Ciclo da dor e da esperança no abandono animal em Cascavel
- Eduardo Tomé

- há 2 dias
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Levantamento do Cobasi Cuida aponta que 82,9% dos casos de abandono registrados ocorreram em centros urbanos; em Cascavel, veterinários e protetores relatam uma rede de resgate que trabalha no limite

Por Eduardo Tomé | Agência Abre Aspas
Em Cascavel, o abandono animal não é apenas uma questão de bem-estar. O problema envolve falta de planejamento financeiro, ausência de castração, negligência e uma rede de resgate que atua no limite para atender cães e gatos deixados em ruas, obras, rodovias e áreas rurais.
Para o médico veterinário Wagner Ernandes Gonçalves, da clínica Reino Animal, que atua em parceria com protetores desde 2019, o maior desafio é lidar com as vítimas do descaso. Segundo ele, o histórico desses animais quase sempre é desconhecido. “A gente nunca sabe a idade real ou de onde vieram. Recebemos animais em estágios deploráveis, muitas vezes encontrados em caixas na zona rural”, afirma.
Mais recentemente, Wagner atendeu dois filhotes vítimas de atropelamento: um gato com a mandíbula fraturada e um cachorro com fraturas na pelve e na cabeça do fêmur. Segundo o veterinário, um foi encontrado em um canteiro de obras e o outro às margens da Rua Jacarezinho, depois de serem deixados sem socorro.
Wagner ainda alerta que um dos principais motivos para o abandono é a compra ou adoção por impulso, principalmente quando a família não calcula os custos de manter um animal. “A pessoa compra o animal, mas não entende que o custo não é apenas a aquisição. Há vacinas, desverminação, castração e os custos inesperados, como uma consulta de emergência. Quando a conta não fecha, o animal é o primeiro a ser descartado”, afirma.
No Brasil, maus-tratos contra cães e gatos são crime. A Lei nº 14.064/2020 alterou a Lei de Crimes Ambientais e prevê pena de reclusão de dois a cinco anos, multa e proibição da guarda para esse tipo de conduta.
A VOZ DA ESPERANÇA
A cada 24 horas, o telefone da ONG Ampare, em Cascavel, recebe entre três e cinco pedidos de resgate. São cães e gatos encontrados em situações de maus-tratos ou abandono: amarrados em sacos na zona rural, atropelados em obras, largados em rodovias ou deixados em quintais sem alimentação, tratamento e cuidado.
Diferente do que muitos pensam, o resgate não termina quando o animal sai da rua. É ali que começa outra etapa, explica Mariana Cordeiro, bacharel em Direito e administradora, que atua na organização da Ampare. Sem sede própria para centralizar os animais, a ONG funciona por meio de lares temporários. “O lar temporário nada mais é do que uma pessoa que abre sua casa e seu tempo para doar amor a um animal resgatado até que ele seja definitivamente adotado”, explica.
Para que o voluntário que acolhe não seja sobrecarregado, a Ampare assume o suporte do animal. Durante o período em que ele permanece no lar temporário, a ONG custeia medicação, ração e atendimento veterinário, quando necessário.
Manter a ONG funcionando exige mais do que boa intenção. A entidade depende de rifas, doações e participação em eventos para conseguir recursos. “As ações que fazemos, como venda de rifas e participação em eventos, não são para cobrar ajuda, mas para garantir o pagamento das contas dos resgates que fazemos”, afirma Mariana. Cada valor arrecadado é revertido em castrações, tratamentos e cuidados com animais resgatados.
Para os voluntários, o objetivo da Ampare é reduzir o abandono em Cascavel e promover a guarda responsável. “Afinal, nós somos a voz deles”, resume Mariana.
OS TRAUMAS E AS SEQUELAS
Entre os motivos mais citados por Mariana para o abandono estão mudança de casa ou de cidade, falta de condições financeiras para alimentação, vacinas e tratamentos, ninhadas indesejadas por falta de castração, separação de casais, alterações na rotina familiar e dificuldades de manejo com animais considerados “difíceis”.
Além das feridas físicas, animais abandonados podem apresentar sinais de medo excessivo, ansiedade, estado constante de alerta, agressividade por defesa, apatia, dificuldade de confiar novamente e problemas de convivência com outros animais.
Doenças mais comuns em animais resgatados
Entre os quadros mais observados nos resgates estão sarna, cinomose, parvovirose, erliquiose, conhecida como “doença do carrapato”, verminoses e anemia.
DE THOR A MOSQUITO
Um dos casos mais difíceis acompanhados pela voluntária Mariana foi o de Thor, rebatizado depois como Mosquito. Embora tivesse um teto e uma família, ele vivia o que protetores chamam de abandono intramuros: quando o animal está fisicamente em uma casa, mas sem alimentação adequada, higiene, tratamento veterinário e cuidados básicos.
Thor foi encontrado por acaso. Durante uma visita de rotina do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) a uma família em situação de vulnerabilidade em Cascavel, assistentes sociais se depararam com o cão em estado grave. Segundo Mariana, ele estava muito magro, com feridas pelo corpo e sinais de negligência prolongada.
“Ele estava com um quadro severo de sarna que nunca foi tratado. A pele, sem proteção, transformou-se em uma ferida aberta e exposta”, relata Mariana. A fragilidade do animal atraiu moscas, que depositaram ovos nas lesões, resultando em uma miíase, infestação de larvas que passaram a se alimentar do tecido ferido.
O protocolo de recuperação incluiu limpeza das feridas para a retirada das larvas, hidratação intravenosa, alimentação hipercalórica e medicamentos para combater a sarna e as infecções secundárias. O custo, como nos demais atendimentos acompanhados pela Ampare, foi assumido pela ONG.
Hoje, algumas semanas após ser retirado daquela situação, Mosquito apresenta sinais de recuperação. A pele, antes em carne viva, começa a cicatrizar. Segundo Mariana, ele está “muito melhor, mais gordinho e muito mais ativo”. A mudança de nome também marcou o recomeço: deixar para trás “Thor” foi uma forma de romper com o passado de sofrimento e negligência.
A trajetória de Mosquito mostra que a solidariedade pode reconstruir vidas, mas também expõe uma responsabilidade coletiva. O trabalho de veterinários e voluntários não deveria ser a única barreira contra o abandono. Para romper o ciclo da dor, é preciso encarar a causa principal: a falta de compreensão sobre o que significa ter um animal de estimação. Um pet não é um objeto descartável diante de mudanças de endereço, dificuldades financeiras ou perda de interesse. É um compromisso de uma década ou mais.




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