Autismo e preconceito: o peso invisível do convívio social no dia a dia
- Eduarda Vitória Goes

- há 17 horas
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Relatos de famílias revelam como a desinformação ainda dificulta a inclusão de crianças autistas

Por Eduarda Goes | Agência Abre Aspas
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição neurológica que influencia a forma como a pessoa se comunica, interage e percebe o mundo ao seu redor. Por ser um espectro, não existe uma única maneira de viver o autismo: cada pessoa apresenta características, necessidades e formas diferentes de se expressar.
Apesar dessa diversidade, ainda existe uma visão limitada sobre o autismo, muitas vezes construída pelo senso comum e por representações simplificadas em filmes, séries e no próprio cotidiano. Essa imagem cria expectativas sobre como uma pessoa autista deveria agir, ignorando que cada indivíduo possui uma realidade própria.
Essa falta de compreensão contribui para o preconceito. Quando uma criança apresenta comportamentos diferentes, como dificuldades diante de estímulos sensoriais, alterações na comunicação ou necessidade de mais tempo para realizar determinadas atividades, muitas vezes ela é julgada antes de ser compreendida. Pode ser vista como “mal-educada”, “mimada” ou “difícil”, quando, na verdade, está apenas expressando uma forma diferente de sentir e interagir com o ambiente.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em sua ficha técnica sobre autismo publicada em 2023, estima-se que cerca de uma em cada 100 crianças no mundo esteja dentro do espectro autista, ressaltando que esse valor representa uma média global e que a prevalência pode variar entre os estudos. No Brasil, a Lei nº 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, reconhece a pessoa com autismo como pessoa com deficiência para todos os efeitos legais e garante direitos relacionados à inclusão e ao atendimento especializado.
Mas a existência de leis não significa que todas as barreiras tenham sido superadas. A inclusão também depende de mudanças no cotidiano, na forma como escolas, famílias e a sociedade compreendem e acolhem as diferenças.
PRECONCEITO ANTERIOR À ALFABETIZAÇÃO
Esses números ganham outro significado quando aparecem em histórias reais. Ao conversar com mães de crianças autistas, é possível perceber que muitos desafios começam justamente em ambientes que deveriam ser espaços de desenvolvimento e acolhimento.
Duas mães compartilharam relatos sobre situações vividas pelos filhos no ambiente escolar. Elas preferiram não ser identificadas, mas suas experiências revelam uma realidade enfrentada por muitas famílias.
Uma delas contou que, em determinado momento, presenciou a professora do filho puxando-o pelo braço e repreendendo-o com dureza diante de uma reação que a criança não conseguia controlar.
Outra mãe relatou que a professora auxiliar responsável pelo acompanhamento do filho decidiu se afastar da função porque encontrava dificuldades em lidar com alguns cuidados básicos, como auxiliar na troca de fraldas da criança, que ainda não tinha desenvolvido autonomia para ir ao banheiro sozinha.
Esses relatos mostram que a inclusão ainda envolve muitos desafios. Não se trata apenas da atuação de um profissional específico, mas da necessidade de ampliar o diálogo, a formação e o suporte oferecido às equipes que acompanham crianças autistas.
Cada criança possui necessidades diferentes, e compreender essas particularidades é fundamental para que o ambiente escolar consiga oferecer uma experiência mais respeitosa e inclusiva.
Diante dessa realidade, é difícil afirmar que a inclusão acontece de forma efetiva apenas porque ela está prevista em lei. Enquanto crianças autistas continuarem sendo incompreendidas, julgadas ou privadas do apoio de que necessitam, o direito à educação inclusiva permanecerá incompleto. Mais do que cobrar adaptação das crianças, é a sociedade que precisa rever suas atitudes e reconhecer que incluir exige preparo, investimento e, principalmente, disposição para compreender aquilo que é diferente do que estamos acostumados a considerar como "normal".
O autismo não deve ser visto como uma limitação que define uma pessoa, mas como uma forma diferente de perceber, aprender e interagir com o mundo. Por isso, compreender o espectro em sua diversidade é essencial para evitar julgamentos baseados em estereótipos.
A inclusão depende de informação e disposição para aprender. Nas escolas, isso significa buscar estratégias adequadas, fortalecer o apoio aos profissionais e construir ambientes onde as crianças possam participar e se desenvolver. Na sociedade, significa repensar atitudes simples: o olhar diante de uma criança em crise, a paciência diante de um comportamento diferente e a escolha de entender antes de julgar.
A inclusão de pessoas autistas não acontece apenas por meio de diagnósticos ou leis. Ela também acontece nas pequenas atitudes do dia a dia: no acolhimento, no respeito e na capacidade de reconhecer que cada pessoa possui sua própria maneira de existir.
Romper com o preconceito é um processo coletivo. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva será possível quando a diferença deixar de ser vista como um problema e passar a ser reconhecida como parte da diversidade humana. Para muitas crianças autistas e suas famílias, essa mudança não é apenas uma discussão social: é uma necessidade que precisa acontecer todos os dias.




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