Alta do diesel: fragilidade no campo e pressão na produção dos agricultores do Paraná
- Ana Luiza Bonini

- há 1 dia
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Com custos em escalada e influência do cenário internacional, produtores enfrentam incertezas e reavaliam estratégias para a próxima safra

Por Ana Luiza Bonini | Agência Abre Aspas
Nos últimos dias, uma preocupação passou a dividir espaço com o planejamento da lavoura: o futuro do diesel. Com a disparada de valores do combustível, causada diretamente pelos ataques no Oriente Médio envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel; a reta final da colheita de verão e o plantio do milho safrinha são diretamente impactados, já que o consumo durante o período é bastante elevado.
O cenário vivido no estado foi alvo de debate durante uma reunião da Comissão Técnica de Cereais, Fibras e Oleaginosas do Sistema FAEP, a Federação da Agricultura do Estado do Paraná, realizada no último dia 24 de março. Diferentemente do Rio Grande do Sul, onde diversos municípios relatam a escassez do combustível, no Paraná ainda não houve registros.
“Aqui, no estado, não estamos tendo esses relatos agora, estamos conseguindo abastecer a frota tanto para colher, plantar e transportar os produtos para cooperativas e portos. O grande problema é com relação ao preço mesmo, já que tivemos alguns aumentos considerados até mesmo abusivos”, explica o analista do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP, Anderson Sartorelli. Em algumas regiões, houve o aumento de até R$ 2 por litro do diesel.
Na região Oeste do Paraná, os produtores ainda não foram tão afetados durante o plantio do milho safrinha, realizado no fim de fevereiro. O produtor rural Gion Carlos Gobbi, que é de Cascavel, já concluiu o plantio, mas destaca que, mesmo assim, a região ainda é afetada pela alta do valor do combustível.
“Hoje, temos um consumo menor, mas a gente continua os trabalhos de pulverização, por exemplo, tem um gasto de combustível muito abaixo do que na época de colheita, então você também já sente”, pontua.
Apesar do período de consumo mais baixo na região, a preocupação é com o futuro, visto que ainda há incertezas em relação a normalização do valor do diesel.
“A gente já pensa na colheita de milho, daqui há 60 dias mais ou menos, então se não resolver esse problema, que não se sabe o que vai acontecer, a gente pode ter um problema muito sério de custo e falta de combustível”, destaca Gion, enfatizando que “além de pagar caro, ainda é possível não conseguir o produto”.
Uma das preocupações no Estado é em relação ao futuro, com a proximidade da safra de inverno, entre abril e junho, já que não é possível saber os próximos passos da guerra e, principalmente, porque 30% do diesel consumido no país é importado.
“A nossa preocupação, além do preço, é a falta, porque, como o consumo é grande, já tá tendo dificuldade de conseguir diesel. Se precisar hoje, você tem que pedir, às vezes, dois ou três dias com uma quantidade muito pequena. Então, além do preço, a preocupação é a falta", explica o produtor rural.
Além disso, Gion destaca outras dificuldades enfrentadas, ainda com a baixa rentabilidade da soja e milho. “Isso impacta muito no custo, a gente já tem uma rentabilidade menor hoje em cima de soja e milho, porque os preços são muito baixos e o custo muito elevado. O dólar sobe muito, o preço dos insumos também, então a margem é pequena, com mais o diesel piorando a margem ainda”.
Segundo o Sistema FAEP, a maior preocupação, hoje, não é a falta do diesel, mas, sim, dos fertilizantes. A junção da escassez dos dois elementos estão impactando diretamente no plantio da safra de inverno e também na próxima safra de verão.
Os problemas impactam também diretamente na competitividade do mercado para o produtor paranaense. O aumento dos custos de produção, incluindo frete, transporte e logística, deve ser repassado ao longo da cadeia produtiva, encarecendo o preço final para o consumidor e também impactando os valores de produtos destinados à exportação.
Cadeias curtas, como as de hortifrutis e hortaliças, também devem ser afetadas pelo aumento do combustível, já que dependem do transporte rodoviário para abastecer feiras e supermercados. Por serem produtos frescos e de rápida circulação, sem possibilidade de estocagem prolongada, a alta nos custos logísticos tende a ser repassada diretamente ao consumidor final.
O aumento dos custos de produção, frete e logística tende a reduzir a competitividade do Brasil no mercado internacional, especialmente, nas exportações de soja, principal produto do país. Esse cenário é influenciado por um mercado externo volátil e complexo, no qual fatores como demanda, oferta e a capacidade de repassar os preços aos importadores são determinantes. Ainda assim, a elevação dos custos impacta diretamente na cadeia produtiva, prejudicando todo o consumo interno de diversos produtos do setor e a exportação.
Segundo o Sistema FAEP, ainda não é possível estimar com precisão o impacto do aumento do combustível em valores por hectare ou até por safra, já que o movimento é recente, mas os efeitos devem aparecer nos próximos resultados de exportação e na entrada de dólares no país. Além disso, a avaliação mais concreta vai depender de variáveis como volume exportado e desempenho do mercado externo. Entre os setores mais afetados estão aqueles que dependem, principalmente, do transporte rodoviário, como: a cadeia da soja e as proteínas animais, especialmente, o frango, que utiliza principalmente caminhões em sua logística.
Entidades do setor do agronegócio têm intensificado o diálogo com órgãos reguladores, como a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), na tentativa de conter ou suavizar os efeitos da alta. Apesar dessas iniciativas, ainda não há definições concretas, e o cenário segue desafiador para os produtores.
Foi realizada uma proposta de subvenção aos estados, que prevê um auxílio de R$ 1,20 por litro de diesel importado até o fim de maio, dividido igualmente entre União e estados. O Paraná aderiu ao acordo federal em março de 2025, e, com isso, o impacto deve ser de cerca de R$ R$ 77,5 milhões ao mês aos cofres do estado. Além disso, também já foram adotadas medidas como zerar tributos e subsídios, mas ainda há necessidade de ações adicionais, especialmente na importação.
A proposta inicial do governo previa zerar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a importação de diesel até o fim de maio, com compensação parcial das perdas aos estados, estimadas em cerca de R$ 3 bilhões por mês, metade sendo ressarcida pela União. Porém, o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) rejeitou a medida, argumentando que a redução do imposto poderia comprometer a arrecadação destinada a serviços públicos e, também, que nem sempre a queda tributária é repassada ao consumidor final.
Por conta do impasse, o governo também tem buscado ampliar a colaboração dos estados na fiscalização do setor, propondo o envio de notas fiscais em tempo real à ANP e o compartilhamento de informações sobre “devedores contumazes”, indivíduos ou entidades que se utilizam da inadimplência e da dívida como estratégia de negócios. Outras medidas já foram adotadas para tentar conter os impactos do aumento do diesel, como a redução de tributos federais e a concessão de subsídios ao combustível.
No momento, não há rotas alternativas para reduzir de forma efetiva os impactos do aumento do diesel na atividade dos produtores rurais. Diante disso, a principal orientação tem sido acompanhar de perto os preços do combustível e, em casos de valores considerados abusivos, é possível acionar órgãos de defesa do consumidor, a exemplo dos Departamentos Estaduais de Proteção e Defesa do Consumidor (Procons), para que haja uma fiscalização sobre postos e distribuidoras.



Parabens Ana pelo texto.
Ana, o seu texto está muito bem construído e aborda um tema extremamente relevante e atual, conectando de forma clara o cenário internacional com os impactos diretos na realidade dos produtores do Paraná. A escolha do tema demonstra sensibilidade jornalística e atenção ao que realmente afeta o dia a dia do campo. A linguagem é clara, acessível e adequada ao formato jornalístico, o que contribui para uma leitura agradável. Parabéns pelo trabalho! 👏