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Da crise à travessia: a diáspora venezuelana e seus reflexos no Brasil

De acordo com relatório de 2020 do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), 142.250 venezuelanos migraram para o Brasil entre 2010 e 2019


Imigrantes, solicitantes de refúgio e refugiados no Brasil são caracterizados, na sua maioria, como pessoas do sexo masculino, em idade ativa e com nível de escolaridade médio e superior, de acordo com relatório anual OBMigra 2020 | Crédito da foto: Joédson Alves, jornal O Popular
Imigrantes, solicitantes de refúgio e refugiados no Brasil são caracterizados, na sua maioria, como pessoas do sexo masculino, em idade ativa e com nível de escolaridade médio e superior, de acordo com relatório anual OBMigra 2020 | Crédito da foto: Joédson Alves, jornal O Popular

Por Lucas Mendes | Agência Abre Aspas


A crise econômica na Venezuela é um fato histórico que se acentua de forma mais agressiva desde 2013, ano que contempla a morte de seu líder histórico, Hugo Chávez. Diante disso, muitos venezuelanos tendem a migrar para outros países, inclusive o Brasil, em busca de melhores condições de vida.

A Venezuela lidera o ranking global de petróleo, com 303 bilhões de barris em reserva, de acordo com o Governo Federal do Brasil, em relatório sobre o panorama internacional de reservas de petróleo. A economia venezuelana gira quase exclusivamente em torno do petróleo. O setor responde por 88% das receitas de exportação, estimadas em US$ 24 bilhões, e concentra aproximadamente 17% das reservas mundiais conhecidas. Trata-se de uma dependência extrema, uma monocultura construída ao longo de décadas, que deixou o país vulnerável a choques políticos, sanções internacionais e ao colapso da estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), cuja produção despencou com a perda de capacidade técnica e o sucateamento da infraestrutura.

“Em certa medida, países periféricos tendem à monocultura e, desta forma, estão sujeitos às crises econômicas do seu segmento”, comenta Luiz Gustavo Maioli, líder da brigada nacional de solidariedade por Cuba e militante do PSOL. Luiz passou 15 dias em Caracas no mês de fevereiro, a convite da Juventude do Partido Socialista Unificado da Venezuela (JPSUV).

Durante o governo de Hugo Chávez, a desigualdade caiu gradualmente no país. Seu governo buscou implementar diversos programas de assistência aos menos abastados, combate ao analfabetismo e à mortalidade infantil. Todas estas medidas sociais tinham sua viabilidade calcada no lucro petrolífero. Porém, devido à dependência excessiva do petróleo, suas ações esbarrariam em um teto, dadas as crises do recurso natural.

“Com os barris de petróleo, Hugo Chávez fez uma transformação econômica em vários aspectos da sociedade venezuelana, seja na produção de tecnologia, implementos na área da saúde, na área militar e em questões sociais. O petróleo foi o principal financiador das políticas sociais, e este processo vai até certa medida”, ressalta Luiz.


EXTREMO DO PARADIGMA EM 2014


Em 2014, um ano após a morte de Hugo Chávez, tendo Nicolás Maduro como sucessor, os preços do petróleo despencaram, sendo esta a principal causa da crise contínua que assola o povo venezuelano. O país perdeu 80% de seu PIB entre 2014 e 2021. A inflação anual chegou a mais de 800% em 2017. Uma escassez de alimentos atingiu o país. A economia ainda sofreu um duro golpe em 2017, quando os EUA aplicaram novas sanções contra o país. Dados divulgados em matéria da BBC.

Hoje, mais de 20 milhões de venezuelanos ainda vivem em situação de pobreza, sem acesso adequado a bens e serviços essenciais, alimentos e medicamentos. Cerca de 8 milhões de venezuelanos deixaram o país desde 2014, vários com destino ao Brasil.


VENEZUELANOS NO BRASIL


Em 2010, estima-se que havia cerca de 2.869 venezuelanos no Brasil. Já no ano de 2022, este número saltou para 271.514 venezuelanos, um aumento de 94 vezes em relação ao Censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa forte migração de venezuelanos para o Brasil é reflexo da instabilidade política que assola o país; a desvalorização da moeda local, o bolívar venezuelano; e grande deterioração do cenário social por conta da crise, jogando boa parte da sociedade venezuelana para a miséria.

“Eu e minha família passamos um ano todo comendo apenas manga. De manhã, de tarde, de noite. Neste ano, por sorte, deu manga o ano todo, acho que foi Deus”, conta Francisco Vasquez, imigrante venezuelano vivendo há sete anos no Brasil.

Os percalços do imigrante no país não se apresentam de maneira simples. A formatação burocrática de nosso país é diferente da “pequena Veneza”, carinhosamente chamada. De acordo com a Organização Internacional para as Migrações (OIM), apenas 9% dos venezuelanos que entram no Brasil por Roraima, também o caso de Francisco, conseguem um emprego formal nas primeiras semanas após chegarem - antes de seguirem para outros destinos. Em levantamento feito com mais de 4,1 mil pessoas em 13 municípios do estado, a agência da ONU revela que 59% desses refugiados e migrantes estão sem trabalho. Um em cada três enfrentam dificuldades em ter o que comer. De acordo com o organismo das Nações Unidas, 32% dos venezuelanos entrevistados tinham emprego em seu país de origem.

“Eu trabalhava como arquiteto, meio dia no escritório, meio dia na obra. Quando cheguei em Roraima, trabalhei de forma informal. Ganhava 500/600 reais. Para você, brasileiro, pode parecer pouco, mas para mim era muito. Consegui levar duas bolsas de comida para minha família na Venezuela com esse dinheiro”, relata Francisco.

UM SENTIMENTO PELO BRASIL


“E um cara que transava à noite

No Danúbio azul

Me disse que faz sol na América do Sul

Que nossas irmãs nos esperam

No coração do Brasil.


Minha rede branca, meu cachorro ligeiro, o Sertão

Olha o concorde que vem vindo do entrangeiro 

O fim do termo saudade, como o charme brasileiro

De alguém sozinho a cismar”.


Reflete Belchior, durante seu exílio, na faixa ‘Tudo Outra Vez’, de seu álbum ‘Dois é Demais’, de 1978.

Sentimento parecido é o de Francisco, que conta a respeito do sentimento dividido que nutre por ambos países: “Aconteceu uma coisa bem particular quando estive na Venezuela ano passado. Eu não conseguia me sentir bem lá, mesmo que sentisse saudade. Senti uma saudade dúbia - do povo, da comida, da cultura brasileira, sabe? Mas estando aqui sinto saudade da Venezuela. Meu coração está completamente dividido”.


 A FORTE MIGRAÇÃO E A ANTROPOFAGIA


Metrificadamente, vê-se que, entre o início de 2010 e agosto de 2024, o Brasil registrou a entrada de 1.700.686 imigrantes, entre residentes permanentes, temporários e fronteiriços. Além disso, o país reconheceu 146.109 pessoas como refugiadas, e recebeu 450.752 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado. Portanto, o fluxo migratório, nesse período, foi de cerca de 2,3 milhões de pessoas. Esses dados constam do Boletim das Migrações, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), por meio da Secretaria Nacional de Justiça (Senajus) em 10 de outubro de 2024.

Diante de um fluxo migratório massivo, como o que ocorre no país, as mediações culturais de um território se alteram. Fortes pressões e oposições ao governo vigente passam a ser intrínsecas na nossa realidade, tal qual qualquer sociedade do mundo contemporâneo, em decorrência da retórica anti-imigratória. Ponto que se intensifica perante o governo petista evidentemente diplomático e, muitas vezes, receptivo. Porém, na nossa relação com os imigrantes, há o conceito histórico da antropofagia cultural jogado sobre a mesa. A Antropofagia, debatida por Oswald de Andrade, em 1928, foi um movimento modernista brasileiro que propunha “devorar” a cultura estrangeira, absorvendo suas influências técnicas e estéticas, para transformá-las em uma arte única, genuinamente brasileira. Inspirado no quadro Abaporu, de Tarsila do Amaral, o movimento buscava descolonizar a cultura nacional. “Só me interessa o que não é meu”, diz Oswald de Andrade no livro Manifesto Antropofágico (1928). A antropofagia cultural já está pré-estabelecida na sociedade brasileira de forma enraizada, com pontos que vão desde os grupos Tupinambás, que devoravam seus inimigos mais fortes e bravos para absorver suas qualidades e saciar a fome, até a pizza de sushi, em que se junta dois pratos tradicionais de culinárias estabelecidas, a italiana (tradicionalmente) e a japonesa, para criar algo tipicamente nosso. Através da antropofagia, a nossa identidade nacional torna-se uma contra-identidade. Essa identidade entreaberta passa a ser uma afirmação de vida que se dá justamente nas brechas de uma identidade que nunca se fecha. É uma busca por brechas para poder recompor e criar algo para si, movimentação que só se intensifica e fica mais evidente com a presença dos imigrantes. Uma grande troca. 


De acordo com a Unicef, 20.922 crianças e adolescentes imigrantes foram alcançadas por meio de 13 Súper Panas (espaços amigáveis para crianças) em 2023 | Crédito da foto: Unicef Brasil
De acordo com a Unicef, 20.922 crianças e adolescentes imigrantes foram alcançadas por meio de 13 Súper Panas (espaços amigáveis para crianças) em 2023 | Crédito da foto: Unicef Brasil

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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