Produção e venda por trabalhadores autônomos se tornam desafio cada vez maio
- Lucas Carvalho

- 23 de mai.
- 8 min de leitura
Consumidores tendem a confiar mais em marcas conhecidas do que em vendedores independentes

Por Lucas Carvalho | Agência Abre Aspas
Nos últimos anos, houve um aumento no número de vendedores autônomos no Brasil. Esses profissionais, que não possuem vínculo empregatício com empresas e trabalham por conta própria, têm buscado no comércio uma forma de conquistar independência financeira e maior flexibilidade profissional. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de trabalhadores por conta própria chegou a 26 milhões de pessoas em 2024, alta de 1,9% em relação ao ano anterior. Entretanto, mesmo com o crescimento desse modelo de trabalho, os desafios enfrentados pelos vendedores autônomos ainda são muitos, e apenas uma pequena parcela consegue obter estabilidade financeira e lucro constante
Para atuar de forma legalizada, muitos profissionais optam por se cadastrar como Microempreendedor Individual (MEI). O processo de formalização é gratuito e pode ser realizado pelo Portal do Empreendedor, do Governo Federal. Além de permitir a emissão de notas fiscais, o registro garante benefícios previdenciários, como aposentadoria e auxílio-doença, além de facilitar a regularização do negócio. Apesar disso, o MEI precisa pagar mensalmente o Documento de Arrecadação do Simples Nacional (DAS), que reúne a contribuição ao INSS e, conforme a atividade, valores de ICMS ou ISS.
Ainda assim , os vendedores autônomos nem sempre conseguem transmitir a mesma segurança que grandes empresas ou sites já consolidados no mercado oferecem aos consumidores. Além da dificuldade em conquistar credibilidade, muitos vendedores autônomos também enfrentam um mercado cada vez mais dominado por grandes plataformas digitais e empresas consolidadas.
Com o crescimento do uso de plataformas digitais no mercado de trabalho e nas vendas online, também conhecido como ‘plataformização’, pequenos empreendedores passaram a depender cada vez mais de redes sociais, aplicativos e marketplaces para divulgar e vender seus produtos. Apesar de ampliarem o alcance das vendas, essas plataformas também criam relações de dependência, já que o alcance das publicações, a visibilidade dos produtos e até o contato com clientes passam a ser controlados por algoritmos e estratégias comerciais das próprias empresas.
Nesse cenário, muitos trabalhadores acabam precisando transformar a própria rotina em conteúdo para as redes sociais. Mais do que vender produtos, é necessário produzir vídeos, acompanhar tendências, gravar anúncios e manter presença constante na internet para continuar relevante. A exposição pessoal passou a fazer parte do trabalho, exigindo dos vendedores funções que vão além da produção e da venda, como marketing, edição de vídeos e atendimento digital.
Além da concorrência intensa, existe também a desconfiança do público em relação à qualidade dos produtos e à segurança da compra . Grande parte dos consumidores prefere adquirir produtos de lojas reconhecidas, por acreditarem que terão garantias mais claras caso aconteça algum problema. Isso faz com que vendedores autônomos precisem se esforçar ainda mais para conquistar espaço no mercado, investindo em divulgação, atendimento e construção de uma boa reputação.
Silvia Cecchele, de 64 anos e moradora de Medianeira, trabalha com a venda de artesanato e bolachas caseiras, e afirma que essa realidade faz parte do dia a dia de muitos vendedores autônomos. Segundo ela, além de produzir e vender, também é preciso conquistar a confiança do público, já que muitas pessoas ainda se sentem mais seguras comprando de empresas maiores e marcas já conhecidas.
PANDEMIA E VENDAS ONLINE
Com a chegada da pandemia da Covid-19 , o número de trabalhadores autônomos cresceu ainda mais no Brasil. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o contingente de trabalhadores por conta própria passou de 22,3 milhões, em 2020, para 24,9 milhões em 2021, um aumento de 11,1%, o equivalente a 2,5 milhões de pessoas em apenas um ano. A instabilidade do mercado de trabalho formal, somada ao crescimento acelerado das redes sociais e das plataformas digitais, fez com que muitas pessoas enxergassem no comércio independente uma oportunidade de recomeço ou uma alternativa para complementar a renda familiar.
De acordo com o relatório ‘Perfil do E-commerce Brasileiro 2024, divulgado pela Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o número de pequenos vendedores e empreendedores independentes atuando no comércio online cresceu de forma significativa desde o período da pandemia, impulsionado pelo aumento das vendas online e pela ampliação do uso de marketplaces e redes sociais. O levantamento, publicado em 2024 e baseado em dados do mercado nacional de comércio eletrônico entre 2020 e 2024, aponta um crescimento de aproximadamente 35% na presença de pequenos negócios nas plataformas digitais. O ambiente online passou a facilitar a divulgação de produtos e serviços, permitindo que pequenos vendedores alcançassem clientes de diferentes cidades e até de outros estados. Entretanto, a concorrência também se tornou muito maior.
Com tantas pessoas vendendo pela internet, destacar-se no mercado passou a ser um desafio ainda mais complicado. Muitos vendedores precisaram investir em divulgação nas redes sociais, na melhor apresentação dos produtos e em estratégias para fidelizar clientes e ampliar a carteira. A qualidade do atendimento e a confiança do consumidor passaram a fazer ainda mais diferença para o sucesso das vendas.
O crescimento acelerado das vendas pela internet também intensificou a concorrência entre pequenos vendedores e grandes empresas. Plataformas de comércio eletrônico, como Mercado Livre e Shopee, além de grandes varejistas, conseguem investir valores altos em publicidades, logística e distribuição, enquanto trabalhadores autônomos dependem principalmente do alcance orgânico em redes sociais como Instagram e TikTok, além da fidelização de clientes para manter as vendas.
Além da dificuldade para alcançar público, pequenos empreendedores também enfrentam custos com frete, impulsionamento de anúncios e taxas cobradas pelas plataformas digitais. Em muitos marketplaces, parte do valor de cada venda fica com a empresa responsável pela intermediação do serviço, o que reduz a margem de lucro dos vendedores independentes. Grandes lojas, por outro lado, conseguem negociar melhores condições de entrega, estoque e divulgação, aumentando ainda mais a diferença competitiva no ambiente online.
Em muitos casos, a competição se torna desigual. Grandes empresas possuem maior facilidade para oferecer preços baixos, frete rápido e campanhas promocionais constantes, fatores que influenciam diretamente a decisão dos consumidores. Esse cenário dificulta ainda mais a permanência de pequenos negócios no mercado, principalmente daqueles que dependem exclusivamente das vendas para garantir renda e sustento familiar. “Muitas vezes a gente não consegue competir no preço, porque as empresas que já são mais conhecidas conseguem vender mais barato e entregar mais rápido. Então, tento conquistar os clientes pelo cuidado, pela qualidade e pela atenção no atendimento”, relata Silvia Cecchele, que durante a pandemia encontrou uma alternativa para aumentar sua renda.
Apaixonada por artesanato desde muito jovem, decidiu começar a vender produtos próprios. Inicialmente, produzia panos de prato pintados e bordados, além de quadros decorativos para datas comemorativas, como Páscoa e Natal. Com o passar do tempo, foi ampliando a variedade de produtos e atualmente também vende bolachas caseiras, docinhos de amendoim e bombons.
“Foi necessário sair da minha zona de conforto. Comecei anunciando na vizinhança, depois passei para outros bairros e hoje tenho vendido até para outras cidades próximas, como Foz do Iguaçu, São Miguel, Itaipulândia e outras cidades próximas. Uma coisa muito boa que aconteceu comigo foi a ajuda das pessoas que compravam meus produtos, gostavam e faziam propaganda para outras pessoas”, acrescenta Silvia.
Maria Isabel dos Santos, atualmente com 55 anos e também moradora de Medianeira (PR), reconhece bem essa realidade. Desde muito cedo, precisou trabalhar para ajudar a família: começou aos oito anos de idade, no sítio onde morava com os pais e as três irmãs. Após se mudar para a cidade, enfrentou dificuldades para conseguir emprego formal devido à idade e à baixa escolaridade, o que a levou a trabalhar como diarista para garantir o sustento.
“Por trabalhar no sítio desde pequena, não acho tão puxado o serviço, já me acostumei, mas não é a mesma coisa que trabalhar fichado, em uma empresa onde tenho seguros e auxílios. Se, por um acaso, acontecer alguma coisa comigo em relação à saúde ou acidente no trabalho, fico sem receber”, afirma Maria.
A fala de Maria ajuda a compreender a realidade de trabalhadores autônomos brasileiros. A falta de estabilidade financeira, a ausência de benefícios trabalhistas, como férias remuneradas, 13º salário e seguro em casos de acidentes ou doenças, além da necessidade de administrar os próprios impostos e documentos fiscais, tornam esse modelo de trabalho ainda mais difícil. Essas questões exigem planejamento, disciplina e muita dedicação para manter o negócio funcionando.
Para muitos brasileiros, o trabalho autônomo deixou de representar apenas independência financeira e passou a ser uma necessidade diante das dificuldades do mercado formal. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), mostram que o Brasil encerrou 2024 com cerca de 26 milhões de trabalhadores por conta própria, número que representa uma parcela significativa da população ocupada no país.
Embora frequentemente ligado à ideia de liberdade e autonomia, o empreendedorismo também carrega inseguranças. Sem garantias trabalhistas, muitos profissionais enfrentam jornadas extensas, ausência de proteção em casos de doença ou acidentes e dificuldade para manter uma renda estável. “A gente trabalha porque precisa, mas vive sem segurança. Se fico doente ou acontece algum acidente, não tenho salário. Mesmo assim, é o que garante o sustento da casa”, relata Maria Isabel.
Em diversos casos, o trabalhador assume sozinho responsabilidades que antes eram divididas com empresas, como custos previdenciários, divulgação, transporte e manutenção do próprio negócio. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que o Brasil encerrou 2024 com cerca de 26 milhões de trabalhadores por conta própria. Desse total, uma parcela significativa atua na informalidade e sem acesso a direitos trabalhistas como férias remuneradas, décimo terceiro salário e seguro-desemprego, o que amplia a insegurança financeira e a instabilidade profissional.
AUTONOMIA TAMBÉM NO MEIO ARTÍSTICO
A independência também está bastante presente no meio artístico. Assim como vendedores autônomos que utilizam a internet para divulgar produtos e conquistar clientes, artistas independentes também precisam transformar a própria produção em um negócio. Muitos iniciam suas carreiras de forma totalmente autônoma, produzindo, divulgando e comercializando suas músicas sem o apoio de grandes gravadoras ou produtoras. Nesse cenário, além da criação artística, eles também precisam investir em redes sociais, plataformas digitais e estratégias de divulgação para conquistar público, ganhar credibilidade e manter uma fonte de renda no mercado musical.
Tiago Belini, de 17 anos, conta que sempre teve paixão pelo universo artístico e decidiu criar suas próprias músicas de maneira independente. Atualmente, Tiago possui duas músicas lançadas: “Para Todos Verem” e “Fala a verdade m.b. (meu bem)”. Todo o processo de composição, gravação, produção e até mesmo a criação do clipe foi realizado de forma autônoma, com a ajuda de amigos e familiares.
“No início, pensei em tentar buscar parceria com alguém, mas eram poucas as opções, e as que tinham ofereciam um valor muito alto para que eu pudesse participar. Por isso, resolvi fazer tudo de forma independente mesmo, com ajuda de alguns amigos e familiares, e, no final, deu tudo certo e teve um resultado lindo”, relata Tiago.
Apesar das dificuldades, o trabalho autônomo continua presente no Brasil e deve ser observado com atenção diante do avanço das vendas online e das plataformas digitais. Mesmo enfrentando insegurança financeira, falta de benefícios trabalhistas e grande concorrência, milhões de brasileiros seguem apostando no trabalho independente como forma de sustento e realização profissional. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil encerrou 2024 com cerca de 26 milhões de trabalhadores por conta própria, número que demonstra a força e a expansão desse modelo de trabalho no país.




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