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A não-vida além do trabalho

Aos 82 anos, Ana Maria de Jesus relembra uma vida atravessada pelo trabalho rural, pelo cuidado doméstico e pela busca tardia por descanso


Na fotografia de casamento, Ana e o marido registram uma vida que seria marcada por poucas pausas | Crédito da foto: Erika Palmeira
Na fotografia de casamento, Ana e o marido registram uma vida que seria marcada por poucas pausas | Crédito da foto: Erika Palmeira

Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas


Às seis horas, um tênue feixe de luz solar começa a atravessar a janela. Em alguns lugares, o amanhecer é acompanhado pela mistura de cantos de pássaros, galos e outros animais, formando uma orquestra natural. Em outros, um som eletrônico, agudo e vibrante se impõe aos ouvidos de quem ainda repousa. Não importa onde ou como, todos despertam com o mesmo dever em mente. Uma obrigação que atravessa o dia inteiro, até que o último raio de sol desapareça no céu e dê lugar às tarefas da noite. É o momento de doar-se ao trabalho. O descanso não cede aos horários naturais; descansar é privilégio de quem pode. Para quem não pode, o dever é a primeira e a única coisa a controlar cada minuto do dia.


Para Ana Maria de Jesus, de 82 anos, a rotina diária e ininterrupta de dedicação à família, aos patrões e à sobrevivência estabeleceu uma maneira de viver ao longo de quase toda a vida. No sítio localizado na Bahia, onde passou os primeiros anos, trabalhar na propriedade familiar tornou-se tão comum na infância quanto brincar. “Comecei a trabalhar com 10 anos na roça”, conta.


O trabalho infantil, hoje amplamente debatido, ainda faz parte da realidade de algumas famílias de baixa renda, sobretudo em áreas rurais. Dados recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do Unicef apontam que 138 milhões de crianças e adolescentes ainda estavam em situação de trabalho infantil no mundo em 2024. A agricultura concentrava a maior parte dos casos, com 61% do total. O dado ajuda a dimensionar uma experiência que, na infância de Ana, era tratada como parte natural da vida no campo.


Ana relata que as atividades desempenhadas ao lado do pai eram voltadas ao sustento da própria família: carpia, plantava e colhia para vender na feira. Ela também destaca que não existiam escolas rurais na região onde vivia, no município de São Desidério. Assim, sua principal atividade não era estudar, mas trabalhar. Essa condição manteve-se até a adolescência, quando, aos 17 anos, casou-se e mudou-se para o Paraná ao lado do marido. “Aí comecei a trabalhar para os outros”, diz. Ana descreve os 17 anos como o início da vida adulta, marcado pelo momento em que passou a desempenhar atividades fora do próprio lar, e, sobretudo, no casamento.


Ao mudar-se para o Paraná, o novo lar era o sítio dos patrões. Ana morava no mesmo local em que trabalhava, cumprindo jornada de domingo a domingo, das 8h às 18h. Quando questionada sobre o relacionamento com os patrões, relata afetuosidade. “Meus patrão era tudo ótimo, tudo me adorava, eu fazia tudo certinho”. Para ela, o cotidiano no Sul parecia mais vantajoso do que o vivido na Bahia. “Tinha mais dinheiro, tinha os patrão pra pagar a gente”. No entanto, a rotina era exaustiva. A jornada não terminava nesse horário: à noite, ainda precisava cuidar da casa e dos próprios filhos. Ela conta que enfrentava tudo sozinha, sem o auxílio do marido, acumulando as tarefas domésticas e o cuidado com as crianças. “Tinha dia que eu trabalhava até 2 da manhã fazendo serviço de casa”.


SEGUE A LABUTA


“Na fazenda não tem descanso”. As atividades rurais eram diversas e não se limitavam à colheita e ao plantio. Ana também pintava paredes, cuidava dos animais e faxinava a casa dos patrões. Carregava nas próprias costas as colheitas pesadas de milho e soja. A falta de fiscalização permitia uma rotina sem limites claros entre moradia e trabalho. Morar no mesmo ambiente em que trabalhava prolongava as atividades externas para dentro da casa, sem direito a recusa. Esse era o acordo possível para quem dependia do emprego e da moradia. “Não tinha como trabalhar com outra coisa”, diz.


Antes de ser lida apenas como trabalhadora, Ana era também mulher, mãe e esposa. Isso foi determinante para a forma como sua força de trabalho foi explorada. Ela revela que não recebia diretamente por nenhuma das funções que desempenhava; quem recebia era o marido. “Meu marido que recebia e gastava”. Conta que as retribuições feitas a ela vinham apenas em itens considerados essenciais para a família. “Davam leite pras criança, carne, roupa. Mas pagar com dinheiro não me pagavam”.


A situação descrita por Ana se aproxima do que o Instituto Maria da Penha define como violência patrimonial, quando há retenção, subtração ou controle de bens, recursos ou direitos econômicos. A privação econômica é um dos mecanismos de manutenção da dependência financeira no âmbito doméstico e pode se articular a outras formas de violência contra a mulher. No caso de Ana, a falta de autonomia financeira ajuda a explicar por que a vida de trabalho não resultava em liberdade de escolha.


Atualmente, Ana reflete sobre as condições que viveu. “Se fosse hoje em dia, o serviço que eu fazia na fazenda… eu tinha que ganhar mais que ele”. Ainda assim, de acordo com o 4º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, mulheres recebem, em média, 21,2% menos que homens em empresas com 100 ou mais funcionários. Levantamentos sobre trabalho escravo contemporâneo também indicam que mulheres resgatadas tendem a apresentar baixa escolaridade e forte presença no meio rural.


O ofício impedia o desenvolvimento de laços com os próprios filhos. Não havia vida além do trabalho. Ela relata que o tempo que passavam juntos era indo à igreja; o restante era dedicado à preparação de recursos para o dia seguinte. Consequentemente, não pôde desenvolver interesses pessoais ou atividades extras. “Aqui no Paraná eu não estudei, eu só trabalhava e cuidava dos filhos”.


Para Ana, o evento mais marcante de toda a sua vida de trabalho foi o dia em que a família foi dispensada da fazenda e se mudou para Cascavel. Na ocasião, o marido havia capotado um trator, e eles receberam apenas o pagamento do mês. Ela conta que o patrão guardava o dinheiro que lhe pertencia, com a justificativa de estar economizando para que comprassem uma casa em Cascavel. No entanto, segundo Ana, o valor não lhe foi repassado. Ela estava grávida do sexto filho. “Pra você ver como é os patrão. Era bonzinho enquanto nós tava trabalhando lá”, repensa.


A vida em Cascavel foi marcada pelo trabalho doméstico, função exercida integralmente e também sem remuneração. Ana nunca teve trabalho formal e começou a receber aposentadoria tardiamente, após o falecimento do marido, que possuía carteira assinada. “Se eu tivesse uma carteira assinada, eu teria aposentado muito antes”. Dados recentes do IBGE indicam que cerca de 32,5 milhões de brasileiros atuam como autônomos informais ou empregados sem carteira assinada no setor privado. A ausência de registro formal é um dos principais fatores de vulnerabilidade aos direitos trabalhistas. O chamado mito da flexibilidade, muitas vezes, encobre jornadas intensas, ausência de salário fixo e dificuldades no acesso à aposentadoria. Também é importante destacar que, segundo o Ipea, pessoas negras compõem a maior parte da população em situação informal no país.


Atualmente, Ana vive uma rotina mais estável. Diz que ainda gosta de trabalhar, mas deixou de fazê-lo por causa de um problema no pé. Após muitos anos de sobrecarga e já recebendo aposentadoria, passou a estabelecer uma rotina de autocuidado e lazer. Conta que, durante grande parte da vida, não tinha acesso à televisão; seu único momento de ócio era ouvindo rádio. “Agora eu tô mais feliz, tenho TV”, diz, em meio a risadas e com semblante leve. Seus filhos, agora adultos, passam mais tempo com a mãe. Nos fins de semana, ela sai com familiares e amigos para conhecer espaços que antes não podia frequentar.


Depois de uma vida marcada pelo dever, Ana começa a experimentar o descanso como uma descoberta tardia. Sentada em seu jardim, agora respira aliviada e cuida de suas plantas distante de uma condenação que nem mesmo racionalizou.

Não mais opera como uma enxada velha, condenada a cair em desuso. Não mais abre a terra pela necessidade do homem.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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