e seus itens, também leva conhecimento e cultura para a população local.
O vendedor também apresenta sua percepção sobre o público que adquire os produtos. “A maioria são pessoas mais velhas, preocupadas com a saúde e com o consumo de alimentos sem agrotóxicos. É um produto de qualidade, que faz bem”, explica.

Além de barracas que vendem produtos alimentícios, a Feira do Teatro também é um ponto de vendas de produções artesanais e de diversos outros artigos lúdicos.
UMA BOA IMPRESSÃO
Seguindo pelos corredores do espaço, Bruno e Patrícia se destacam: de certa forma, os dois contam e vendem histórias, ou melhor, eles as imprimem.
O casal participou em praticamente todos os momentos da Feira, desde o começo em 2018, passando por um hiato de 10 meses, entre maio de 2024 e janeiro de 2025, e continuando até os dias atuais. Na barraca dos dois, os produtos vendidos são impressões em 3D, feitas na máquina comprada por Bruno há 7 meses.

Antes da impressora 3D, Bruno trabalhava principalmente com biscuit, uma técnica mais demorada e artesanal, usada em peças decorativas. Hoje, ele combina os dois formatos, mas diz que a impressão acelerou o processo e ampliou as possibilidades de venda.
Atualmente, o que mais chama a atenção são as peças articuladas feitas na impressora. “É o que chegou para casar, o público gosta muito. O brinquedo interativo também, que é mais voltado para o pessoal com autismo, só que acaba chamando a atenção mais geral. (…) De primeiro momento, para quem vê, pode ser meio sem graça, mas aí a pessoa chega e começa a mexer ali, a ver como a peça funciona, e é o que tomou a atenção do público: o articulado e o interativo”, explica.
A impressão foi uma solução para o empreendedor, afinal, os biscuits tinham uma produção mais demorada, “já fiz uma peça de 70 centímetros em biscuit, um boneco que leva questão de meses. Já na impressora, eu faço uma peça grande, entre 50 e 60 horas ela sai grande. Se não tiver a parte de pintura, ela está pronta”, conta.
Inclusive, existem impressões personalizadas, geralmente utilizadas como presentes para familiares e amigos, com apenas uma foto. É possível transformar a imagem em uma peça 3D, com diversos estilos, cores e tamanhos.
Bruno também destaca a Feira como um importante ponto de divulgação para seus produtos. “As pessoas vêm aqui na feira e acabam vendo a nossa ‘exposição’. Clientes novos nos descobrem por aqui, o espaço aumenta nossa visibilidade”. O evento se destaca nisso, produtos autorais que geralmente são menos característicos em relação ao mercado comum; ou simplesmente versões artesanais e feitas com carinho de elementos tratados como descartáveis em grandes empresas.
Um exemplo disso está em outra barraca no mesmo corredor, lá, Dona Neide organiza roupas para bonecas, pets e crianças em pequenos varais montados ao redor do espaço, além de costuras e a produção manual que a vendedora realizava enquanto aguardava a chegada de alguém interessado nos produtos.
Ao se aproximar, a simpática Neide começa a contar sobre as roupinhas que são vistas nos “varais” ao redor da barraca. São vestimentas para bonecas, pets e crianças. Sobre sua história, ela conta que participa da Feira desde o começo e que faz as roupinhas de boneca há cinco anos. Começou por acaso, mas agora está amando a produção. “Tenho roupinha para Barbie, para boneca grande, para boneca média, o que a pessoa quiser eu faço”, comenta.
As vendas começaram com as bonecas de pano e é ela quem produz tudo à mão: corta, costura, coloca os detalhes e, como ela mesma diz, é tudo “feito com muito carinho”. A vendedora, que é aposentada, considera o espaço como algo “além de uma renda extra, é um divertimento. A gente conversa com muita gente, faz amizade... É muito bom estar aqui no domingo”.
À primeira vista, os produtos podem parecer desconexos, mas, na prática, se complementam nas vendas. “As crianças vêm pelos pets e pelas bonecas, e acabam trazendo os pais, as mães, as avós… Uma coisa puxa a outra”, explica.
A senhora também diz que “recebe o carinho” de amigos e clientes no trabalho, através dos materiais utilizados na confecção das roupinhas. “Eu faço meu trabalho todo com retalhos. Então, as pessoas sabem que eu amo, daí elas trazem para mim. Graças a isso eu posso vender em um preço mais em conta, porque eu ganho os materiais”, destaca.
Sobre planos para uma possível “aposentadoria” da Feirinha, Neide confessa que vai demorar. “Daqui uns quinze anos vou estar com 80 (anos), mas, enquanto eu tiver saúde, puder enxergar direito, falar direito, sigo aqui. É a minha vida. Porque eu fico em casa, trabalho lá, fico a semana inteira tipo… sozinha, moro sozinha. Daí a minha diversão é domingo, porque aqui eu converso com as pessoas, eu tenho muita amizade”.

No fim da manhã, quando o movimento começa a diminuir, as barracas ainda seguram mais do que produtos. Seguram conversa, rotina, reencontro e trabalho. Na Feira do Teatro, o domingo não é só um dia de venda. Para muita gente, é também uma forma de permanecer em contato com a cidade e com os outros nos começos de cada semana.




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