No abraço do outro que a vida encontra descanso
- Luiza Bosi

- há 2 dias
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Juntos há 38 anos, casal enfrenta limitações, perdas e desafios sem abrir mão do que os mantém unidos: um amor que nunca mudou
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Por Luiza Bosi | Agência Abre Aspas
Há amores que parecem nascer do acaso. Outros, da insistência. Mas há aqueles que carregam uma sensação diferente.
Nilson e Marta estão juntos há 38 anos. Ouvindo a história deles, é difícil não lembrar de um verso simples, mas carregado de sentido: “foi Deus que colocou um no caminho do outro”. Desde o início, o que existia entre eles não era complicado de explicar: era vontade de estar perto, de dividir o tempo. Nilson se lembra bem de cada detalhe daqueles primeiros dias.
Mas o amor deles não foi escrito apenas com leveza.
Há cerca de 35 anos, a vida interrompeu o caminho com um acidente de trabalho. De um instante para o outro, tudo mudou. Após isso, veio a notícia para a qual ninguém está preparado: ele talvez não voltasse a andar. E não voltou. Vieram as limitações, as dificuldades e as dores constantes. Nilson conta que, mesmo com o passar dos anos, ainda sente dores que não sabe explicar. “Parece que continua ali”, diz, ao falar das chamadas dores fantasmas.
Naquele momento, Marta sentiu o desespero e o medo real de perder quem amava. Ainda assim, em meio ao caos, ela permaneceu: assumiu o cuidado, enfrentou o que viesse e não foi embora.
“O amor falou mais alto”, ela diz.
Talvez não seja coincidência que Marta tenha assumido, na prática, o papel de sustentar a casa. Foi isso que ela fez. Ficou quando tudo se tornou difícil. Sustentou quando a vida apertou. Cuidou quando a dor se tornou rotina mas sem deixar de ser, também, alguém que sente, se cansa e, ainda assim, escolhe continuar.
Mas o amor deles nunca foi de um só lado.
Nilson, mesmo diante das limitações, também permaneceu. Com fé, com vontade de viver, com a decisão diária de seguir em frente. “A gente aprende a continuar”, comenta. Dentro da rotina da casa, participa como pode: conversa, opina, acompanha o que acontece ao redor, observa cada detalhe e faz questão de reconhecer o cuidado que recebe.
Juntos, fizeram a vida seguir.
Vieram os dias difíceis. As dificuldades financeiras. As noites no hospital.
Para Marta, a maior dificuldade nunca foi ficar ou cuidar dele, mas, sim, ter que ver o sofrimento e não poder fazer a dor desaparecer. “Isso que mais dói”, ela resume. E, até hoje, ela segue assim, entre a fé, o cansaço de alguns dias e a certeza de que escolheu ficar.
Ela cuida dele, organiza a casa, resolve o que precisa do dia. Vai ao médico, organiza os remédios, passa no banco, resolve imprevistos, mantém a rotina funcionando. Ele retribui como pode: na presença, nas conversas, nas palavras simples e no reconhecimento constante.
“É no abraço dela que eu descanso”, enaltece Nilson.
Entre eles, também há leveza. Conversas simples, lembranças dos primeiros anos, pequenos momentos que não têm a ver com dificuldade, mas com companhia.
E, sem saber, suas palavras ecoam aquilo que a música que os dois tanto amam diz: é no abraço do outro que a vida encontra descanso.
E talvez seja exatamente isso que eles construíram: um lugar onde nenhum dos dois precisa enfrentar o mundo sozinho. Quando perguntados se o amor mudou com o tempo, a resposta vem sem hesitação: “Não mudou. Só ficou mais forte”. O sentimento continua o mesmo. Apesar de tudo o que enfrentaram, o que existe entre eles se mantém na prática diária, nos gestos repetidos e na escolha constante de permanecer.
Houve momentos que marcaram essa trajetória. O mais difícil foi ouvir que ele não voltaria a andar. Um tipo de notícia que muda tudo.
E houve também momentos de luz. O casamento. A construção de uma vida. E, depois, a alegria de descobrir que seriam avós.
Porque o amor deles cresceu. Uma filha e, logo após, duas netas e um neto. E, com eles, a prova de que o amor também se expande, ocupa novos espaços e ganha outras formas dentro da mesma história.
Se existe um segredo para tudo isso, eles não tratam como algo distante. Falam de respeito, de sinceridade, de paciência. De entender o tempo do outro. De continuar, mesmo quando não é simples.
Eles também falam de fé. De Deus. E reconhecem que, em meio a tantas provações, houve algo que os sustentou.
No fim, olhando para tudo o que viveram, o início leve, a ruptura inesperada, os dias difíceis, a reconstrução e a família que veio depois, a sensação que fica é a de permanência.
Depois de 38 anos, Nilson e Marta continuam lado a lado. Inseparáveis. Ele ainda a vê como o amor da vida dele. Ela ainda está ao lado dele todos os dias.
E, entre eles, existe algo raro. Um amor que não foi poupado pela vida, mas que resistiu a tudo, que enfrentou a dor, a incerteza, as limitações e, ainda assim, permaneceu.Olhando de perto, não parece simples. Mas, para eles, faz sentido assim no cuidado, na presença e, sobretudo, no abraço onde a vida encontra descanso.




E no final… vale a pena amar. Parabéns pela produção , me tirou arrepios e lágrimas.