O milagre que veio antes do tempo
- Eduarda Vitória Goes

- 1 de jun.
- 7 min de leitura
Atualizado: 2 de jun.
História de Luciana Duarte, uma gravidez de risco, o nascimento de um filho com 756 gramas e a força de quem aprendeu que amor também é espera

Por Eduarda Goes | Agência Abre Aspas
“Mãe, o seu bebê está coroando. Essa criança não pode nascer agora”.
Luciana Duarte estava deitada em uma maca do Hospital Universitário de Cascavel quando ouviu as palavras da médica. Era 2 de maio de 2020. Ela tinha ido ao hospital imaginando que não seria nada grave e havia até comentado que passaria no supermercado na volta. Estava com 23 semanas e 3 dias de gestação, cerca de cinco meses e meio.
A médica pediu que ela não se movesse, que ficasse parada, deitada. O útero não estava sustentando a gestação. Se ela se mexesse, o bebê nascia. “Eu entrei em desespero, fiquei apavorada, comecei a chorar”, conta Luciana. Do lado de fora do hospital, o marido, Ronaldo, esperava sem saber o que acontecia, porque o celular dele estava sem bateria. Por causa da pandemia, ela havia entrado sozinha. Precisou avisar familiares para que dessem a notícia a ele.
A médica disse que ela precisaria tentar segurar o bebê por pelo menos 45 dias. O repouso era absoluto: sem ir ao banheiro e com a alimentação feita na própria maca. Luciana tentava se acalmar. “Pelo menos eu tenho o Pedro”, pensava a mãe. Mas Matheus não parava de se mexer na barriga.
O COMEÇO DE TUDO
Hoje, a rotina é corrida: Luciana leva Matheus à escola e à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) todos os dias e o acompanhamento é constante. Mas, para a família, a felicidade em cada avanço dele é maior do que qualquer cansaço. A trajetória até aqui começou quando Luciana tinha 24 anos e teve o primeiro filho, Pedro, ao lado do marido, Ronaldo. Quando Pedro completou 10 anos, ela retirou o dispositivo intrauterino (DIU) para tentar engravidar novamente. A tentativa durou anos e trouxe duas perdas: um aborto espontâneo e uma gestação anembrionária, quando não há embrião em desenvolvimento. A esperança foi ficando mais distante.
Oito anos depois, quando Pedro já tinha 18 anos e Luciana completava 40, a notícia chegou. Ela estava grávida novamente. Era dezembro de 2019. “A gente ficou morrendo de alegria, a família toda”, diz. O pré-natal seguia bem, o bebê crescia no ritmo certo, e a cesariana já estava marcada para agosto. Até aquele dia de maio.
O PARTO
Luciana ficou dois dias deitada naquela mesma maca, com exames de ultrassom frequentes. Na madrugada de 4 de maio, a bolsa rompeu e molhou toda a maca. Mesmo assim, os médicos tentavam adiar o parto. Cada minuto de Matheus dentro da barriga era valioso. Ela conseguiu segurar até as 9h15.
A médica explicou que a cesariana não era a opção indicada, pois o bebê era pequeno demais e precisava passar pelo canal vaginal para estimular a respiração. Luciana já havia tomado medicações para amadurecer os pulmões dele, mas Matheus precisava daquele esforço. A médica avisou também que ela não veria o filho ao nascer. Ele iria direto para a UTI Neonatal.
“Eu achava que ele não tinha chance. Olhava para o semblante dos médicos e entendia que não seria um parto comum”.
Luciana não sentiu dor. O bebê era pequeno demais. Ele não chorou, não tinha forças. Com dois minutos de vida, Matheus já estava intubado na incubadora. Seu índice de Apgar era 1. Em geral, recém-nascidos chegam a pontuações entre 7 e 9. Ele pesava apenas 756 gramas.
O PRIMEIRO DIA
Luciana foi para o quarto sem o filho. No dia seguinte, à tarde, ela e Ronaldo foram juntos ver Matheus pela primeira vez. “Quando a gente viu ele na incubadora, era difícil acreditar que um ser tão pequeno pudesse resistir”, conta Luciana. Segundo o que os médicos explicaram à família, os dedos das mãos ainda estavam unidos e o cérebro não estava completamente formado.
Ronaldo lembra daquele momento: “A gente teve fé em Deus de que ele ia crescer. Passamos por acompanhamento psicológico. Eles nos disseram que Matheus poderia não ter chance de viver, que poderia ter muitas sequelas, poderia não andar, não falar, não comer”. Matheus teve hemorragia cerebral, paradas cardíacas e muitas outras complicações. Mas a hemorragia regrediu sem cirurgia.
Em casa, Ronaldo e Pedro ficaram responsáveis por organizar o que ainda faltava. O berço não havia sido montado. As roupas eram poucas. A família havia esperado para comprar tudo com calma. A chegada de Matheus não deu esse tempo.
DIAS DE INCERTEZA
Luciana teve alta e voltou para casa, mas passou a retornar ao hospital todos os dias. A pandemia impunha suas regras. Durante dias, cada visita trazia uma notícia diferente. “Demorou para termos notícias boas”, destaca. Um dia era pneumonia. Outro, uma bactéria. Os problemas apareciam e eram controlados aos poucos.
Matheus chegou a pesar 450 gramas. Ronaldo conta que, ao colocar a mão na incubadora, cobria o filho inteiro com a própria mão. A fralda, a touca e a coberta que ele usava eram feitas à mão pelas enfermeiras. Os pais guardam essas peças até hoje, para mostrar o tamanho que ele tinha.
Houve dias em que Luciana ligava desesperada dizendo que o bebê estava morrendo. A esperança havia se instalado, mas recuava a cada notícia ruim. Naquele período, ela fez amizade com outras mães que passavam pela mesma situação, algumas em casos ainda mais graves. Todos os dias havia entrada e saída de crianças. Muitas chegavam e logo saíam. “Algumas não voltavam para casa. Aquilo só ia apertando cada vez mais o coração”, comenta.
No dia 10 de julho, aniversário de Ronaldo, o pai pegou o filho no colo pela primeira vez, com o oxigênio e os fios dos batimentos cardíacos sempre presentes.
O CHÁ QUE A PANDEMIA NÃO IMPEDIU
Do lado de fora do hospital, a família e os amigos não ficaram parados. Os familiares organizaram um chá de bebê surpresa em formato de carreata: as pessoas passavam de carro em frente à casa deles e entregavam presentes para Matheus. A pandemia impediu o abraço, mas não impediu o carinho. Segundo Luciana, cada gesto também era uma forma de dizer que não estavam sozinhos.
OS PRIMEIROS AVANÇOS
Com dois meses de vida, Matheus foi colocado no colo da mãe pela primeira vez. Também aconteceu a primeira tentativa de amamentação. Durante todo o período de internação, Luciana fazia a extração manual do leite para manter a produção e garantir o alimento ao filho. Aquele foi o primeiro contato mais próximo. “As enfermeiras fizeram uma festa, todas ao meu redor. E, de primeira, ele pegou no peito, ainda com o oxigênio. Não tinha nem jeito de pegar, de tão pequeno que era”, relembra.
Na UTI, Matheus ficou 60 dias. Certo dia, ele arrancou o tubo de intubação sozinho. Foi quando os médicos começaram a perceber uma melhora na respiração. Mas, no dia em que recebeu alta da UTI, o oftalmologista fez a última avaliação e descobriu um descolamento de retina. Cirurgia de emergência. Mais dias de internação.
Em seguida, Matheus e Luciana foram transferidos para a Unidade de Cuidados Intermediários (UCI). Matheus já dependia menos do oxigênio, mas precisava de monitoramento constante. Como havia uma bactéria de contato desde a UTI, ele não podia ficar próximo de outros bebês. Um dia, Luciana chegou ao hospital e olhou pela fresta de sempre. O leito 6, onde Matheus ficava, estava vazio. “Eu saí correndo, bati na porta, desesperada”, conta. Estava tudo bem. Ele havia sido isolado por causa da bactéria. “Mas meu coração bateu mais forte, pensando que poderia ter acontecido o pior”, lembra. Ficaram isolados por quatro dias.
A ENFERMARIA PEDIÁTRICA
Depois do isolamento, Matheus foi para a enfermaria pediátrica. Ficou dez dias. “Foram os piores dias da minha vida. Eu tinha que ficar sozinha com ele”, conta Luciana. O medo era esse: estar sozinha e não saber o que fazer se algo acontecesse. Os corredores e salas frias tornavam tudo mais difícil.
Uma enfermeira a orientou: na hora certa, ela poderia retirar o oxigênio. No segundo dia, Luciana tomou coragem e retirou, conforme a orientação. Matheus respirou fundo, segundo ela, como se não tivesse passado por tudo aquilo.
O irmão Pedro não via a hora de conhecer Matheus. Um dia, ele apareceu no quarto enquanto Luciana chorava. Só de vê-lo, o coração dela ficou mais calmo.
A VOLTA PARA CASA
No dia da alta, as enfermeiras que acompanharam Matheus se despediram dele. Foram quase quatro meses dentro do hospital. Para quem acompanhou de perto, a alta tinha o sentido de milagre. Ninguém imaginava que ele seria tão forte.
Em casa, por causa da pandemia, ninguém podia visitá-lo ainda. Os procedimentos eram ainda mais rígidos. Mas a família estava reunida. O berço que Ronaldo havia montado sozinho finalmente tinha dono.
MATHEUS HOJE
Matheus tem 6 anos e recebeu diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Anda, corre e sorri. O sorriso, como dizem os familiares, dá forças para continuar. Para Luciana, olhar para ele é entender que tudo teve um propósito.
Ele frequenta a Apae e faz acompanhamento constante. A evolução foi lenta, e cada etapa, como sentar, andar e comer, foi uma conquista. As sequelas poderiam ter sido muito mais graves.
Matheus faz tudo o que uma criança da idade dele faz: anda, corre, brinca e fala, do jeitinho dele. Mas há dias pesados. As crises do TEA fazem parte da rotina, e Luciana sabe que o caminho ainda é longo. O que não falta, segundo ela, é força para seguir.
Para Luciana, a relação dele com o irmão Pedro é bonita de ver. Os dois parecem conectados de um jeito que vai além da idade. Matheus tem por Pedro um amor incondicional, e isso alegra o coração da mãe toda vez que ela os vê juntos.
Ronaldo esteve presente em cada etapa: no hospital, em casa, nas terapias, nos dias difíceis e nos dias de conquista. Até hoje, os dois revezam tudo. “Um paizão”, define Luciana.
Na gaveta, guardados com cuidado, estão a touca, a fralda e a coberta feitas à mão pelas enfermeiras da UTI. Cabem na palma de uma mão. Matheus, hoje, não cabe mais.





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