Casa sem lar
- Júlia Novello

- há 5 dias
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Mais de 3,7 milhões de mulheres e crianças brasileiras vivem debaixo do mesmo teto de seus agressores

Por Júlia Novello | Agência Abre Aspas
A casa, para muitos, é sinônimo de lar, descanso e aconchego. Onde você espera o dia inteiro para estar e se enrolar nas cobertas assistindo um filme. O seu espaço no mundo, com seu cheiro e suas músicas no ar. Mas e quando os sons que permeiam o ambiente são o bater de portas, xingamentos proferidos aos gritos e passos pesados e apressados. A trilha sonora de um ambiente hostil.
João, que teve seu nome alterado para preservar sua identidade, tem estes sons enrustidos em sua mente e a resposta corporal, ainda fresca na memória. “A gente estava sempre inseguro de como seria quando ele chegaria. Eu me lembro claramente da sensação de que quando ele chegasse, que algo de ruim aconteceria, e o nosso medo tanto de criança quanto de adolescente era de apanhar sem ter feito nada e que ele chegasse violento e quebrasse as coisas dentro de casa”. Com incontáveis histórias de diversos tipos de agressão, João cresceu tendo a sua intimidade e integridade violada, assim como a dos irmãos e da mãe.
A violência doméstica é um fenômeno social complexo e multifacetado, que afeta mulheres, homens, crianças e adolescentes. Estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, à 5ª edição da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, indicam que mais de 21 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência de fevereiro de 2024 a fevereiro de 2025. Já com relação á violência doméstica infantil, os casos ultrapassaram a marca de 50 mil ocorrências. E estes dados tendem a aumentar em datas comemorativas.
Cristine Cogo, psicóloga que atuou na Secretaria de Políticas para Mulheres, explica que o aumento da violência em datas festivas não é uma coincidência, mas um reflexo de dinâmicas sociais e psicológicas complexas. "O que os dados nos mostram é que datas comemorativas, que deveriam ser de celebração e união, tornam-se, para muitas famílias, períodos de intensificação da violência. O aumento do convívio forçado e, muitas vezes, do consumo de álcool, age como um catalisador, desinibindo o agressor e expondo as vítimas a um risco ainda maior. A casa, que deveria ser um refúgio, se transforma em um cativeiro”.
CASA COMO AMEAÇA
A rotina de ir para a escola, brincar com os vizinhos e mais tarde trabalhar era o que mantinha a mente ocupada e o corpo fora de casa. Mesmo que inconscientemente, a fuga sempre esteve presente no dia a dia de José, da mãe e dos irmãos. “Era muito difícil manter no núcleo familiar uma tranquilidade, uma boa relação, embora eu tivesse uma boa relação com os meus irmãos e com a minha mãe, o clima dentro de casa era sempre muito tenso por causa dessa instabilidade que ele trazia”.
O silêncio dominava a casa e a tensão que pairava no ar poderia ser cortada com uma faca, de tão palpável e latente. A força imposta ao abrir a porta, a intensidade da respiração e a velocidade dos passos eram dicas de como o dia iria terminar, em um silêncio confortável ou sufocante. Afinal de contas, a casa raramente era envolta por conversas agradáveis e risadas acalentadoras.
A tentativa de decifrar o humor do pai e aprender a ler estes pequenos sinais era o que ajudava João a se prevenir dos desentendimentos e passar despercebido dentro da própria casa. “Por mais que tivesse a tentativa de fuga, não tinha para onde ir. Eu não tinha autonomia. Isso eu acho que torna a gente mais prisioneiro e mais vulnerável, porque você vive debaixo do mesmo teto. Aquela ali é a tua casa”.
A psicóloga ressalta: “essa vulnerabilidade relatada, é o principal agravante de violências domésticas, porque o agressor se aproveita da fragilidade e da proximidade com o outro. E em épocas festivas nós notamos o aumento destes casos, já que o convívio é maior, assim como o consumo de álcool, que potencializa comportamentos violentos e abusivos”.
AGRAVANTES
Os feriados e datas comemorativas não eram muito diferentes do habitual, já que o pai não passava muito tempo em casa, mas, quando voltava, a situação era mais desafiadora. “Ele estava sempre no bar. Era a mesma coisa do dia-a-dia, a única diferença é que ele passava mais tempo lá. Mas em compensação quando voltava, ele estava transtornado, era aquele medo constante. Eu não tenho lembrança nenhuma de a gente dentro de casa convivendo em família, sentados vendo um filme. Isso nunca existiu dentro da nossa casa em família”.
Os dados corroboram com a percepção de João e a análise da psicóloga. O álcool, frequentemente associado a celebrações, emerge como um catalisador para a violência doméstica. Em São Paulo, a média é de 70 casos por dia de violência doméstica associada ao uso de álcool. Quando a violência ocorre dentro de casa, o álcool está presente em 35% dos casos, segundo análise elaborada pelo Instituto Sou da Paz e pela ACT Promoção da Saúde com base em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação.
Em entrevista ao programa “Atualidade”, da Rádio Gaúcha, no dia 25 de dezembro de 2025, a secretária Estadual da Mulher do Rio Grande do Sul, Fábia Richter, ressaltou que durante os cinco dias do feriado de Páscoa de 2025, o estado registrou ao menos 10 feminicídios. Já em um cenário nacional, estima-se que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica apenas no ano de 2025 segundo dados publicados na 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher - DataSenado 2025, publicada em novembro de 2025.
Crescer em um ambiente de violência, como João descreve, deixa marcas profundas que se estendem para muito além da infância. A constante tensão e a necessidade de decifrar o humor do agressor afetam diretamente o desenvolvimento emocional e social das crianças. “Crianças expostas à violência doméstica vivem em um estado de estresse tóxico crônico. A necessidade de decifrar o humor do agressor, de estar sempre em alerta, compromete o desenvolvimento cerebral e emocional. Elas podem apresentar dificuldades de aprendizado, problemas de relacionamento, ansiedade, depressão e até transtorno de estresse pós-traumático. A casa, que deveria ser um ambiente de segurança e afeto para o desenvolvimento saudável, molda negativamente a percepção de mundo e a capacidade de construir relações seguras no futuro. O impacto é silencioso e muitas vezes permanente" explica Cristine.
VIOLÊNCIA VICÁRIA
Os dados nacionais reforçam a prevalência dessa realidade: 74% das mulheres que sofreram violência em 2025 são mães, e 7 em cada 10 agressões são presenciadas por crianças. Estima-se que 1,4 milhão de mulheres foram agredidas na presença de seus filhos no Brasil, dado publicado pela Agência Pública em maio de 2026.
A experiência de João também ilustra a violência vicária, uma forma de abuso onde os filhos são instrumentalizados para atingir a mãe. Essa tática agora tem reconhecimento legal pela Lei nº 15.384/2026, publicada em 9 de abril de 2026. A nova legislação brasileira estabelece penas que podem variar de 2 a 8 anos de reclusão, além de multas e da perda do poder familiar. Em casos onde a violência vicária culmina na morte da criança, o chamado “vicaricídio”, o crime é considerado hediondo, com penas que podem chegar a 30 anos de prisão.
A mudança na legislação visa reconhecer e penalizar a instrumentalização da dor materna e afetiva como uma tática de dominação, conforme detalhado pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) e pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT).
Uma maior penalização para crimes de violência doméstica é apenas uma das maneiras de combater essa violência ainda tão velada e escondida dos olhos externos. João conta que muitos da própria família não acreditavam que seu pai os tratava de maneira agressiva e abusiva, já que fora de casa era muito bem quisto.
Outro agravante para a subnotificação e perpetuação deste crime é a falta de conhecimento dos tipos de violência. “Hoje eu percebo que a violência psicológica era constante. Ele dizia que eu não ia dar certo na vida, que eu era preguiçoso, que eu não servia para nada, eu cresci ouvindo isso dele, mas parece que os abusos só começaram quando a gente ficou mais velho. Meus pais brigavam bastante, aí quando a gente tinha mais idade e começou a intervir, começaram o que eu chamo de violência física. Porque parece que antes disso era como se as surras fossem educativas. Então, é como se não existisse violência”, relata João.
Essa naturalização da violência, disfarçada de educação ou conflito familiar, é o que permite que o ciclo se perpetue silenciosamente dentro de casa, longe do alcance das políticas públicas. A psicóloga Cristine Cogo ressalta que essa percepção distorcida é uma das maiores barreiras para a denúncia e para a proteção das crianças. “Quando a violência é entendida como disciplina, as vítimas perdem a noção de que estão sendo violadas e o agressor se utiliza dessa confusão para manter o controle”, explica. Romper esse silêncio e desconstruir essas falsas justificativas é o primeiro passo para que a rede de proteção possa, efetivamente, atuar e transformar o ambiente de risco em um verdadeiro lar.
É nesse ponto que a atuação de órgãos como a Patrulha Maria da Penha e as redes de acolhimento se tornam vitais, não apenas para punir, mas para oferecer uma saída para quem, como João, sentia que não tinha para onde fugir.
A história de João escancara uma verdade incômoda: a casa, para muitos, não é um ambiente de acolhimento, mas de insegurança e abuso. Romper o ciclo da violência exige mais do que leis; demanda uma mudança cultural profunda, onde violências não sejam naturalizadas e negligenciadas em qualquer instância. É preciso fortalecer a rede de proteção, educar para relações saudáveis desde a infância e, acima de tudo, quebrar o silêncio. Denúncias, olhares atentos e portas abertas para o acolhimento são uma oportunidade de construir novos lares dentro de uma casa.




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