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O tempo que Deus nos deu

Após perder a mãe e tentar reorganizar a própria vida, Elaine encontra na fé um modo de atravessar a dor


Elaine estava ao lado da mãe no último suspiro, e promete que, por ela, vai vencer | Crédito da foto: Felipe Meredich
Elaine estava ao lado da mãe no último suspiro, e promete que, por ela, vai vencer | Crédito da foto: Felipe Meredich

Por Felipe Meredich | Agência Abre Aspas


Eram quase duas horas da manhã de uma sexta-feira quando o grito rasgou o silêncio da casa. Dona Isaura, 77 anos, chamou pela filha em meio a uma dor que, até então, vinha tentando suportar em silêncio.


Segundo a filha, Dona Isaura era uma mulher de fé e de silêncio, com uma paciência que lembrava a de Jó. Anos antes, havia enfrentado um câncer no útero sem fazer da dor assunto da casa. Naquela madrugada, porém, chamou por Elaine. E Elaine correu.


Dona Isaura pediu chá de marcela. Dizia que estava doendo muito, mas insistia que ia passar. Elaine, que havia voltado para aquela casa meses antes com uma filha de cinco anos na mão e um casamento desfeito nas costas, tentou lhe aferir a pressão, acalmá-la e rezar. Fez tudo que podia.


O SAMU chegou em menos de dez minutos. Quando a equipe entrou, Dona Isaura ainda estava consciente e mantinha os olhos na filha. Pouco depois, parou de respirar. Elaine se ajoelhou no chão e pediu a Deus que a mãe voltasse. Não voltou.


Faz pouco mais de um mês desde aquela madrugada. Elaine Paulino, 40 anos, mora sozinha com a filha Helena, de seis anos, na casa que a mãe deixou. Uma casa pequena, com paredes que ainda guardam o cheiro da vida que havia ali.

Na casa, a fé continua espalhada pelos objetos, pelas orações e pelas lembranças da mãe. Para Elaine, isso ajuda a suportar a ausência. A psicóloga Deise Rosa, especialista em luto, discursa positivamente a respeito do sentimento de tristeza enquanto processo de reflexão. Para ela, compreender sua dor, como Elaine entende no que a circunda, é sinal de força e boa recepção de um processo natural. “A tristeza faz a gente refletir sobre a vida. Nós queremos fugir dela, porque ela dói. Não tem como fugir. As pessoas que se permitem entrar em contato com a sua dor vão evoluir muito mais do que quem tenta empurrar a vida ‘com a barriga’ nesses momentos”, disse.


"Às vezes, dá vontade de desistir. Às vezes, você fala: meu Deus, por que eu passo por tudo isso? Mas depois você para e pensa: quem é a gente pra reclamar?". A fé dela não é o tipo que elimina a dúvida ou o sofrimento. É o tipo que sustenta mesmo quando tudo chacoalha. Nos meses antes da morte da mãe, algo mudou espiritualmente em Elaine. Estava afastada da igreja havia algum tempo, mas foi sentindo uma força que a puxava de volta para os encontros de oração e para as missas, e passou a levar a mãe junto. "Foi tudo Deus. Não tenho outra explicação para a coragem que tive de estar lá nesses três meses".


Quem conhecia Dona Isaura sabe que ela era o tipo de pessoa que faz falta não só para a família, mas para a rua inteira. Ia à missa, rezava o terço; acreditava que amanhã seria melhor, mesmo quando tudo dentro dela dizia que não. "Ela tinha fé, tinha coragem, mas tinha medo também", conta Elaine. "Medo de errar, de magoar um filho. Esse medo eu herdei dela". A relação entre as duas sempre foi próxima. Com o tempo, essa proximidade virou cumplicidade. Elaine nunca escondeu nada da mãe. A própria Dona Isaura brincava: quando você está aqui, o celular não toca mais, porque era só você que me ligava.


O casamento foi o que, aos poucos, criou distância entre Elaine e a mãe. Não pela falta de amor, mas pela lógica da vida adulta que vai puxando as pessoas para os próprios eixos. A separação veio depois de muitos anos juntos. A volta para a casa da mãe aconteceu pouco antes da perda. Depois da separação, Elaine retornou com a filha pequena e com a sensação de ter que recomeçar a vida aos 40. Dona Isaura abriu a porta como sempre abriu: sem cobranças, sem perguntas que machucassem. "Ela me acolheu com muito amor. Eu também entrei com muito carinho, com muita dedicação", lembra Elaine. Foi nesse intervalo de reconstrução que a morte da mãe atravessou a rotina das duas.

Os três meses que se seguiram foram, como Elaine descreve, um presente de Deus que ela não sabia que estava recebendo até que ficou sem ele. A convivência tinha as marcas do cotidiano: idas ao mercado juntas, refeições divididas, conversas que começavam sem hora para acabar. Dona Isaura chamava a neta de macaca na hora de pegar banana, dizia lagarta, pega o alface, com a tranquilidade de quem sabe que a vida tem um ritmo próprio. "Foram três meses muito bem vividos", diz Elaine.


Tem uma cena que ela vai carregar para sempre. Era sábado, Helena estava com o pai, e Elaine se sentou à mesa com pão e um doce que tinha comprado errado: era chocolate, não doce de leite. Sentou, mordeu o pão e começou a chorar. Olhou para o quarto e viu a mãe deitada, olhando para ela. Chamou: vem, mãe, vem comer, tá tão gostoso. Dona Isaura levantou, sentou ao lado da filha, e ficaram ali por quase quarenta minutos, comendo pão com chocolate que nenhuma das duas pediu, conversando sobre coisas que só elas sabem. "A gente teve muitas coisas boas nesse tempo."


Na parede da casa, um relógio e a Santa Ceia. O tempo parado entre a fé e a saudade | Crédito da foto: Felipe Meredich
Na parede da casa, um relógio e a Santa Ceia. O tempo parado entre a fé e a saudade | Crédito da foto: Felipe Meredich

Na noite da morte, Helena estava na casa da tia. Quando Elaine foi buscá-la, a menina estava enrolada numa coberta, cheia de lágrimas. Elaine se ajoelhou na frente da filha. "A vovó foi morar no céu com o vovô João". Helena encheu os olhos de lágrima e ficou quieta. Mais cedo, ainda sem saber, ela tinha perguntado ao tio: "quem vai cuidar de mim de manhã? Quem vai fazer minha batatinha frita?". Elaine ouviu isso depois. A pergunta parece ingênua, mas é o resumo de um vínculo inteiro.


Com Helena, Elaine tenta falar da morte sem esconder a ausência. Diz que a avó virou estrela, e que a mais brilhante é a que conversa com a menina. Segundo a psicóloga Deise Rosa, nomear a perda e permitir que a criança participe, à sua maneira, da despedida ajuda a elaborar o luto sem transformar o silêncio em peso ainda maior.

"Uma menina frágil. Por fora, forte, sorrindo, alegre. Por dentro, não tem noção como está despedaçada. Com coragem de lutar, mas muito despedaçada." O maior desafio hoje não é a dor em si. É a solidão. "Não por ela, ela é uma benção. Mas por estar sozinha", diz Elaine. Sem o marido e agora sem a mãe, ela enfrenta a rotina com a filha pequena e sem rede de apoio perto. Há dias em que a vontade de desistir aparece. Mas há Helena. "A minha filha é a motivação diária. É por ela que eu luto. Se para ela ser feliz eu precisar deixar de muitas coisas na minha vida, eu vou deixar."


Com a saudade, Elaine ainda não aprendeu a lidar. Conversa com a mãe todo dia, pede ajuda, conta o que está difícil. Elaine fala da mãe todos os dias. Lembra do pão com chocolate, do cuidado com a casa, da presença silenciosa que agora virou ausência. Ao contar essas cenas, mantém Dona Isaura viva na rotina da lembrança.

Para quem está passando por um luto parecido, Elaine deixa uma mensagem com a voz de quem ainda está dentro da dor, não do outro lado dela: "A dor nunca vai passar. A saudade vai ser eterna. Mas não perca a fé. Continue com fé. Que tudo dará certo".



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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