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O extraordinário mora no simples

Na rotina de Marcela e Renata, o amor aparece nas escolhas comuns, nos gestos de cuidado e na decisão de existir sem pedir licença


Marcela e Renata compartilham nas redes a rotina de um amor vivido com cuidado, humor e presença | Crédito da foto: arquivo pessoal
Marcela e Renata compartilham nas redes a rotina de um amor vivido com cuidado, humor e presença | Crédito da foto: arquivo pessoal

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas


Às vezes, uma história de amor começa com um gesto grandioso. Outras vezes, nasce em uma conversa no corredor de um supermercado. Foi ali que Marcela comentou com uma amiga que estava solteira. A amiga não deixou a frase se perder no ar e enviou uma mensagem para Renata: “Amiga, acho que tenho uma pretendente para você”.


Renata, solteira havia quatro meses, começou a seguir Marcela nas redes sociais. Marcela retribuiu. Por alguns minutos, Renata esperou que a primeira mensagem viesse do outro lado. Como isso não aconteceu, tomou a iniciativa: “Olá, tudo bem? Falaram muito bem de você aqui no WhatsApp”. A conversa atravessou a noite, seguiu pela terça-feira e, na quarta-feira, virou um convite para o cinema. Foi também o dia do primeiro beijo.


Depois disso, os encontros se repetiram: sexta-feira, sábado, domingo, segunda-feira e terça-feira. Em dez dias, a aproximação já havia virado namoro. Hoje, as duas completam quatro anos juntas, moram na mesma casa e estão noivas desde 2023. O que começou sem grandes expectativas se transformou em uma vida compartilhada, feita de rotina, planos, afeto e escolhas diárias.


Marcela e Renata se identificam como pansexuais. Com o tempo, nomear a própria identidade ajudou as duas a compreender melhor os sentimentos e a viver a relação com mais segurança. Para elas, falar sobre isso também é uma forma de abrir caminho para outras pessoas que ainda tentam compreender quem são, quem amam e como desejam existir no mundo.


A presença do casal nas redes sociais nasceu de maneira espontânea. No começo, o perfil era de Renata, e Marcela aparecia em alguns stories. Aos poucos, as pessoas começaram a se interessar pela dinâmica das duas, pelo humor, pelas conversas e pelo jeito como mostravam a vida sem transformar o relacionamento em espetáculo. O perfil @renatchela passou, então, a ser um espaço do casal. Na época da apuração, reunia mais de 143 mil seguidores.


Segundo o casal, o perfil começou a crescer depois que elas participaram de um desafio de 16 dias. A proposta era encontrar um formato criativo que as levasse aos 100 mil seguidores até o fim do ano. Em menos de dez dias, chegaram a 40 mil seguidores, pois encontraram o formato já no primeiro vídeo, que viralizou. Em menos de 40 dias, alcançaram 100 mil seguidores e, desde então, mantêm uma comunidade próxima e engajada.


O formato de maior sucesso é apelidado de “corredor”. Nele, as duas falam sobre temas LGBTQIAPN+ relacionados à vida do casal. As pautas são abordadas de forma leve e descontraída, sempre com humor.

Para Renata, inspirar outras pessoas por meio de um relacionamento saudável tem um sentido próprio. Ela conta que já viveu uma relação marcada por conflitos e que, por isso, se sente tocada quando alguém enxerga nela e em Marcela uma referência de cuidado. “Eu já tive um relacionamento tóxico, já passei por uma separação, então acho muito legal as pessoas me verem como uma inspiração e eu poder contribuir com isso. Eu fico muito lisonjeada”, afirma.


Marcela vê essa exposição com responsabilidade semelhante. Para ela, mostrar uma relação construída com respeito ajuda a disputar o imaginário de quem, muitas vezes, encontra somente exemplos de casais em crise. “Eu acho que levar essa mensagem sobre relacionamento saudável é muito importante, porque já existem muitos exemplos de casais mostrando como não ser”, diz.


A rotina compartilhada, no entanto, não elimina o preconceito. Marcela se identifica como uma mulher desfem, termo utilizado para mulheres que não seguem padrões de feminilidade tradicionalmente impostos, como o uso de maquiagem, unhas pintadas ou determinada forma de se vestir. Por isso, ainda percebe olhares de estranhamento em banheiros femininos, provadores de lojas e outros espaços onde sua presença parece incomodar quem espera uma única forma de ser mulher.


Essas situações mostram que a existência de casais LGBTQIAPN+ nas redes sociais vai além da produção de conteúdo. Para Marcela e Renata, aparecer juntas em cenas comuns também é uma forma de afirmar que o amor delas não precisa ser explicado o tempo todo. Ele existe no café, na casa dividida, nas brincadeiras, nos compromissos, nos vídeos e nas conversas que atravessam o dia.


O casal também chama a atenção para a forma como a representatividade costuma ser lembrada somente durante o Mês do Orgulho. Na avaliação das duas, muitas marcas e instituições se aproximam da pauta em junho, mas deixam a comunidade LGBTQIAPN+ invisível durante o restante do ano. “É muito importante mostrar que a gente existe, que a gente ama e que também constrói uma vida como qualquer outra pessoa”, afirma Marcela.


Talvez seja justamente esse o ponto da história. O extraordinário não está em transformar Marcela e Renata em exceção, nem em tratar a relação delas como curiosidade. Está em permitir que duas mulheres possam viver o amor com a mesma liberdade concedida a tantos outros casais. Está no direito de serem vistas sem que a presença delas pareça uma provocação. Está no simples, quando o simples, para muita gente, ainda precisa ser conquistado todos os dias.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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