A lente como manifesto
- Kamilly Felipe

- há 2 dias
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Na fronteira entre registro e criação, fotógrafos de Cascavel discutem como intenção, memória e mercado transformam a imagem em arte

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas
Todos os dias, milhões de imagens são feitas com celulares, postadas, esquecidas e substituídas por outras. A fotografia parece estar em toda parte. Mesmo assim, uma pergunta continua aberta: quando uma imagem deixa de ser apenas registro e passa a ser arte?
A resposta não está somente na câmera usada, na nitidez da foto ou no equipamento disponível. Está, sobretudo, no olhar de quem fotografa. Uma pessoa pode fotografar uma flor apenas para mostrar que ela existia ali, em determinado lugar. Outra pode escolher a luz, o enquadramento, a sombra e a textura para fazer aquela mesma flor falar sobre tempo, ausência ou permanência.
É nessa passagem que o registro ganha outra camada. A fotografia deixa de funcionar apenas como prova de que algo aconteceu e passa a organizar uma forma de ver. O clique pode durar uma fração de segundo, mas a imagem começa antes, na observação, nas referências, na memória e nas decisões que transformam o cotidiano em linguagem.
O OLHAR ANTES DO CLIQUE

Victor Bottega começou a fotografar na adolescência e trabalha na área desde os 14 anos. Para ele, a fotografia artística não depende apenas de encontrar uma cena bonita. Depende de construir uma intenção. O cenário, o figurino, a luz, a posição do corpo fotografado e a edição entram como partes de uma mesma escolha.
“A fotografia me ensina que até aquilo que parecia simples, despercebido ou sem beleza pode se tornar algo incrível quando visto pela perspectiva certa”, afirma Victor.
No trabalho profissional, essa percepção aparece tanto em ensaios quanto em imagens comerciais. Uma foto pode valorizar uma pessoa, fortalecer uma marca ou criar uma atmosfera. Em todos os casos, o fotógrafo não age como alguém que apenas aperta um botão. Ele organiza elementos para que a imagem diga algo.
Victor entende a fotografia como uma forma de guardar o tempo, mas também de deslocar o modo como alguém se enxerga. Uma boa imagem, para ele, pode mudar a relação da pessoa fotografada com o próprio corpo, com a própria história e com aquilo que antes passava despercebido.
QUANDO A MEMÓRIA PEDE IMAGEM

Se para Victor a fotografia nasceu cedo, para Edhy Monatto ela também ganhou força como forma de elaborar a vida. Fotógrafo há mais de seis anos, ele conta que sua relação com a câmera se aprofundou depois da morte da mãe. De perfil mais introspectivo, encontrou na imagem um modo de dizer aquilo que nem sempre conseguia colocar em palavras.
“A fotografia representa 99% de quem eu sou. Às vezes você fotografa um momento que talvez nem tenha sentido na hora, mas você acaba dando significado para ele”, reflete Edhy.
Para Edhy, a maturidade do olhar vem do tempo e também das experiências que atravessam cada pessoa. As perdas, os afetos, os silêncios e as lembranças interferem na maneira de fotografar. Por isso, ele aproxima seu trabalho de uma narrativa cinematográfica, como se cada imagem guardasse uma cena de um filme maior, ainda em construção.
A edição, nesse processo, não aparece apenas como acabamento. Ela ajuda a revelar a atmosfera que o fotógrafo percebeu no instante do clique. Uma cor mais quente, uma sombra preservada ou um contraste mais duro podem alterar a leitura da cena e conduzir o público para aquilo que a imagem tenta sustentar.
MERCADO, AUTORIA E COMPARAÇÃO

A fotografia também é atravessada por mercado, custos, reconhecimento e inseguranças. Aos 23 anos, com sete anos de atuação profissional, Georgia Kniphoff conhece bem esse percurso. No início, enfrentou desconfianças dentro da própria família, principalmente pela ideia de que trabalhar com imagem não garantiria estabilidade financeira.
Inspirada ainda na adolescência pelo trabalho do fotógrafo Fábio Novelli, de Cascavel, Georgia passou a observar que fotografias de moda, editoriais e produções de lifestyle também podem carregar elaboração estética. Para ela, a diferença está na intenção por trás do registro, mesmo quando o trabalho nasce de uma demanda comercial.
“A comparação me sabotou por muito tempo. Quando você entende que não é igual ao outro, que não tem a mesma vida que o outro e que, por isso, os trabalhos não vão ser iguais, você compreende melhor as coisas e leva tudo com mais leveza”, pontua Georgia.
A fala toca em um dos pontos mais presentes para jovens fotógrafos: a pressão das redes sociais. Em um ambiente em que portfólios, bastidores e resultados aparecem o tempo todo, a comparação pode paralisar. Para Georgia, amadurecer artisticamente também passa por aceitar o próprio ritmo, reconhecer limites e construir uma assinatura sem tentar copiar a trajetória de outra pessoa.
A IMAGEM COMO ESCOLHA
Os três fotógrafos partem de experiências diferentes, mas se aproximam em um ponto: a fotografia se torna arte quando deixa de ser apenas captura e passa a ser escolha. Há técnica, equipamento e edição, mas há também memória, escuta, sensibilidade e posicionamento.
A câmera registra aquilo que está diante dela. O fotógrafo decide o que aquele fragmento vai dizer. É nesse intervalo entre o mundo visto e o mundo interpretado que a fotografia encontra sua força artística. Mais do que congelar instantes, ela ensina que toda imagem carrega uma pergunta sobre quem olha, quem é visto e o que escolhemos guardar do tempo.

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