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Quando o cotidiano vira arte

Conheça artistas que transformam filtros de café e cartas de amor em obras de arte


Artistas plásticas usam do amor e do cotidiano para confecção de suas obras | Crédito da foto: Mateus Dias
Artistas plásticas usam do amor e do cotidiano para confecção de suas obras | Crédito da foto: Mateus Dias

Por Mateus Dias | Agência Abre Aspas


A sociedade sempre desenvolveu as mais diversas maneiras de se expressar e contar histórias. Uma delas é a arte, que, em si mesma, encontra outras tantas maneiras de se apresentar e de abrilhantar os olhos de quem a vê. De impactar quem a sente.


Às vezes, a arte nos mostra, com todo o seu esplendor, um retalho de momentos da nossa vida, do nosso dia a dia. Seja na hora daquele cafézinho, que muitos brasileiros amam, seja para escrever uma carta de amor para a pessoa amada.

Nesses dois exemplos entram as personagens responsáveis pelo Coletivo Duas Marias, Nani Nogara e Malu Rebelato, duas mulheres que se conheceram na faculdade e que hoje compartilham seus talentos para fazer arte.


Antes de chegar até Gaia e às exposições na Europa, eram simplesmente duas meninas que cresceram apaixonadas por tudo isso. Seja com museus, fotografia ou poesias, elas sempre encontravam alguma forma de fazer arte. Quando se conheceram, perceberam que poderiam completar uma à outra, cada uma em seu estilo. Foi então que decidiram: "Vamos unir as nossas artes e transformá-las em uma".


PRIMEIRAS EXPOSIÇÕES


Nani tinha 9 salas reservadas no Museu de Arte de Cascavel-PR (MAC). Com as obras feitas por ela à mão e as fotos de Malu, a primeira exposição aconteceu. Disso nasceu o nome: Duas Marias, em uma exibição que era sobre mulheres. Ao longo das 9 salas, os visitantes conheceram as nove Marias: “Cada sala do museu tinha uma instalação de alguma mulher. Tinha a Maria do Lixo, a Maria Bonita, tinha a Ave Maria (que era uma noviça), Maria Madalena (que era um vestido em uma cruz)...”, explicou Malu.


Depois do sucesso da primeira exposição, os projetos continuaram. No ano seguinte, outro trabalho focado nas mulheres. 35 foram fotografadas e outras 35, entrevistadas: “O objetivo foi mostrar que cada uma delas tinha sua vida distinta, sua família, seu estudo, sua vocação, seu trabalho, porém, como mulheres e homens, todos têm as mesmas aspirações: ter uma vida legal, uma família bem instituída, o seu trabalho, o seu dinheiro. E esse roupão dava esse significado, essa igualdade dos quereres (...) Também que ela está ali no trabalho, mas não é uma máquina. É uma pessoa que está ali, que vai ter toda aquela carga de emoção, de tudo.”, completou Nani.


O resultado foi mais um sucesso. Os trabalhos ainda eram separados, somados para alcançar o resultado final, mas, a partir daí, Malu sugeriu que, ao invés de somarem suas partes, elas poderiam fazer um único trabalho.


Então, veio o “Se fosse você?”, exposição em que os visitantes interagiram com vestimentas que, de alguma forma, “cerceiam” as pessoas que as utilizam: hábitos de freira, burcas, roupas de hospital, roupas que despertam o olhar e, em muitos casos, um errôneo julgamento alheio.


VESTIDOS E ESCULTURAS


Com a aprovação das últimas exposições, uma das aspirações que sempre martelou na mente delas se destacou: fazer vestidos. Um modelo feito com sacolinhas de supermercado já havia sido realizado, mas agora era hora de algo grande, que pudesse representar o ser humano e sua vivência através da arte, e aí entra um dos elementos mais presentes nas casas, empresas e, principalmente, encontros brasileiros. O café.


Pensando nisso, as duas se motivaram a fazer sua obra com os filtros que são utilizados no preparo da bebida, que, assim como nossa pele, têm poros, onde, inclusive, o café se mantém. A ideia era alguma coisa que trouxesse essa questão, como se fosse uma pele, uma couraça. Outro fator são as diferentes tonalidades possíveis, a depender de como a borra fica, formando desde tons mais escuros até tons quase dourados. Essa diferença seria importante para montar as diferentes partes de Gaia.


Num primeiro momento, em 2018, foi feito um vestido com os filtros, que era utilizado por Nani em ensaios fotográficos e vídeos, mas a grande ideia estava prestes a acontecer. Reproduzir aquele vestido utilizado por uma pessoa em uma grande escultura.


Gaia tem esse nome em homenagem à Mãe Terra, personagem tratada como divindade primordial e personificação do planeta na mitologia grega. A obra busca retratar a vivência que cada um tem com o café feito nos filtros que a compõem: “Tem toda uma questão dessa união das pessoas, o dia a dia. Nós queríamos o dia a dia teu, da tua família, o dia a dia daquela outra pessoa, daquela outra mulher, no café. Porque a gente imagina que tudo fica... tudo é uma energia”, falou Nani.


E, respondendo a uma das maiores curiosidades sobre a obra, foram utilizados cerca de 12 mil filtros de café em sua construção. No início, muitas pessoas os levavam lavados, considerando a sujeira um problema. No entanto, na verdade, a “sujeira” era a vivência humana que as artistas tanto procuravam naqueles filtros. “Cada café, cada momento em família é muito valioso, mais do que podemos imaginar”, diz a curadora de Gaia, Ana Carolina Villanueva. “Talvez tenha sido o último café dessa mulher e desse homem, isso naquele filtro. Porque as pessoas também partem daqui”, completou.


Além de pensar em possíveis histórias, durante o processo as pessoas interagem na entrega dos filtros com seus relatos, suas vivências e, como disse Malu, “querendo ou não, essa história vai impregnar. Senão, não teria sentido a gente fazer arte. Se não tivesse esse sentido, que te marcasse ou que construísse como uma base artística. Fazer por fazer? Não. Vamos construir algo que seja marcante para nós. E esse filtro veio justamente com essa poesia, com essa narrativa”.


O manto da escultura tem 15 metros e se estende de forma semelhante a um véu. A roda do vestido tem cerca de 95 metros, tudo feito com os filtros. Gaia chega a uma altura de cerca de dois metros na parte do “tronco”. Na parte das asas, chega aos três metros. Literalmente uma grande obra.


Gaia também é vista como personificação da natureza, representando abundância e fertilidade | Crédito da foto: @coletivoduasmarias
Gaia também é vista como personificação da natureza, representando abundância e fertilidade | Crédito da foto: @coletivoduasmarias

A escultura foi exposta pela primeira vez em Curitiba (PR), onde foi vista por Ana Carolina Villanueva, a já mencionada curadora espanhola naturalizada brasileira, que sugeriu levar Gaia para uma exposição na Europa, na cidade de Sintra, em Portugal.


Foram alguns contratempos até a chegada da peça ao Velho Continente. Por duas vezes, o contêiner foi impedido de entrar no país, mas, na terceira, deu certo. Gaia descobriu um novo continente para impressionar e, segundo as artistas, ainda tinha aquele “cheiro de café” na sua chegada.


No Palácio Biester, a obra se destacou e, após isso, foi selecionada para o Prêmio Reina Sofia, que ocorreu em Madri, organizado pela própria Sofia, que foi rainha da Espanha e é mãe do atual monarca, Felipe VI, além de ser apaixonada por arte. Em 2025, na sexagésima edição do evento, Gaia estava lá. Apesar do ambiente aparentemente protocolar e de um breve momento com a rainha, a obra recebeu toda a atenção da soberana espanhola, que admirou, fez perguntas, tocou e realmente apreciou.


Com a divulgação massiva em diversas mídias após o evento em Madri, não demorou para outra capital europeia querer o brilho de Gaia. A Bienal de Arte de Roma se tornou a casa da obra. Lá, Nani e Malu ganharam um prêmio de melhor escultura da Biennale. A obra, inclusive, foi mostrada ao Papa Leão XIV em ação realizada neste ano.


Após todo o sucesso de uma obra que seguirá na Europa pelos próximos anos, surgiu a vontade de mais duas esculturas, não necessariamente por expectativa de resultados parecidos, mas simplesmente pelo objetivo de se desafiar, de seguir fazendo a arte que tanto as motiva e que tanto conquista pessoas por aí.


PRÓXIMOS PASSOS


Uma das ideias é uma nova escultura com filtros. Ainda no mesmo pensamento de contar a “vivência”, a força, a ação, a demonstração, surge outra sugestão entre elas, uma escultura feita de cartas de amor. O simples gesto de escrever no papel, com palavras que significam tanto para quem escreve quanto para quem vai receber, gesto esse da escrita à mão, é cada vez menos comum numa sociedade rodeada por celulares, computadores e tecnologia.


O plano é ter essas cartas formando outra obra. Para os casos em que a pessoa quer doar, mas não quer “deixar a carta ir”, pode enviar uma foto, que será impressa e depois utilizada no resultado final. No momento, foram recolhidas cerca de quinhentas cartas. A única restrição é evitar histórias embaraçosas ou constrangedoras e sobrenomes de pessoas, para evitar exposições desnecessárias em uma obra.


Para manter registrado o valor de cada palavra escrita em cada uma das milhares de cartas de amor que virão, as artistas pretendem registrar em vídeo a leitura de cada texto, justamente por isso a restrição, apenas por razão de lembrança, e talvez até para utilizar em alguma obra futura.


O projeto aceita cartas de amor ou de desamor de casais. As coletas são feitas na Feira do Teatro, em Cascavel (PR), mas, se tiver interesse em enviar a sua carta, basta entrar no perfil do Instagram @coletivoduasmarias, onde há mais informações sobre os projetos e sobre as artistas.


E, para encerrar, gostaria de deixar uma fala de Malu que resume muito as duas artistas e o cenário: “Nossa intenção é envolver as pessoas. Porque desde o início a gente faz esse tipo de coisa mais interativa. Então é uma maneira de você trazer as pessoas para a obra de arte. E outra coisa bem interessante é que as pessoas acabam levando as crianças para o museu, e, quando você leva uma criança a um museu, ela vai respeitar a obra de arte, vai respeitar o artista, a sua cidade, outros artistas mais tarde e começa a respeitar o espaço em que vive, porque ela foi envolvida ali junto”.


1 comentário


Mateus, seu texto está muito bem construído. Há um acerto logo no recorte da pauta, porque você parte de elementos do cotidiano, como o filtro de café e a carta de amor, e os desloca para o campo da arte de um modo claro e envolvente. O título funciona muito bem, pois sintetiza a proposta da matéria e já convida o leitor para essa passagem entre vida comum e criação artística. Você demonstra boa escuta, bom olhar para a pauta e capacidade de transformar uma história artística em reportagem de interesse amplo. É um texto que prende a atenção, valoriza as fontes e mostra maturidade na condução da narrativa. Parabéns pelo trabalho.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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