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Manutenção de caminhões torna-se questão de economia e responsabilidade ambiental

Com sistemas de pós-tratamento na rotina das oficinas, prevenção evita prejuízos, reduz falhas e ajuda motoristas a cumprir normas ambientais


A manutenção preventiva em caminhões influencia o desempenho, o consumo e o cumprimento das normas ambientais | Crédito da foto: Arquivo pessoal
A manutenção preventiva em caminhões influencia o desempenho, o consumo e o cumprimento das normas ambientais | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Por Alexandre Amorim de Souza | Agência Abre Aspas


O caminhão está na base da rotina econômica do país. Alimentos, medicamentos, combustíveis, roupas e outros produtos chegam às cidades pelas rodovias. Por trás dessa circulação, porém, há uma preocupação que acompanha motoristas, transportadoras e oficinas: a manutenção.


Com veículos cada vez mais tecnológicos e regras ambientais mais rigorosas, oficinas especializadas passaram a lidar com sistemas que vão além do motor. Componentes como ARLA 32, catalisadores, filtros, sensores e escapamentos interferem no desempenho, no consumo e no controle de poluentes.


Manter um caminhão funcionando corretamente deixou de ser somente uma questão mecânica. Também envolve economia, legislação ambiental e viabilidade financeira para quem depende da estrada.


Alan Douglas Amorim de Souza, proprietário da Mecânica Power Diesel, localizada na área rural de Cascavel, conta que a ligação com caminhões começou cedo. “O que motivou foi sempre gostar de caminhões. Isso despertou a vontade de trabalhar na área”, relata.


A experiência na oficina mostra como o setor mudou nos últimos anos. Se antes muitos problemas eram resolvidos pela experiência prática, atualmente os caminhões exigem equipamentos modernos, leitura eletrônica e atualização constante dos profissionais.

Segundo Alan, um dos maiores desafios está na precisão dos diagnósticos. “A maior dificuldade hoje é fazer diagnósticos assertivos. Precisa investir em equipamentos atualizados e treinamento”, afirma.


Essa mudança acompanha a evolução da indústria automotiva pesada. Caminhões modernos contam com sensores, módulos eletrônicos e sistemas automatizados que exigem leitura técnica. Em muitos casos, uma falha aparentemente pequena pode gerar sintomas parecidos com defeitos mais graves, aumentando o risco de troca desnecessária de peças.


Nas oficinas, o tempo também pesa. Diferentemente dos veículos de passeio, caminhão parado representa prejuízo imediato. O motorista depende do veículo para trabalhar, cumprir prazos e manter as despesas em dia. “Hoje, quando o caminhão carrega, geralmente já tem horário para descarregar. Então o cliente precisa entregar a carga, pagar parcela, seguro. Caminhão parado é prejuízo”, comenta Alan.

Entre os problemas mais frequentes estão perda de potência, falhas eletrônicas e dificuldades relacionadas ao sistema de emissões. Segundo Alan, parte dessas situações poderia ser resolvida com menor custo se o diagnóstico fosse feito corretamente desde o início.


“A maior dificuldade é evitar troca de peça sem necessidade. Tem muito caso em que o mecânico acaba trabalhando no achismo. Troca um sensor para ver se resolve, depois troca outra peça. O correto é fazer diagnóstico bem feito para trocar só o que realmente precisa”, explica.

ARLA 32 E AS NOVAS EXIGÊNCIAS


A mudança no setor também está ligada às normas ambientais implantadas no país. Alan cita o ARLA 32 como um dos pontos que passaram a exigir mais atenção das oficinas e dos motoristas. “O ARLA 32 é exigido pela legislação. A partir de 2012 começaram os caminhões Euro 5 e, depois de 2022, veio o Euro 6, que ficou ainda mais rigoroso”, afirma.

Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a utilização do ARLA 32 está associada aos veículos pesados equipados com tecnologia de Redução Catalítica Seletiva (SCR), adotada para atender aos limites de emissões estabelecidos pela fase P7 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), em vigor desde 2012. O órgão informa que a medida foi implementada para reduzir a emissão de óxidos de nitrogênio (NOx) pelos motores a diesel.


As exigências ambientais ficaram ainda mais rígidas com a fase P8 do Proconve, equivalente ao padrão Euro VI. De acordo com a Resolução Conama nº 490/2018, as novas regras passaram a valer para novos modelos de veículos pesados a partir de 1º de janeiro de 2022 e para todos os veículos pesados novos a partir de 1º de janeiro de 2023.

O funcionamento do sistema depende de um reagente químico, o Agente Redutor Líquido Automotivo, produzido com ureia automotiva e água desmineralizada. Quando utilizado corretamente, o sistema ajuda a diminuir gases poluentes liberados pelo motor diesel.


Apesar disso, muitos motoristas ainda encontram dificuldades no uso e na manutenção. Um dos principais problemas ocorre quando o reagente cristaliza dentro do sistema.

“O ARLA 32 pode cristalizar e danificar componentes se o sistema não estiver funcionando corretamente. Catalisador, bomba e dosador precisam de manutenção preventiva”, explica Alan.


Raul Fernando Figueira, conhecido como Capanema, proprietário da Capanema Escapamentos Qualificados, no núcleo industrial de Santa Tereza do Oeste, afirma que o sistema de escapamento também ganhou papel importante nesse cenário ambiental.

Segundo ele, muita gente ainda associa o escapamento ao barulho do caminhão, mas o componente exerce funções essenciais.


“Na prática, o escapamento faz três coisas principais: leva os gases para fora do motor, reduz o barulho e controla a poluição com catalisador e sistema de ARLA 32”, explica.

Além disso, o funcionamento correto interfere diretamente no desempenho do veículo. Quando há vazamento, entupimento ou desgaste excessivo, o motor pode perder rendimento e consumir mais combustível.

“Um escapamento ruim faz o caminhão perder força e consumir mais”, comenta Capanema.

PROBLEMAS NA ROTINA


Segundo Capanema, os problemas mais preocupantes costumam envolver catalisadores e filtros entupidos. “Isso gera perda de potência, aumento de consumo e até risco de multa”, afirma.


As vibrações constantes enfrentadas pelos caminhões nas estradas também contribuem para o desgaste das peças. Dependendo das condições de uso, alguns componentes sofrem desgaste acelerado, principalmente em veículos que percorrem longas distâncias diariamente.


Outra prática comum entre os caminhoneiros é a modificação do escapamento. Modelos conhecidos como “direto” ou “boiadeiro” continuam sendo procurados por motoristas que preferem um som mais forte. No escapamento direto, parte dos componentes responsáveis por reduzir o ruído e controlar a saída dos gases é removida ou substituída, permitindo que o motor produza um ronco mais intenso. Já o escapamento boiadeiro tem a saída posicionada na lateral do veículo, geralmente próxima às rodas traseiras, característica que também altera o som emitido pelo caminhão.


Segundo Capanema, muitos motoristas procuram esse tipo de alteração pelo som e pela manutenção menos complexa. Mas ele alerta para os riscos: “Em caminhão moderno, mexer errado pode causar problema em sensores, perda de torque e até multa”, explica.

Alterações inadequadas podem afetar diretamente sistemas eletrônicos ligados à emissão de poluentes. Em veículos mais novos, qualquer mudança fora do padrão original pode gerar falhas no painel e comprometer o funcionamento do caminhão.


Além da parte técnica, há também a fiscalização. As normas ambientais têm se tornado mais rígidas, principalmente em relação à emissão de fumaça, ao excesso de ruído e à alteração de sistemas de controle de emissões.


“A orientação é não remover catalisador, manter o uso do ARLA 32 e evitar escapamento aberto demais. Dependendo da situação, pode gerar multa pesada e retenção do veículo”, comenta Capanema.


AÇO COMUM OU INOX


No atendimento aos caminhoneiros, outro ponto recorrente é a diferença entre escapamentos convencionais e sistemas em inox.

Segundo Capanema, o aço comum possui custo inicial mais baixo, mas apresenta desgaste mais rápido, principalmente por causa da ferrugem.

Já o sistema em inox oferece maior durabilidade e exige menos manutenção ao longo do tempo. “O inox não enferruja, tem acabamento melhor e é ideal para quem roda bastante”, afirma.

Apesar do investimento inicial maior, muitos caminhoneiros acabam optando pelo inox pela economia futura. Em veículos que percorrem grandes distâncias semanalmente, a durabilidade faz diferença no custo de manutenção.


PREVENÇÃO, CUSTO E SUSTENTABILIDADE


Essa discussão também passa pela sustentabilidade. Assim como outros setores, o transporte rodoviário passou a conviver com exigências ambientais cada vez mais frequentes.


No transporte rodoviário, porém, a adaptação ainda envolve custos altos para muitos profissionais da estrada. Sistemas de controle de emissões exigem manutenção especializada, peças específicas e conhecimento técnico constante.

Mesmo assim, os entrevistados destacam que ignorar esses cuidados pode gerar prejuízo ainda maior.


Além das multas e dos problemas mecânicos, falhas em sistemas de emissão podem comprometer viagens, atrasar entregas e aumentar o consumo de combustível. A legislação brasileira proíbe a circulação de veículos com equipamentos de controle de poluição removidos ou adulterados.


De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), conduzir veículo em desacordo com as exigências ambientais é infração grave, sujeita à multa e retenção do veículo para regularização. As montadoras também alertam que defeitos ou adulterações em sistemas como o SCR, responsável pelo uso do ARLA 32, podem reduzir o desempenho do motor e até limitar a velocidade do veículo como forma de garantir o cumprimento das normas de emissões.


Para Alan Douglas, a manutenção preventiva continua sendo o caminho mais seguro. “Hoje, o principal é conhecimento. O caminhão mudou muito e quem trabalha na área precisa acompanhar isso”, afirma.


Para Capanema, parte do trabalho das oficinas também envolve orientação. “Tem cliente que quer modificar o caminhão sem entender as consequências. Então precisamos explicar o que pode acontecer no futuro”, comenta.


Quando o caminhão deixa a oficina e volta para a estrada, está em jogo a continuidade da viagem. Em um setor marcado por prazos rígidos e longas distâncias, uma pane mecânica ou falha eletrônica pode significar horas de atraso, despesas com guincho e manutenção emergencial, além do risco de perder uma entrega.


Para o caminhoneiro autônomo, muitas vezes, isso representa um dia sem faturamento. Para transportadoras, significa reorganizar rotas, renegociar prazos e absorver custos extras. Em meio às mudanças dos motores modernos e das exigências ambientais, a manutenção passou a ocupar papel estratégico no transporte rodoviário. Cuidar do caminhão, nesse cenário, é manter cargas, trabalhadores e negócios em movimento.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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