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Muitos amores, vários vícios e infinitas obsessões

Em meio a tantos projetos genéricos construídos para o mercado, Castelos & Ruínas  aparece como ouro puro


O rapper fluminense BK' comemora dez anos daquele que é, possivelmente, o melhor projeto de sua carreira | Crédito da foto: YouTube “BK”
O rapper fluminense BK' comemora dez anos daquele que é, possivelmente, o melhor projeto de sua carreira | Crédito da foto: YouTube “BK”

 

Por André Felipe | Agência Abre Aspas

 

Dez anos, 3.652 dias, 5.259.600 minutos. Entre corpos empilhados na rotina, sigo há uma década esquivando dessa maldita orgia, e, em meio a tantos desencontros da vida, eu ainda estou tentando descobrir o que o mundo e a vida têm a oferecer.

 

Desde 2016, muita coisa já mudou, o rap cresceu, mas parte da música tomou caminhos mais comerciais, e o que sobra disso tudo? A força de vontade e o vício no sucesso, tal qual um maratonista que corre grandes distâncias descalço, de uma vida monótona para o estrelato de uma carreira como rapper nos dias ensolarados da Zona Sul no Rio de Janeiro. Felizmente, papai do céu foi bondoso, e em meio a castelos de tijolos rebocados do topo do morro e ruínas de seus semelhantes que morreram tentando, Abebe Bikila, ou melhor, BK', criou um dos álbuns mais influentes da década e um trabalho ainda disruptivo até hoje.

 

Quem diria que, 10 anos depois, 13 músicas diriam tanto sobre uma sociedade tão doente e como a busca pela luz também esbarra em se reconhecer em meio às sombras, onde, no fim, a vida não passa por escolher entre o bem e o mal, mas por transitar entre ambos e criar o equilíbrio que todo ser humano necessita. Dez anos depois, o mesmo garoto franzino hoje se tornou um dos maiores rappers (se não o maior) do país, apesar das balas, das falhas, e além das muitas medalhas.

 

A estética sombria e macabra do álbum remete a tempos mais simples, de um jovem que subia o morro em madrugadas enigmáticas da Cidade de Deus. Em tons pretos ao vivo, a noite do meu bem se dilacera, a paisagem da janela se torna um muro e a estética se consolida nas sombras, pelas sombras e a partir das sombras.

 

Na melodia, o cinzento se intensifica e os ruídos da cidade, enfim, parecem fazer sentido. Mesmo contraditória, é na clareza que a melancolia urbana suja aparece e se reflete nos castelos e nas ruínas de cada um, no buscapé da rolagem de dados viciados que traduzem um sistema visivelmente doente.

No plano racional , a força das letras se intensifica; em arranjos populares e eruditos, referências nordestinas e amazônicas aparecem sob uma marca carioca. Em arranjos de piano e violão, o ritmo se torna agitado e caótico ao mesmo tempo em que se apresenta como suave e introspectivo, a modernidade se torna clássica e o poluído e sujo se torna artístico, como se fosse uma representação literal da cabeça do, então jovem, Abebe.

 

A mistura se torna potente quando unida à jovialidade revoltada e à vontade natural de mudar o mundo, transformando as 13 faixas em um deleite espiritual, lírico e técnico, além de um prato cheio para possíveis novas interpretações, quase como uma obra de arte sem um significado previamente definido, um quadro em branco preenchido involuntariamente pela mente de quem ouve, um bloco de argila  que assume o formato que você desejar.

   

O resultado? Do néctar ao mel, mesmo seguindo na sombra, experimentar, enfim, o gosto do estrelato não era nada mal. Tal qual Darío Conca, a obra do artista fluminense já nasceu como um clássico, uma linha temporal, um ponto impossível de se ignorar na história.

Como escreveu Felipe Mascari, existem discos que envelhecem como fotografia. Você olha e reconhece a estética, a época, o registro bonito, mas percebe que está preso ao instante em que foi tirado. E tem disco que envelhece como uma rua: muda o entorno, mudam as placas, mas a esquina continua te chamando pelo nome. Castelos & Ruínas definitivamente é rua, das ruas, daquelas que você manda ladrilhar.

 

Em meio a muitos amores, vários vícios e infinitas obsessões, a construção musical se transforma em história. Um monólogo sobre a complexidade dos relacionamentos atuais, transformados em uma guerra de poder, de ego e marcados por desejo e uma dependência quase doentia, um teleférico entre caos e desejo.

Na busca por ser amado no céu e odiado no inferno, o equilíbrio nunca deixa de ser pauta, ainda mais em uma geração marcada por repetição e algoritmo, e em uma prisão fechada lotada de leões em pele de cordeiro, aflora um grito por liberdade, um pilar brutalista construído em meio ao minimalismo, o nascimento de um líder em movimento que implora pela disrupção e se destaca em meio ao genérico. De forma semelhante a uma metáfora bíblica, enfim abre-se um caminho para sentir novamente um gosto de sol e para consolidar novos nomes à sua própria imagem.

 

Seguindo nas sombras, a visão é ampla, e em “Caminhos”, “Quadros” e “Pirâmides”, encontramos o próximo nascer do sol, mesmo após um dia de chuva qualquer. Entre muitos castelos, diversas ruínas, vários vícios, muitos amores e infinitas obsessões, o que sobra disso tudo? Um dos rappers mais importantes da década e um dos álbuns de rap mais marcantes do período.

 



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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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