Entre o sonho e o que se constrói
- Jamile Milzarek

- há 5 dias
- 6 min de leitura
O conforto do conhecido e o risco do novo, uma história sobre escolher se mover.

Por Jamile Milzarek Pereira | Agência Abre Aspas
A taça ainda não estava cheia quando o cliente começou a falar em francês. Gabrielle demorou alguns segundos para entender se era com ela. Sorriu, respondeu em um inglês que ainda carregava sotaque e tentou acompanhar o ritmo da conversa enquanto equilibrava mais dois pedidos na mão. Ao lado, uma mesa de brasileiros ria alto e, ao fundo, um casal falava em um idioma que ela não reconhecia.
Era mais uma noite no restaurante de vinhos, em Portugal. Ainda assim, havia algo que nunca se repetia.
O sonho de viajar pelo mundo pode soar comum. Está em conversas, em planos soltos, em promessas que, muitas vezes, não saem do lugar. Mais do que desejo, para muitos, é direção.
Gabrielle Servat sempre soube que iria embora, mas nunca soube exatamente como sustentar essa decisão. Por muito tempo, o plano existiu mais como pensamento do que como atitude, como se desejar já fosse, por si só, um risco. Não como quem rejeita o lugar de onde veio, mas como quem entende, desde cedo, que o mundo não termina onde a rotina começa. Em Cascavel, no Paraná, construiu uma vida estável: trabalha, estuda gestão comercial e acumula experiência na área administrativa desde muito jovem. Há caminho, há previsibilidade. E, ainda assim, algo insiste em não se encaixar completamente. Não há falta evidente, mas, no fim de dias iguais, no mesmo trajeto repetido e nas mesmas tarefas concluídas, surge a sensação de que a vida poderia ir além daquele roteiro já conhecido.
O tempo passa, e o sonho de conhecer o mundo permanece, ainda silencioso, mas constante. É nesse intervalo, entre o que já estava posto e o que ainda não tinha forma, que Matheus Meira aparece. Os dois se conheceram ainda jovens, aos 16 anos, quando o futuro era mais hipótese do que plano. O primeiro encontro foi no cinema, daqueles em que o filme importa menos do que a companhia. Dias depois, entre conversas que ainda buscavam forma, o pedido de namoro veio em uma sorveteria, simples, direto e suficiente.
Entre os dois, o que cresce não é só afeto, mas uma ideia compartilhada de vida: viver mais do que o previsível. O sonho ganha forma, mas não acontece de uma vez. Ele se constrói aos poucos.
Até que, em um desses momentos, Matheus se muda para o Porto, em Portugal, partindo em busca de uma estabilidade que ainda não existe. Fica a família. Ficam os vínculos que não se rompem, mas se reorganizam. Ir, nesse caso, já começa a significar recomeço.
Gabrielle permanece e, por alguns meses, organiza tudo o que pode. Trabalha, resolve pendências e observa o cotidiano com outros olhos. Morando com a mãe, entende que partir não é só mudar de país, é atravessar o apego. Meses depois, quando finalmente chega ao Velho Continente, o reencontro com Matheus tem caráter de inauguração. A vida ali exige outra leitura. O diploma perde força, a experiência não garante continuidade e o caminho profissional precisa ser redesenhado.
Nos primeiros dias, tarefas simples exigiam mais tempo do que o esperado. Fazer compras, entender os produtos, calcular valores rapidamente: tudo parecia exigir atenção redobrada. Em um desses momentos, parada diante de uma prateleira, demorou mais do que gostaria para escolher algo básico. Não pela falta de opção, mas pela necessidade de se adaptar ao que ainda não era familiar.
Gabrielle, que sempre esteve na área administrativa, passa a trabalhar em um restaurante de vinhos.
À primeira vista, parece um desvio. Mas, na prática, se torna outra forma de encarar o mundo. Entre taças e conversas, ela atende pessoas de diferentes países. Em uma dessas noites, ao perceber a indecisão de um cliente, arrisca:
— Você prefere algo mais leve ou mais encorpado?
A pergunta saiu em inglês, com leve hesitação. O cliente responde, ela entende, sorri e continua o atendimento. Pequenos diálogos, como esse, passam a fazer parte da rotina e, aos poucos, deixam de ser esforço para se tornarem naturais.
Em uma mesma noite, atende um casal francês que tenta prolongar a conversa, um grupo de brasileiros que ri alto como se estivesse em casa e um senhor português que insiste em contar histórias da cidade. Entre pedidos, ela se adapta, escuta, responde e, pouco a pouco, o atendimento deixa de ser apenas tarefa e passa a ser troca. Nenhum dia se repete. Nenhuma conversa é igual. Aos poucos, isso muda a forma de estar ali, não de maneira imediata, mas construída na repetição dos dias.
Fora do expediente, a vida continua. Há tempo, há cidade, há possibilidade. Em um fim de semana, decide viajar e, poucas horas depois, está em outro país. Em outro, caminha sem pressa pelas ruas do Porto, sem destino definido. A neve deixa de ser distante. A praia deixa de ser exceção. Viajar deixa de ser algo raro e passa a ser uma possibilidade concreta dentro da rotina.
Foi em uma dessas travessias que o tempo pareceu se dobrar sobre eles. Anos depois do primeiro encontro despretensioso, Matheus refaz o gesto romântico, agora em outra escala. Diante da Catedral de Milão, entre turistas e o movimento constante da cidade, o pedido de casamento acontece. Sem ensaio, mas com tudo o que já havia sido construído até ali.
Se antes o início cabia em uma sorveteria, agora o futuro se projetava em outro país.
O trabalho continua existindo, mas já não ocupa tudo. Ainda assim, havia um intervalo difícil de nomear. A rotina funcionava, os dias aconteciam, mas algo não se fixava por completo, como se a vida já estivesse estruturada, mas ainda não plenamente habitada.
E talvez seja essa a principal mudança. A qualidade de vida começa a aparecer não só no que se ganha, mas no que se consegue viver.
Ao mesmo tempo, viver fora também desloca certezas. Existe o esforço de começar sem garantias, de aceitar trabalhos que não correspondem à própria formação, de reconstruir uma identidade que antes parecia pronta. Nada chega dado. Tudo precisa ser aprendido outra vez: o ritmo, os códigos, as formas de se comunicar, até mesmo o lugar que se ocupa no mundo.
Há dias em que o idioma pesa, quando a frase trava no meio, quando é preciso repetir duas ou três vezes para ser compreendida ou quando ela simplesmente desiste de explicar algo mais complexo. Nesses dias, a distância deixa de ser abstrata e se torna concreta: na ausência de quem sempre esteve por perto, nas datas comemorativas que passam de forma diferente, nos silêncios que ninguém preenche.
E é nesse ponto que a experiência deixa de ser idealizada.
Porque viver fora não se sustenta só na novidade. Não é feito apenas de viagens, descobertas e liberdade. Existe repetição, cansaço, dúvida. Existe o confronto com aquilo que não se encaixa, com o que demora, com o que não depende só de esforço.
E é justamente entre o que encanta e o que pesa que a escolha se revela. Permanecer deixa de ser impulso e passa a ser decisão consciente e constante. Uma decisão que não ignora as dificuldades, mas também não se limita a elas. Que entende que crescer, muitas vezes, é aceitar o desconforto como parte do caminho.
No meio disso, o cotidiano ganha forma nas pequenas construções.
E, de repente, Kiara.
Não como detalhe, mas como resposta a algo que ainda não se nomeava. Uma labradora, presente de Matheus, mas também a materialização de um desejo antigo de Gabrielle: o de ter um cachorro, sonho antigo que nunca encontrou o momento certo até ali.
Com ela, a rotina muda de forma concreta. Os passeios passam a organizar os dias, a casa ganha movimento, os silêncios deixam de ser vazios. Há presença.
Aquilo que antes era adaptação encontra continuidade. E o que parecia provisório, pela primeira vez, se sustenta como permanência.
A casa já não é um lugar fixo. Está no que eles vivem, no que compartilham, no que escolhem continuar.
Porque recomeçar, no caso deles, não nasce da necessidade. Nasce da escolha. Escolher mudar quando se poderia permanecer exige outro tipo de coragem: a de expandir a própria vida além dos horizontes presentes. O Brasil continua vivo nas memórias e nos vínculos que resistem à distância. Mas já não é o único lugar possível.
Porque, em algum momento, Gabrielle entendeu aquilo que sempre sentiu: o mundo deixa de ser paisagem quando se torna escolha. E, depois disso, já não é mais possível voltar a olhar de longe.




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