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Coração peludo: a cultura do descarte animal

Esgotamento de protetores e falta de guarda responsável expõem a urgência de uma nova consciência coletiva


O abandono animal cresce no período de férias pela falta de planejamento dos tutores e pela cultura do descarte, que alimentam o ciclo de sofrimento | Crédito da foto: Victor Gabriel
O abandono animal cresce no período de férias pela falta de planejamento dos tutores e pela cultura do descarte, que alimentam o ciclo de sofrimento | Crédito da foto: Victor Gabriel

Por Júlia Novello | Agência Abre Aspas

 

“Eu já resgatei uma cachorrinha com dez filhotes abandonados no meio de um milharal, em um dia de muita chuva. Os filhotinhos estavam afundando na lama e a mãe estava tão magra que eu conseguia contar as costelas”. O relato é de Carla Luana Altumann, que dedica mais de 15 anos de sua vida à causa animal.

 

Por dez anos, Carla abriu sua casa e parte da rotina a animais abandonados, como protetora e lar temporário de cães e gatos em Toledo, no oeste do Paraná. A relação de cuidado vem da infância, mas foi na vida adulta que ela começou a atuar como protetora.

 

“Eu trabalhava em uma clínica veterinária e apareceu uma pitbull que mexia apenas o pescoço. Enquanto fazíamos exames para tentar identificar o que ela tinha, acabei me apegando e decidi assumir a responsabilidade para evitar que ela fosse eutanasiada. Por mais que eu não tivesse obrigação, algo tocou meu coração. Eu sabia que precisava ajudar. Logo depois disso, ela começou a recuperar os movimentos e, quando recebeu alta, saiu da clínica caminhando”. O momento foi um divisor de águas na vida de Carla.

 

De filhotes de cachorro tomados por larvas a gatos com os olhos arrancados, Carla viu de perto situações extremas de abandono no Brasil.

 

PANORAMA NACIONAL

 

Com frequência, cães são chamados de “o melhor amigo do ser humano”. No entanto, estudos recentes mostram que a recíproca nem sempre se confirma. Segundo dados do estudo realizado pela Mars Petcare, em parceria com um grupo global de especialistas, 20,2 milhões de cães vivem em situação de abandono no Brasil, o que corresponde a 25% da população canina no país. O estudo de 2024 também aponta que a proporção de gatos sem lar é semelhante, chegando a 26%, com 10 milhões de animais. Desse total, uma pequena parcela vive em abrigos: 177,6 mil cães e 7,4 mil gatos.

 

Cinthia Moura, coordenadora do Departamento de Proteção e Defesa Animal da Prefeitura de Toledo, explica que a demanda por abrigos é muito maior do que a capacidade de acolhimento. “Quem trabalha com a causa animal sabe que, infelizmente, nós nunca conseguiremos acolher 100% deles, porque as taxas de abandono são muito altas. Além disso, temos também os animais resgatados que, ao serem retirados da guarda anterior, também precisam de um lar”.

 

Dentro desse sistema, órgãos públicos, nos âmbitos municipal, estadual e federal, realizam ações de controle populacional e saúde dos animais, por meio de campanhas de vacinação, castração, arrecadação de alimentos e resgate. Já as ONGs arrecadam recursos financeiros, realizam resgates e atuam na reabilitação de animais, que depois podem ser encaminhados a protetoras e lares temporários.

 

LARES TEMPORÁRIOS

 

“A partir do momento em que você ajuda a primeira vez, as pessoas acham que aquilo vira a sua obrigação. Por mais que eu quisesse, com todo o meu coração, acolher todos os gatos e cachorros que precisam de abrigo, eu não tinha condições financeiras nem espaço para receber todos dentro da minha casa”, explica Carla.

 

Por ser proprietária de um estabelecimento de estética veterinária e engajada com a causa animal, o nome de Carla começou a circular nesse meio e o pet shop passou a ser visto por alguns tutores como um “ponto de descarte” para quem queria se desfazer dos animais. Ela relata casos em que o animal era levado para o banho e nunca mais era buscado, além de caixas de papelão com filhotes deixadas em frente ao estabelecimento.

 

Outro ponto crítico sobre a realidade dos cuidadores é que, a partir do momento em que o animal é entregue ao protetor, seja por um órgão público ou por uma ONG, a responsabilidade passa a ser dele. “Devido ao grande número de animais em situação de vulnerabilidade e à baixa capacidade de acolhimento, muitos abrigos acabam virando um depósito de animais. A gente sabe que não é a intenção do protetor, mas, ao receber tantas vidas para cuidar, o cuidado e a atenção para cada uma delas ficam limitados. Isso não é bom nem para os animais, nem para os protetores”, explica Carla.

 

Por maior que fosse o amor pelos animais, a necessidade de sobrevivência falou mais alto, e Carla precisou abrir mão do antigo sonho de abrigar animais para cuidar da própria saúde mental.

“Eu estava adoecendo, meu relacionamento estava se desgastando e eu precisava mudar toda a minha rotina em torno dos animais acolhidos. Eu não tinha suporte. A minha vida e o meu negócio ficaram em segundo plano, e eu precisava pagar as minhas contas”.

 

CAUSAS E CONSEQUÊNCIAS

 

Entre as principais causas de abandono estão a adoção sem planejamento e mudanças na vida dos tutores, que, por viagens, mudança de residência ou altos gastos, decidem se desfazer dos animais de estimação. Esse abandono traz consequências para os animais e para o sistema que tenta acolhê-los.

 

Os maiores números de casos costumam ser registrados entre dezembro e janeiro, período de férias escolares. A obrigação de levar o animal para a viagem ou pagar uma hospedagem passa a ser vista, por alguns tutores, como incômodo ou empecilho. Então, a opção considerada mais fácil é descartar seres vivos como se fossem objetos sem uso.

 

Outro fator que potencializa esse descaso é a quebra de expectativas. Os animais de estimação são constantemente antropomorfizados, ou seja, humanizados. Cria-se a expectativa de que eles se comportem como humanos e, quando apresentam comportamentos próprios da espécie, como latir ou roer móveis, o encanto se quebra.

 

“Os animais são excepcionais em nos oferecer amor e carinho, mas as pessoas têm dificuldade de entender que eles ainda são animais, que respondem aos seus instintos, e não brinquedos”, explica a protetora.

 

Para os animais, o abandono significa sofrimento e incerteza. Lançados à própria sorte, muitos enfrentam fome, sede, doenças sem tratamento e violência, seja de outros animais ou de humanos. O trauma gerado pelo abandono pode se manifestar por meio do medo, da agressividade ou da submissão extrema, dificultando a reintegração ao convívio e uma adoção futura. A expectativa de vida de um animal abandonado é reduzida, e, a cada dia nas ruas, ele fica exposto a atropelamentos, envenenamentos e maus-tratos. A vida que antes era de companhia passa a ser uma luta diária pela sobrevivência.

 

O abandono também sobrecarrega o sistema público e as organizações de proteção. Prefeituras e ONGs veem seus recursos financeiros e humanos esgotados na tentativa de resgatar, tratar, abrigar e promover a adoção de milhões de animais. Essa demanda também afeta a saúde pública, pois aumenta o risco de zoonoses e da proliferação de doenças.

 

Além disso, a falta de estrutura e de verba dificulta a implementação de políticas públicas de controle populacional, como a castração em massa. Com isso, o número de animais abandonados continua a crescer e supera a capacidade de acolhimento e reabilitação.

 

Um estudo brasileiro sobre abrigos, desenvolvido por estudantes de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e publicado em 2022, com o título “Perfil dos abrigos de cães e gatos brasileiros quanto às políticas externas e internas”, indicou que parte dos animais adotados acaba retornando aos abrigos. Em alguns levantamentos, a taxa de devolução pode variar de 5% a 15%, dependendo do rigor do processo de seleção de tutores.

 

A pesquisa também indica que idade e raça são fatores determinantes. Animais adultos e idosos, que já carregam o histórico de abandono, têm maior probabilidade de serem devolvidos por “problemas comportamentais” que podem estar relacionados às sequelas do abandono anterior.

 

GUARDA RESPONSÁVEL

 

Enfrentar esse cenário exige mais do que resgates. É preciso mudar a forma como a sociedade compreende a guarda responsável. Segundo o Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), ser tutor responsável implica garantir as “cinco liberdades” do animal: livre de fome e sede; livre de desconforto; livre de dor, ferimentos e doenças; livre para expressar seu comportamento natural; e livre de medo e estresse. No âmbito jurídico, o Brasil avançou com a Lei 14.064/2020, conhecida como Lei Sansão, que aumentou a pena para maus-tratos contra cães e gatos, antes de três meses a um ano, para dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição da guarda. No entanto, a legislação sozinha não basta. Entre as medidas discutidas por profissionais da área estão a microchipagem em massa e o registro nacional de animais, ferramentas que podem ajudar a responsabilizar tutores e coibir o abandono.

 

Carla resume o sentimento de exaustão de quem está na linha de frente: “A gente sofre porque gostaria de ajudar todos os animais, mas, ao mesmo tempo, precisa pensar no nosso bem. Afinal, se não nos cuidarmos, não conseguimos cuidar do próximo. É uma realidade muito cruel, é como se você estivesse constantemente enxugando gelo”.

 

A trajetória da protetora lembra que o abandono animal não é um problema isolado de ONGs e prefeituras, mas o sintoma de uma sociedade que ainda luta para entender o peso de uma vida sob sua responsabilidade.

Enquanto o “melhor amigo do ser humano” continuar sendo tratado como um objeto descartável, o ciclo de sofrimento permanecerá. A saída envolve abrigos, políticas públicas, fiscalização e, sobretudo, uma consciência coletiva em que a lealdade seja uma via de mão dupla.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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