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Violência em relacionamentos abusivos: o medo que ainda silencia mulheres

Mulheres vítimas de relacionamentos violentos vivem com medo do agressor e, por isso, muitas vezes, seguem caladas


A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) foi sancionada no Brasil em 7 de agosto de 2006 | Crédito da foto: Carta Capital
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) foi sancionada no Brasil em 7 de agosto de 2006 | Crédito da foto: Carta Capital

Por Jéssica Viviane | Agência Abre Aspas


Aline Pereira, que passou por um relacionamento abusivo, relata que agora se sente confortável em contar sua história, mas que, algum tempo atrás, a entrevista não seria possível. Vítima de um relacionamento abusivo, ela carrega marcas físicas e emocionais de uma rotina de agressões, medo e controle.


No Paraná, 35% das mulheres afirmam já ter sofrido algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem, segundo a 10ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher. O dado ajuda a dimensionar um problema que atravessa a vida privada e a segurança de milhares de brasileiras. Os números recentes reforçam a gravidade da violência contra a mulher no país.


 A violência pode se apresentar de maneira psicológica, física, patrimonial, sexual ou moral, se manifestando por meio de frases que visam limitar ou diminuir a vítima, o controle de documentos e contas bancárias, xingamentos, humilhações ou agressões físicas, e a relação de proximidade ou apego emocional ao agressor dificulta a possibilidade de percepção e reação. 

“Até hoje dói relembrar tudo o que eu enfrentei, mas eu decidi que vou falar sobre o assunto para ajudar outras mulheres”, disse Aline sobre a importância em se tomar coragem para expor os ocorridos. No início, o relacionamento parecia tranquilo. Aline recebia presentes, chocolates e acreditava estar vivendo uma grande história de amor. Mas, após os três primeiros meses, veio a primeira agressão: um tapa no rosto.


Com o tempo, vieram outras agressões. Ela apanhava por atrasar o café ou queimar a comida. “Sofri chutes, tapas e até estrangulamentos. Ele dizia que nenhuma mulher era bonita de maquiagem, e que a beleza tinha que ser natural, então ele não me deixava passar maquiagem. Meu cabelo eu só podia pentear, não podia fazer nada nele, por exemplo pintar, cortar ou algo diferente que eu quisesse”. Com o tempo, ela entendeu que estava passando por vários tipos de abusos: físico, psicológico, sexual e patrimonial.


O momento da virada foi quando ele quase tirou sua vida. “Fomos a uma festa, ele me levou no banheiro, ligou o chuveiro para abafar o som, e começou a me enforcar, dizendo que iria me matar. Quando já estava ficando sem forças, clamei a Jesus, e, naquele momento, eu consegui gritar, então arrombaram a porta e me salvaram", relembra Aline.

A experiência de Aline também ajuda a entender por que muitas vítimas demoram a procurar ajuda e como o acesso à rede de proteção ainda é desigual. 

SERVIÇOS DE PROTEÇÃO E DEFESA À MULHER


O Senado Federal fez uma pesquisa acerca dos serviços de apoio oferecidos para as vítimas. Dentre eles, as delegacias especializadas no atendimento à mulher são conhecidas por 93% das brasileiras, seguidas pela Defensoria Pública, conhecida por 87%. A Casa da Mulher Brasileira é conhecida por apenas 38% das mulheres. 


Durante o casamento, Aline se sentia inútil, feia e insuficiente. Ela acreditou, por muito tempo, que ninguém mais a amaria além dele, pois era o que ele a fazia acreditar. “A minha autoestima tinha sido afetada, precisei de muito tratamento para me reerguer, pois me sentia morta por dentro. Não sentia vontade de fazer mais nada. O tratamento psicológico me ajudou muito, mas ainda hoje existem marcas e gatilhos que ficarão pra sempre, mas mesmo assim consegui seguir em frente”. O  apoio que ela teve de família e amigos foi importante, mas sua principal ajuda veio da mãe, que a fez enxergar a realidade em que vivia. 

Após o início do tratamento, Aline relata ter encontrado alegria em viver. Ela começou a faculdade e participou do projeto ASA (Abusados sexualmente anônimos), que ajuda outras mulheres vítimas de violência. Por mais que a experiência tenha sido traumática, Aline se considera uma mulher de fé e acredita que tudo acontece por um propósito.“Eu sou grata por poder tirar ensinamentos de tudo o que aconteceu e ajudar outras mulheres a se salvarem. Não tenham medo de denunciar, não tenham dó de quem te machuca. Tenha fé, coragem e se proteja. Você merece viver sem medo", reforça.


Em Cascavel, no Paraná, a delegacia da mulher oferece apoio e atendimento especializado para as vítimas. Muitas mulheres se calam por medo, vergonha e dependência financeira ou emocional, permanecendo em relacionamentos abusivos pela ausência de salário ou até mesmo a proteção aos filhos. O policial Sebastião Madril, oficial da Polícia Militar de Cascavel, responsável pelo atendimento inicial de ocorrências de violência doméstica, afirma que muitos casos de casamento abusivo não chegam às autoridades, ele fala maneiras de identificar relacionamentos tóxicos e evitar que o problema aumente. “Preste atenção nos sinais: medo do parceiro, mudanças de comportamento repentino, isolamento da família e dos amigos, baixa autoestima, necessidade de pedir permissão para tudo, controle sobre a roupa, celular, dinheiro e rotina, além das ameaças, humilhação e ciúme possessivo, são todos sinais comuns e recorrentes nestes relacionamentos. Infelizmente, todo mundo está sujeito a passar por situações como esta, independente da classe social, idade, profissão, escolaridade ou religião, então precisamos estar atentos às pessoas proximas”, explica o oficial. 


 PROTEÇÃO LEGAL


As medidas protetivas têm como objetivo afastar o agressor, interromper o contato com a vítima e reduzir o risco de novas violências. Nesse contexto, é necessário saber quais medidas a vítima pode procurar e como são executadas.    


As principais medidas protetivas são o afastamento imediato do agressor da casa, a proibição de contato com a vítima e a restrição de aproximação. Essas medidas podem ser solicitadas pela vítima e devem ser analisadas pela Justiça em até 48 horas. Caso o agressor descumpra as medidas protetivas, ele pode ser preso. A vítima recebe atendimento especial, apoio psicológico e encaminhamento para serviços de proteção por meio da rede pública.


Aline relatou que agora está pronta para viver um novo relacionamento. A história dela mostra que é possível sair de um relacionamento abusivo, mas muitas mulheres ainda permanecem em silêncio. Hoje, depois de anos marcados pelo medo, ela reconstrói a própria trajetória. Estuda, participa de ações de apoio a outras mulheres e tenta transformar a dor em fala pública.


Em casos de emergência, disque 190 ou, para denunciar anonimamente a violência, telefone para 181.

Após 3 anos de separação, Aline seguiu em frente e está estudando para se tornar perita criminal | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Após 3 anos de separação, Aline seguiu em frente e está estudando para se tornar perita criminal | Crédito da foto: Arquivo pessoal


2 comentários


Parabéns Jessica pelo assunto escolhido 👏👏👏. Precisamos combater a violência contra as mulheres e o machismo.

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lucasbms21.lb
há 13 horas

Bom texto, tu é braba.

Editado
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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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