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A verdade que mora atrás das cortinas

Entre ensaios, figurinos e personagens, Pâmela Barbosa encontra no teatro um lugar onde a atuação também vira descoberta de si 


Em cena, Pâmela Barbosa interpretou Cristiano, personagem que marcou sua trajetória no teatro | Crédito da foto: Pâmela Barbosa
Em cena, Pâmela Barbosa interpretou Cristiano, personagem que marcou sua trajetória no teatro | Crédito da foto: Pâmela Barbosa

Por Lucas Carvalho | Agência Abre Aspas


Há pessoas que entram no palco para interpretar personagens. Pâmela Barbosa entrou também para descobrir quem era.


Hoje, quem a vê em cena dificilmente imagina que tudo começou com uma menina tímida, vestida com um saco de lixo preto transformado em fantasia de bruxa. Ela tinha algumas frases para decorar, um chapéu de cartolina na cabeça e um caldeirão cenográfico no centro do palco. Era uma apresentação escolar simples, dessas que costumam desaparecer da memória com o passar dos anos. Mas não para ela.


Naquele instante, sem saber, Pâmela encontrava um lugar onde a timidez perdia força. Enquanto outras crianças sonhavam com profissões que pareciam possíveis, ela descobria uma sensação difícil de explicar:

estar diante de um público e, mesmo com medo, sentir que aquele lugar também podia ser seu.

O teatro ficou. Com ele, vieram ensaios, figurinos, personagens, falas esquecidas e a vergonha de errar. Em uma apresentação, quando interpretava Tia Anastácia, confundiu "Dona Benta" com "Tia Benta" e se perdeu diante da plateia. A cena, que poderia ter afastado a menina do palco, virou parte da formação da artista. Pâmela aprendeu cedo que o erro não encerra uma história. Às vezes, ele ensina a continuar. 


Talvez venha daí o cuidado que ela tem com seus personagens. Pâmela não trabalha apenas com falas decoradas. Quando recebe um papel, imagina aniversários, medos, hábitos, lembranças e até signos. Cria famílias que o público nunca verá, inventa passados que não aparecem no roteiro e procura uma razão para cada gesto. Para ela, um personagem não nasce quando as luzes se acendem. Ele começa muito antes, nos bastidores da imaginação. 


Foi assim com Cristiano Ramos, um dos personagens mais marcantes da trajetória de Pâmela. Seu primeiro papel masculino chegou com poucas informações no roteiro, mas ela sentiu a necessidade de preencher os espaços vazios. Inventou um passado, deu nome aos pais, imaginou memórias e construiu motivos para cada traço da personalidade dele. "Eu precisava entender por que ele era daquele jeito. Talvez nada disso aparecesse na peça, mas fazia sentido para mim."


Aos poucos, Cristiano ganhou voz, gestos e manias próprias. O público passou a enxergar o personagem antes da atriz. Hoje, Pâmela guarda carinho por ele, mas acredita que pertence a outra fase de sua vida. "Muito da personalidade dele vinha de quem eu era naquela época. Acho que hoje eu já não conseguiria interpretá-lo da mesma forma." Cristiano ficou no palco. A versão dela que o criou também.


Mas há personagens que não vão embora quando a apresentação termina. Alguns ficam presos ao corpo, à memória e ao jeito de olhar para o mundo. Cristiano foi um deles. Depois de tanto tempo convivendo com aquela criação, Pâmela precisou se despedir como quem se despede de alguém próximo. Quando percebeu que a vida talvez não permitisse retomá-lo da mesma forma, sentiu uma tristeza que não era apenas artística. Era o fim de uma convivência.


O teatro tem dessas coisas. Ele faz pessoas existirem por algumas horas e, mesmo assim, deixa marcas que atravessam anos. Um figurino guardado, uma fala repetida no ensaio, uma entrada de luz, uma música ou a respiração da plateia antes do aplauso podem permanecer no corpo de quem esteve em cena.


Talvez por isso Pâmela não goste quando dizem que atuar é mentir. Para ela, o teatro nunca foi um espaço de falsidade, mas de entrega. "Quando estou atuando, aquilo é verdade. É por isso que as pessoas acreditam."


Ela faz questão de diferenciar as coisas: o ator não engana o público, apenas dá vida a uma realidade que existe naquele instante. Quando isso acontece, a plateia deixa de ver quem interpreta e passa a enxergar o personagem. "Você não me vê no palco. Você vê o Cristiano, vê a elfa, vê quem aquele personagem precisa ser." No fim, é essa verdade momentânea que transforma uma cena em algo capaz de ser sentido.


Subir ao palco, para Pâmela, é aceitar o risco de viver muitas vidas sem abandonar a própria. Já foi bruxa, Tia Anastácia, rata francesa, princesa e Cristiano. Cada papel levou algo dela e devolveu outra coisa.

A menina tímida encontrou coragem. A atriz adulta encontrou método. E, entre uma apresentação e outra, descobriu que interpretar também pode ser uma forma de se entender.

No fim, talvez seja isso que o teatro faça melhor. Ele não esconde quem uma pessoa é. Ele oferece outras máscaras para que algumas verdades consigam aparecer. Quando as luzes se apagam e uma nova história começa, aquela menina da fantasia de saco de lixo ainda parece estar ali, em algum canto do palco, lembrando do dia em que descobriu que a cortina não separava fantasia e realidade. Ela abria passagem.

 

Subir ao palco é aceitar o desafio de viver muitas vidas em uma só; para Pâmela Barbosa, cada personagem guarda uma forma de verdade | Crédito da foto: Pâmela Barbosa 
Subir ao palco é aceitar o desafio de viver muitas vidas em uma só; para Pâmela Barbosa, cada personagem guarda uma forma de verdade | Crédito da foto: Pâmela Barbosa 

2 comentários


Kamila Pesseti
Kamila Pesseti
há 2 dias

Que maravilhoso poder conhecer uma artista por trás das cortinas 🥹👏🏼

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Pâmela  Barbosa
Pâmela Barbosa
há 2 dias

Que matéria linda e cuidadosa com a verdade!

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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