top of page

O lixo que deixa de ter dono

Da pressa de quem descarta ao trabalho de quem abre sacolas nas cooperativas, o caminho dos resíduos mostra que jogar fora nunca é o fim


Onde muitos veem descarte, outros encontram sustento | Crédito da foto: Heloyse Anjos
Onde muitos veem descarte, outros encontram sustento | Crédito da foto: Heloyse Anjos

Por Heloyse Anjos | Agência Abre Aspas


O relógio dita o ritmo de muitos dias. Entre demandas de trabalho, estudos e cansaço acumulado, a cozinha doméstica ganhou um aliado recorrente: a tela do smartphone. Em poucos cliques, a fome encontra uma solução rápida, quase sempre embalada em sacolas plásticas, caixas de papelão, potes descartáveis e papéis laminados.


Para quem consome, o ciclo parece terminar quando a embalagem vai para a lixeira. A sacola sai de casa, o cheiro desaparece, a pia fica limpa e a rotina segue. Mas o resíduo não some. Ele apenas muda de lugar e, muitas vezes, passa das mãos de quem descartou para as mãos de quem precisa abrir, separar, limpar e dar destino ao que a cidade joga fora todos os dias.


Para Nicolas Schuck, de 34 anos, o delivery faz parte de uma rotina atravessada pela falta de tempo. Depois de dias longos, pedir comida pelo aplicativo se tornou uma forma de aliviar a sobrecarga. "O delivery entra mais como comodidade para facilitar o dia a dia. Muitas vezes, não temos tempo para preparar a janta ou estamos cansados. A facilidade e a agilidade acabam pesando na decisão", relata.

No caso dele, o hábito se repete de cinco a seis vezes por mês. O gesto, comum em milhares de casas, ajuda a entender uma contradição urbana: a mesma embalagem que economiza tempo para quem pede comida aumenta o volume de resíduos que seguem para coleta, triagem, reciclagem ou aterro. O descarte pode durar segundos, mas seu percurso continua muito depois da refeição.


CONSUMO INVISÍVEL


Enquanto parte da população busca praticidade no dia a dia, toneladas de resíduos sólidos sobrecarregam os sistemas de coleta e produzem impactos socioambientais nas cidades brasileiras. A rotina de Nicolas, multiplicada por milhões de lares, compõe um cenário que exige atenção.


De acordo com levantamento divulgado pelo movimento Recicla Sampa, iniciativa ligada às concessionárias de coleta de resíduos domiciliares da cidade de São Paulo, o Brasil produz, por dia, cerca de 130 mil toneladas de lixo. O estado de São Paulo responde por quase 10% desse volume, com aproximadamente 12 mil toneladas diárias, das quais 40% são materiais recicláveis.


Quando o descarte é feito de forma inadequada, o problema deixa de ser doméstico e passa a atingir o espaço coletivo. Resíduos misturados entopem bueiros, poluem rios, sobrecarregam aterros sanitários e dificultam o trabalho de quem atua diretamente na coleta e na triagem.


Nicolas reconhece que a quantidade de embalagens é uma consequência difícil de evitar dentro do modelo atual de consumo. Ainda assim, procura reduzir danos dentro de casa, separando materiais recicláveis nas lixeiras adequadas. A prática, segundo ele, só é possível porque o prédio onde mora possui estrutura específica para esse tipo de descarte.


Mesmo com esse cuidado, ele admite que nem sempre pensa no destino final de cada material. A resposta traduz um traço comum da vida urbana: quando o lixo sai da vista, também costuma sair da preocupação. O problema é que, antes de se tornar estatística, cada embalagem passa por uma cadeia de trabalho que depende da responsabilidade de quem descarta.


RECICLAGEM URBANA


Do outro lado dessa linha, o material que saiu de casas, prédios e comércios ganha rosto, nome e rotina. Na Coopercaju, no Ecoponto Manaus, a cooperada e preposta Dilair Aparecida Moreira acompanha de perto o caminho dos resíduos. Ela conta que o material chega por caminhões próprios e por parceiros, é despejado em mesas de triagem e separado pelos cooperados em grandes bolsas, chamadas big bags, antes de seguir para a prensa e para a comercialização.


A principal dificuldade, segundo Dilair, continua sendo a mistura entre lixo orgânico, recicláveis e materiais cortantes. O lixo orgânico inclui restos de alimentos, cascas e outros resíduos de origem biológica. Já os recicláveis envolvem materiais como papéis limpos, plásticos, vidros e metais, desde que não estejam contaminados por gordura, restos de comida ou produtos que impeçam o reaproveitamento.


"Os erros mais comuns são misturar material reciclável com orgânico e colocar vidro cortante sem proteção. Isso coloca os cooperados em risco, porque eles podem se machucar e se cortar", alerta Dilair.

A mesa de triagem, que poderia ser apenas um espaço de separação, vira também um lugar de risco quando vidros quebrados, seringas ou objetos pontiagudos chegam soltos nas sacolas. Além do perigo físico, a mistura compromete o aproveitamento dos materiais. Uma garrafa pet no meio de resíduos orgânicos até pode ser recuperada em alguns casos, mas muitos itens acabam perdendo valor e seguem para o aterro.

É nessa etapa que decisões tomadas dentro de casa ganham consequência. Nicolas, por exemplo, acredita que caixas limpas e embalagens sem restos de alimento podem ir para a reciclagem, enquanto papéis engordurados e caixas de pizza muito sujas devem seguir para o lixo comum. A percepção está próxima da orientação básica das cooperativas: material reciclável precisa chegar limpo o suficiente para não contaminar outros itens.


A regra não exige perfeição, mas cuidado. Um pote plástico de delivery não precisa ser lavado como louça, porém deve ter o excesso de molho ou comida retirado. Já papéis e papelões com muita gordura podem comprometer outros materiais durante o transporte. Pequenas escolhas, feitas antes de fechar a sacola, interferem no rendimento da cooperativa e na segurança de quem trabalha nela.


EDUCAÇÃO AMBIENTAL


Embora o destino do lixo pareça distante para quem consome dentro de casa, a informação muda o comportamento. Nicolas conta que já visitou cooperativas e conhece parte da realidade da reciclagem. Por isso, afirma tomar cuidado para que o lixo produzido em sua casa não ofereça risco aos trabalhadores.


Ele relata que descarta agulhas apenas em locais específicos, protege vidros quebrados dentro de caixas de papelão lacradas com fita adesiva e evita encaminhar materiais recicláveis sujos. São gestos simples, mas capazes de transformar o descarte em uma atitude de cuidado com outras pessoas.


A postura dialoga com o pedido feito por Dilair. Para ela, a melhora do sistema passa por uma palavra: educação ambiental. "É separar corretamente o material reciclável do orgânico e do cortante, mandar tudo separadinho. As embalagens contaminadas não podem ir junto, como seringa ou qualquer coisa que coloque em risco as pessoas que fazem esse trabalho", orienta.


Ela reforça que vidros precisam ser embalados corretamente para evitar cortes durante a triagem. Também lembra que a separação adequada ajuda o meio ambiente, aumenta o aproveitamento dos materiais e protege quem depende da reciclagem para sobreviver.


A jornada de uma embalagem de delivery mostra que as fronteiras da vida urbana são mais frágeis do que parecem. O estudante, o trabalhador cansado que pede comida por aplicativo e a cooperada que abre a sacola no ecoponto estão ligados pelo mesmo objeto. Se o lixo deixa de ter dono quando é deixado na calçada, o cuidado no descarte pode impedir que ele chegue à cooperativa carregando risco.

No fim, separar corretamente é uma forma de reconhecer que o que sai da nossa casa continua fazendo parte da cidade.

Comentários


  • Instagram
  • TikTok

Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

©2025 - Agência Abre Aspas - Todos os Direitos Reservados

bottom of page