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O peso de crescer e o medo de sumir

Quando o preço de viver um amor de verdade é o silêncio de quem a acolheu, reconstruir-se vira um ato de sobrevivência


Crescer é aprender a girar em direção à esperança, mesmo nos dias difíceis | Crédito da foto: Leticia Patricia
Crescer é aprender a girar em direção à esperança, mesmo nos dias difíceis | Crédito da foto: Leticia Patricia

Por Leticia Patricia | Agência Abre Aspas


Ela costumava dizer que, quando a gente é criança, o futuro parece um desenho de princesa, com final feliz. A meta parecia clara: crescer, ser bem-sucedida, ter uma vida boa e comprar as coisas que davam vontade. Ninguém a avisou que, na vida adulta, de repente, o mundo vira de ponta-cabeça. Ela começou a descobrir coisas novas, o horizonte parecia bonito e, num estalo, tudo desmoronou.


Foi um baque estranho. Uma hora ela estava seguindo em frente, tentando conquistar a liberdade, e, na outra, percebia que as coisas já não eram como antes. O trabalho desandou, a cabeça virou um turbilhão e aquele porto seguro, que deveria ser a família, começou a rejeitá-la. Ela se olhava no espelho e se via perdida. Era uma solidão barulhenta, porque, dentro da mente dela, havia um eco de responsabilidades que nunca pediu para ter, cobrando maturidade de alguém que ainda tentava entender o próprio tamanho.


Ela pensava em quantas histórias ficam pelo caminho por causa do medo, do orgulho, da insegurança ou de um momento perdido: palavras que nunca foram ditas, ligações que nunca aconteceram e sentimentos que permaneceram guardados em silêncio. Para ela, essa sempre foi uma das partes mais difíceis de compreender na vida. Viver o próprio sonho também assusta. Vem o medo de dar o próximo passo, o receio do que os outros vão falar e o pavor de ser rejeitada.


No meio desse caos, bem quando ela se fechou como se usasse uma blindagem, decidida a não querer ninguém e a olhar só para si, a vida pareceu rir dela. De repente, uma garota apareceu. Uma conversa pequena virou apego, o apego virou paixão e, em um gesto de coragem, ela decidiu ser de verdade. Ela se assumiu. Esperou o abraço e recebeu as costas.


A dor de perder o apoio da família por ser quem se é fere de um jeito que poucas palavras alcançam. Para ela, o peso desse silêncio era ainda mais duro. Como filha adotiva, o conflito desse amor tocava a raiz da sua história. Era ver o fantasma da rejeição, que ela achou ter vencido na infância, voltar para assombrá-la na vida adulta. Como se, para viver o seu amor de verdade, ela tivesse que reviver o medo profundo de não pertencer a lugar nenhum, de ser deixada de lado por quem escolheu acolhê-la. A dor de se sentir órfã duas vezes.


A mãe dela sempre dizia que ela deveria ser como um pássaro: voar, aproveitar a vida e chegar a lugares onde ela nunca pôde pisar. Mas, quando finalmente começou a viver como um, teve as asas cortadas no meio do voo.


Foi nessa situação forçada que o fantasma mais assustador da mente apareceu: o medo de perder a própria essência. Ela se olhava nas fotos e se perguntava onde tinha ido parar aquele brilho no olhar, aquela alegria leve que parecia inabalável. O peito pesava tanto que dava a sensação de que a fase cinza seria eterna, de que a felicidade tinha virado um artigo de luxo que ela não podia pagar.


Mas a vida, que é dura, também sabe ser sutil. Se, de um lado, o muro caiu, do outro surgiu uma mão estendida. Uma amiga. Aquela presença que, todos os dias, repete como um mantra que “vai ficar tudo bem”. É um fio de esperança preso à realidade. No fundo, mesmo com o coração quebrado, ainda existe uma faísca dizendo que tudo pode encontrar algum sentido.


A verdade dura da vida adulta que ela descobriu é esta: o sucesso não está no dinheiro nem no status; o verdadeiro sucesso é conseguir ser feliz.

Depois de tudo o que passou, ela só pensa em recomeçar. Quer mudar hábitos, lugares e até destinos. Ainda é jovem; tem tempo para errar e aprender. Ela tenta acreditar que tudo passa, que a solidão não precisa vencê-la e que o amor não deve ser motivo para perder a si mesma. O plano agora é seguir em frente, sem nunca mais renunciar a quem ela realmente é.


A pergunta que ecoava no silêncio do quarto dela era dolorosa: quando é que ela vai voltar a ser feliz? Talvez a resposta não seja uma data no calendário, e sim um processo lento de reconstrução. Ela vai voltar a ser feliz quando perceber que a essência dela não sumiu, apenas se protegeu da chuva. Vai voltar a ser feliz quando entender que o amor que sente não é um erro e que a aprovação dos outros não pode ser o preço da própria liberdade.


A felicidade vai voltar. Não como aquela inocência da infância, mas mais forte, mais calma e orgulhosa por ter resistido. É processo, e ela começa a acreditar.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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