Sobreviver também é reaprender a viver
- Rayssa Farinon

- há 4 dias
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Depois de um atropelamento que matou três pessoas e interrompeu seus planos profissionais, Amanda transformou anos de reabilitação em uma nova forma de estar no mundo

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas
Em julho de 2021, Amanda parecia estar diante do começo da vida que havia planejado. Recém-formada em Arquitetura e Urbanismo, fazia trabalhos como freelancer, participava de entrevistas de emprego e se preparava para mudar de cidade. Uma oportunidade em Cascavel aparecia como porta de entrada para a carreira que ela imaginava construir. Pouco depois da formatura, porém, um atropelamento interrompeu todos esses planos e colocou sua vida em outro tempo.
Na noite de 21 de agosto de 2021, em Medianeira, no Oeste do Paraná, Amanda foi atingida em um acidente que deixou três mortos e a colocou entre a vida e a morte. A partir dali, o projeto de iniciar a carreira deu lugar a uma jornada longa de sobrevivência, reabilitação e reconstrução da própria identidade.
O ACIDENTE
As primeiras memórias daquele dia não vieram dela. Durante meses, Amanda não conseguia se lembrar do que havia acontecido. Os danos neurológicos provocaram falhas de memória que apagaram o momento do atropelamento e também parte dos meses anteriores. Nem mesmo a entrevista de emprego em Cascavel permanecia nítida. Muita coisa ela passou a saber pelos familiares e amigos.
"Eu estava no acostamento, em uma rodinha com outras pessoas. Só lembro de estar de frente para o Luís. Ele veio na minha direção como se quisesse me alertar sobre alguma coisa. Depois disso, fica tudo preto", relembra.
Luís, considerado por ela um de seus melhores amigos, não sobreviveu. Quando Amanda despertou do coma, ainda não tinha dimensão do que havia perdido. Acreditava que, em pouco tempo, voltaria para casa, retomaria a rotina e começaria a trabalhar. O corpo, no entanto, já não respondia como antes, e a vida ao redor dela também havia mudado.
Foi apenas no fim de outubro, quando a mãe contou sobre a morte de Luís, que Amanda compreendeu parte da gravidade do que enfrentaria. O luto chegou junto com a percepção de que o retorno ao passado não seria possível. "O pior foi descobrir que o Luís morreu. Foi quando entendi que nunca mais voltaria tudo ao normal", conta.
A partir daquele momento, o desafio deixou de ser apenas permanecer viva. Era preciso reaprender o que antes parecia automático: caminhar, falar, movimentar o braço, atravessar espaços, executar tarefas simples e reconhecer o próprio corpo.
QUANDO O CORPO TAMBÉM PRECISA SER CONVENCIDO
O impacto psicológico foi tão forte quanto o físico. Ao entender as sequelas e as limitações que teria pela frente, Amanda viveu uma das fases mais delicadas da recuperação. Teve pensamentos de morte, sentiu medo do futuro e precisou de acompanhamento psiquiátrico para atravessar o período de maior desesperança.[3]
"Fiquei totalmente apática e sem sentimentos. Foi uma fase muito difícil. Mas a medicação me salvou. Depois, passou", afirma.
Enquanto ela enfrentava esse processo, a família também tentava sobreviver ao próprio sofrimento. Pais, avós e familiares acompanhavam cada pequeno avanço sem deixar que a dor aparecesse diante dela. Só mais tarde Amanda soube que a avó escondia as lágrimas para que ela não a visse chorar. Sem perceber, todos travavam a mesma luta: sustentar a esperança quando quase nada era previsível.
O RECOMEÇO
Depois da alta hospitalar, a recuperação se transformou em rotina. O diagnóstico era duro, mas trazia uma possibilidade: ela poderia voltar a andar, falar e movimentar o braço, desde que não interrompesse os tratamentos. O braço esquerdo, que sofreu lesões graves e chegou a ter risco de amputação, passou a ser acompanhado de perto. Cada movimento recuperado virou uma conquista.
Cinco anos após o acidente, as sequelas ainda fazem parte da vida de Amanda. Caminhar continua sendo um desafio. Ela anda melhor em locais planos, evita atravessar ruas sozinha e enfrenta dificuldades em calçadas irregulares, principalmente pela falta de acessibilidade. O braço esquerdo recuperou apenas parte dos movimentos, e a voz permanece diferente em razão das lesões neurológicas.
A visão também exigiu cuidado. Em determinado momento da recuperação, Amanda desenvolveu diplopia, condição conhecida como visão dupla. Mais tarde, descobriu a reabilitação visual, tratamento que considera essencial para recuperar parte da independência. "Não consigo expressar o alívio que é conseguir ler a placa do carro da frente de novo", relata.
A reabilitação envolveu uma rede de profissionais. Médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos, psiquiatras e especialistas de diferentes áreas acompanharam sua evolução. Além dos tratamentos convencionais, ela também passou por abordagens complementares, como neurofeedback e neuromodulação, que ajudaram na recuperação de funções cognitivas.
O acesso a tudo isso teve custo alto. Rifas, vaquinhas, empréstimos e o esforço da família possibilitaram parte dos tratamentos. Para facilitar a rotina de cuidado, Amanda, a mãe, Dagmar, e o irmão mais novo, Théo, mudaram-se de Medianeira para Foz do Iguaçu.
"Sou muito grata porque consegui tratar cada detalhe, mas foi muito investimento", afirma.
ACEITAR UMA NOVA VERSÃO DE SI
Durante os três primeiros anos após o atropelamento, Amanda concentrava seus pensamentos em um único objetivo: voltar a ser exatamente quem era antes. Com o tempo, percebeu que essa volta não existia. A recuperação não apagaria o acidente, nem devolveria a vida do jeito que ela conhecia.
"Acho que o pior foi aceitar que eu nunca mais voltaria a ser eu", conta.
Enquanto se dedicava à reabilitação, via amigos construindo famílias, consolidando carreiras e seguindo caminhos que, para ela, pareciam distantes. A sensação era de que a própria vida havia ficado suspensa enquanto o mundo continuava andando.
A mudança, no entanto, não aconteceu apenas no corpo. Amanda diz que passou a valorizar pequenas conquistas que antes pareciam naturais. Erguer um copo de água, dar alguns passos, ler uma placa ou conseguir sair de casa tornaram-se gestos carregados de sentido. A gratidão deixou de ser uma ideia abstrata e passou a morar nas tarefas do dia.
A experiência também mudou seu olhar sobre as pessoas com deficiência. Depois do acidente, ela passou a notar barreiras físicas e sociais que antes quase não enxergava: calçadas quebradas, ruas difíceis de atravessar, espaços sem adaptação, olhares impacientes e a ideia de que autonomia é algo simples para todos.
"Me considero mais empática em relação a uma parcela da sociedade que eu nem percebia antes", afirma.
As relações pessoais também foram reorganizadas. Algumas amizades permaneceram, outras se afastaram. Amanda levou tempo para compreender que isso fazia parte do movimento da vida, embora a sensação de perda tenha sido difícil em um período no qual tudo já parecia instável. "O caminho das pessoas muda. Eu levei tempo para entender isso. Fiquei muito tempo presa ao passado", diz.
VOLTAR AO MUNDO
Hoje, Amanda tenta retomar o mercado de trabalho por meio de um estágio voluntário. O retorno, porém, traz novos desafios. Depois de anos concentrada na recuperação, ela precisa conquistar espaço em uma realidade profissional que ainda nem sempre compreende as necessidades de pessoas com deficiência. "Antes, o grande desafio era recuperar movimentos básicos. Agora, o grande desafio é conseguir me reintegrar com a realidade que eu tenho", resume.
Em Foz do Iguaçu, ela também encontrou novas formas de pertencimento. Aproximou-se de pessoas com interesses semelhantes por meio da Sociedade Vegetariana, construiu amizades e passou a compartilhar valores que considera parte importante da vida que deseja manter.
Nas redes sociais, descobriu outro espaço de elaboração. Ao contar sua história, começou a acolher pessoas que enfrentam situações parecidas. Embora muitos a vejam como inspiração, Amanda admite que essa imagem já pesou. No início, sentia que precisava justificar o fato de ter sobrevivido, como se a vida exigisse dela algo extraordinário.
Foi esse sentimento que a levou a escrever dois livros, com a intenção de oferecer apoio a quem também vive processos de dor, perda ou recomeço. Com o tempo, porém, sua compreensão mudou. "Entendi a maravilha de ser feliz na própria insignificância", afirma.
A frase resume uma virada. Para Amanda, ajudar uma pessoa de cada vez, dividir experiências e mostrar que existe vida depois de uma tragédia passou a fazer mais sentido do que carregar o peso de mudar o mundo inteiro.
A realidade atual ainda exige adaptações, tratamentos e paciência. Mesmo assim, permite que Amanda volte a sonhar. Ela sabe que alguns planos precisarão seguir por outros caminhos, mas continua buscando realização profissional, mais autonomia e novas possibilidades de futuro.
"O importante é saber o que eu posso fazer agora", finaliza.
Sobreviver, para Amanda, não foi apenas sair viva de um acidente. Foi aprender a negociar com o corpo, a conviver com ausências, a aceitar limites e a reconhecer pequenas vitórias. A vida não voltou ao ponto em que havia parado. Seguiu por outro mapa. E, nesse caminho, ela descobriu que reaprender a viver também é uma forma de continuar.




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