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A tristeza que atravessa a adolescĂȘncia brasileira

Dados da PeNSE 2024 apontam sinais de sofrimento emocional entre estudantes de 13 a 17 anos, enquanto escola, família e redes sociais disputam lugar na construção de apoio


A saĂșde mental dos adolescentes brasileiros entra em foco diante do crescimento de relatos de tristeza, isolamento e sensação de desamparo | CrĂ©dito da foto: Reprodução Depositphotos
A saĂșde mental dos adolescentes brasileiros entra em foco diante do crescimento de relatos de tristeza, isolamento e sensação de desamparo | CrĂ©dito da foto: Reprodução Depositphotos

Por Mateus Dias | AgĂȘncia Abre Aspas


Os nomes dos adolescentes foram trocados para preservar a identidade das fontes.[1] 

A adolescĂȘncia costuma ser apresentada como uma fase de descobertas, amizades, primeiras escolhas e construção da prĂłpria identidade. Para muitos jovens, porĂ©m, esse perĂ­odo tambĂ©m tem sido marcado por tristeza frequente, isolamento, cobrança por desempenho e dificuldade de pedir ajuda. O que aparece no silĂȘncio do quarto, na queda das notas, no afastamento dos amigos ou na tentativa de parecer bem diante dos outros ajuda a explicar por que a saĂșde mental dos adolescentes brasileiros passou a ocupar lugar central no debate pĂșblico.


A Pesquisa Nacional de SaĂșde do Escolar (PeNSE) 2024, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e EstatĂ­stica (IBGE) com estudantes de 13 a 17 anos, dĂĄ dimensĂŁo a esse cenĂĄrio. O levantamento apontou que 28,9% dos alunos se sentiram tristes sempre ou na maioria das vezes nos 30 dias anteriores Ă  pesquisa. Entre as meninas, o percentual chegou a 41%, enquanto entre os meninos ficou em 16,7%. O estudo tambĂ©m indicou que 18,5% dos estudantes sentiram que a vida nĂŁo valia a pena ser vivida na maioria das vezes ou sempre, e que 26,1% disseram sentir que ninguĂ©m se preocupa com eles.


Os nĂșmeros nĂŁo devem ser lidos como diagnĂłstico individual. Eles mostram, no entanto, que hĂĄ sofrimento circulando entre adolescentes em idade escolar e que esse sofrimento nĂŁo pode ser tratado como frescura, exagero ou fase passageira sem escuta. Entre a tristeza comum diante de frustraçÔes e um quadro que pede acompanhamento, existe uma diferença que famĂ­lia, escola e serviços de saĂșde precisam aprender a observar.


OS SINAIS QUE PEDEM ATENÇÃO


A psicóloga Lucilene Olivares, especializada no atendimento a adolescentes, explica que essa etapa da vida jå envolve mudanças biológicas, emocionais e sociais. O problema é que os jovens também lidam com pressão por notas, comparação constante nas redes sociais, conflitos familiares, sensação de não pertencimento, solidão e excesso de estímulos digitais.


Segundo ela, a tristeza passageira faz parte da vida, mas alguns sinais indicam a necessidade de apoio profissional. A frequĂȘncia, a intensidade e a duração do sofrimento precisam ser observadas, principalmente quando a tristeza passa a interferir no sono, na alimentação, nos estudos, nos vĂ­nculos sociais e no interesse por atividades que antes faziam parte da rotina.


“Nem toda tristeza Ă© um transtorno, mas todo sofrimento merece atenção”, resume a psicĂłloga. A frase ajuda a deslocar o debate do julgamento para o cuidado. Antes de perguntar se o adolescente estĂĄ exagerando, talvez seja preciso perguntar hĂĄ quanto tempo ele estĂĄ tentando dar conta sozinho do que sente.

REDES SOCIAIS, ESCOLA E COMPARAÇÃO PERMANENTE


As redes sociais aparecem como um dos elementos que atravessam essa experiĂȘncia. Para Lucilene, a exposição a vidas editadas e aparentemente perfeitas alimenta comparaçÔes que afetam autoestima, pertencimento e autovalor. O adolescente vĂȘ corpos, viagens, relacionamentos, notas, conquistas e amizades filtradas por telas. Muitas vezes, compara bastidores da prĂłpria vida com a vitrine dos outros.


O excesso de telas tambĂ©m pode reduzir experiĂȘncias presenciais importantes para o desenvolvimento emocional. Conversas, brincadeiras, conflitos, frustraçÔes e vĂ­nculos construĂ­dos fora do ambiente digital ajudam o jovem a elaborar limites e pertencimentos. Quando quase tudo passa pela tela, o olhar do outro se torna permanente e, muitas vezes, cruel.


A escola ocupa outro lugar nesse processo. Pode ser espaço de acolhimento, convivĂȘncia e aprendizagem, mas tambĂ©m pode se tornar ambiente de pressĂŁo e exclusĂŁo. Bullying, apelidos, isolamento e brincadeiras que passam do limite deixam marcas. A prĂłpria PeNSE indica que o percentual de estudantes que declararam sofrer bullying passou de 23% para 27,2% em seis anos. Quando adultos minimizam essas violĂȘncias, a escola perde a chance de interromper um ciclo de sofrimento.


QUANDO A DOR APARECE NA ROTINA


Nathalie, nome fictĂ­cio, lembra a prĂłpria adolescĂȘncia como um perĂ­odo difĂ­cil, especialmente antes da mudança de colĂ©gio no ensino mĂ©dio. Hoje, olhando para trĂĄs, consegue perceber que havia momentos bons, mas na Ă©poca a sensação era de que tudo parecia pesado demais. O episĂłdio mais duro veio em 2021, quando perdeu a melhor amiga e ex-namorada por suicĂ­dio.


Naquele momento, Nathalie sentiu que nĂŁo havia quem pudesse compreender sua dor. Sem acompanhamento psicolĂłgico, passou a deixar os pensamentos ocuparem cada vez mais espaço. A busca por ajuda sĂł veio depois de uma tentativa de tirar a prĂłpria vida, em 2022. “Eu achava que ninguĂ©m ia conseguir ajudar ou entender”, conta.


O sofrimento afetou tambĂ©m a vida escolar e as relaçÔes. Nathalie se afastou de amigos, perdeu energia para socializar e viu as notas caĂ­rem. Nas redes sociais, a comparação aprofundava a sensação de inadequação. “Eu via a vida maravilhosa dos outros e pensava: por que eu nĂŁo consigo fazer isso? O que tem de errado comigo?”, recorda.

Havia ainda a necessidade de parecer bem. Para ela, esconder a dor parecia mais seguro do que admitir que nĂŁo estava dando conta. Hoje, sua mensagem para outros adolescentes Ă© direta: “Procure ajuda, fale com alguĂ©m de confiança e tudo vai passar”. Para famĂ­lias e amigos, o conselho Ă© ainda mais simples: “Aprenda a escutar mais”.


O OUTRO LADO DA CONVERSA


JoĂŁo, tambĂ©m nome fictĂ­cio, tem 16 anos e olha para o tema de outro lugar. Ele nĂŁo acredita que os adolescentes estejam necessariamente mais tristes, mas percebe que muitos lidam mal com limites, brincadeiras e convivĂȘncia. Sua maior preocupação Ă© que piadas consideradas bobas possam machucar alguĂ©m de forma permanente.


O adolescente tambĂ©m menciona a exclusĂŁo e a dificuldade que alguns grupos tĂȘm de aceitar mudanças nas pessoas. Para ele, a escola pesa menos do que a famĂ­lia quando o assunto Ă© cobrança por notas e futuro profissional, embora reconheça que a instituição participa da construção dessas expectativas. Seu medo mais Ă­ntimo Ă© “viver sozinho” ou “morrer sozinho”.

João encontra acolhimento em grupos de jogos on-line, onde conversa com pessoas que compartilham os mesmos interesses. Ao mesmo tempo, reconhece que as redes podem distorcer a realidade e incentivar comparaçÔes. Para ele, muita gente mostra apenas a parte boa da vida em busca de aceitação.


APOIO NÃO PODE SER EXCEÇÃO


Os relatos de Nathalie e JoĂŁo mostram que a saĂșde mental adolescente nĂŁo cabe em uma explicação Ășnica. HĂĄ dor ligada ao luto, Ă  solidĂŁo, Ă s redes sociais, Ă s expectativas familiares, Ă  escola, ao bullying e ao medo de nĂŁo pertencer. Por isso, o enfrentamento tambĂ©m precisa envolver mais de uma frente.


FamĂ­lias precisam escutar antes de corrigir. Escolas precisam reconhecer sinais de sofrimento e construir ambientes menos hostis. Serviços de saĂșde precisam estar acessĂ­veis. PolĂ­ticas pĂșblicas precisam sair dos documentos e chegar Ă  rotina dos adolescentes. A psicĂłloga Lucilene avalia que a geração atual, apesar das dificuldades, tem mais abertura para falar sobre emoçÔes e buscar informação sobre saĂșde mental. Essa abertura pode ser um caminho, desde que encontre suporte real.


A adolescĂȘncia nĂŁo precisa ser tratada como uma crise inevitĂĄvel nem como uma fase sem importĂąncia. Ela Ă© um perĂ­odo de formação, e o modo como a sociedade responde ao sofrimento de seus jovens ajuda a definir que adultos eles poderĂŁo se tornar. Quando um adolescente diz que estĂĄ triste, isolado ou sem vontade de seguir, a primeira resposta nĂŁo deveria ser o julgamento. Deveria ser presença.


Se vocĂȘ estĂĄ em sofrimento emocional ou conhece alguĂ©m que precisa de ajuda, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188 e pelo chat em cvv.org.br/chat.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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