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Wellness, vapes e a geração do autocuidado: por que os jovens bebem menos, mas fumam mais?

Alta dos cigarros eletrônicos revela que o bem-estar também convive com novas formas de dependência


Contradições de uma geração que valoriza o autocuidado, mas continua exposta a novos produtos e tendências de consumo | Créditos da imagem: Ana Bonini
Contradições de uma geração que valoriza o autocuidado, mas continua exposta a novos produtos e tendências de consumo | Créditos da imagem: Ana Bonini

Por Ana Bonini | Agência Abre Aspas


Durante décadas, o rito de passagem para a adolescência e o início da vida adulta parecia seguir um roteiro conhecido: experimentar álcool, fumar escondido dos pais e, em alguns casos, entrar em contato com outras drogas. Essas experiências eram frequentemente associadas à ideia de liberdade, pertencimento e socialização. Hoje, parte desse comportamento começa a mudar. Os jovens bebem menos, fumam menos cigarros convencionais e apresentam queda na experimentação de drogas ilícitas. Ao mesmo tempo, porém, um novo hábito cresce de forma acelerada: o uso de cigarros eletrônicos.


Os dados parecem contraditórios. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), a experimentação de bebidas alcoólicas entre estudantes de 13 a 17 anos caiu de 63,3% em 2019 para 53,6% em 2024. O uso de cigarros convencionais também diminuiu, assim como a experimentação de drogas ilícitas. Em contrapartida, quase três em cada dez adolescentes afirmaram já ter usado cigarro eletrônico.

A explicação para esse cenário talvez esteja menos na substituição de um vício por outro e mais na transformação da forma como a geração atual enxerga saúde, aparência e qualidade de vida.


Nos últimos anos, o conceito de wellness deixou de ser um nicho para se tornar parte da cultura digital. Alimentação equilibrada, rotina de exercícios, pilates, corrida, skincare, sono de qualidade e saúde mental passaram a ocupar espaço constante nas redes sociais. Influenciadores transformaram hábitos antes restritos a atletas ou profissionais da saúde em conteúdo diário. Perfis como o da influenciadora Manu Cit, entre tantos outros, ajudaram a popularizar uma estética baseada na disciplina, no autocuidado e na busca por uma rotina considerada mais saudável.


Essa mudança também alterou a relação dos jovens com o álcool. Se antes beber era quase um requisito para socializar, hoje parte da Geração Z associa o consumo excessivo à perda de produtividade, à piora do desempenho físico, às alterações na pele, à dificuldade para treinar e aos impactos na saúde mental.

Não por acaso, cresce o interesse por bebidas sem álcool, alimentação natural e atividades voltadas ao bem-estar, mas existe um paradoxo nessa história.

Ao mesmo tempo em que a preocupação com saúde aumenta, o cigarro eletrônico conquista espaço entre adolescentes e jovens adultos. Os dispositivos aparecem com design moderno, sabores variados e forte apelo estético. Diferentemente do cigarro convencional, carregam menos o estigma social construído ao longo das últimas décadas. Para muitos jovens, o vape não é percebido como um produto ligado ao tabagismo, mas como um acessório tecnológico ou um hábito recreativo.


Essa percepção ajuda a explicar parte do crescimento observado pela PeNSE. Enquanto a experimentação do cigarro tradicional caiu de 22,6% para 18,5%, a do cigarro eletrônico saltou de 16,8% para 29,6% entre adolescentes de 13 a 17 anos.


A contradição chama atenção porque revela que a cultura wellness nem sempre significa escolhas baseadas em evidências científicas. Muitas vezes, ela é atravessada pela lógica das redes sociais, onde aparência e percepção de risco costumam pesar mais do que informações médicas.


Não é difícil encontrar vídeos mostrando rotinas de alimentação saudável seguidas de imagens de jovens utilizando cigarros eletrônicos em festas ou encontros entre amigos. Enquanto o cigarro convencional simboliza um hábito ultrapassado, o vape costuma ser apresentado como moderno, discreto e até sofisticado.


O problema é que essa imagem não corresponde às evidências disponíveis. Apesar de serem relativamente recentes, os cigarros eletrônicos contêm nicotina em grande parte dos dispositivos comercializados e mantêm elevado potencial de dependência. Além disso, especialistas alertam que adolescentes usuários apresentam maior risco de desenvolver consumo regular e migrar posteriormente para outros produtos derivados do tabaco.


Isso mostra que o comportamento da nova geração não pode ser interpretado apenas pela lógica do "mais saudável" ou "menos saudável". A Geração Z parece rejeitar práticas associadas ao excesso, mas continua vulnerável a produtos que conseguem se apresentar como compatíveis com uma vida equilibrada.


A própria internet ajuda a explicar esse fenômeno. As redes sociais democratizaram informações importantes sobre alimentação, atividade física e saúde mental. Ao mesmo tempo, aceleram tendências de consumo e criam novas formas de desejo. O mesmo algoritmo que entrega vídeos sobre pilates, corrida e alimentação natural pode recomendar conteúdos que normalizam o uso de cigarros eletrônicos.


Nesse contexto, o wellness deixa de ser apenas uma filosofia de cuidado para também se tornar um mercado. Produtos, suplementos, roupas esportivas, cosméticos e hábitos passam a compor uma identidade visual compartilhada nas plataformas digitais.

Talvez por isso seja precipitado afirmar que os jovens simplesmente abandonaram comportamentos de risco. O álcool perde espaço entre parte da população adolescente, o cigarro convencional deixa de representar status e outras drogas apresentam queda na experimentação. Em contrapartida, surgem produtos capazes de dialogar melhor com os valores estéticos e culturais da nova geração.


A questão central, portanto, não é decidir se os jovens de hoje são mais saudáveis do que os das gerações anteriores. Eles provavelmente estão mais atentos à alimentação, ao exercício físico e ao equilíbrio emocional. Porém, isso não significa que estejam imunes à influência do mercado ou da internet.


O crescimento da cultura wellness mostra uma geração interessada em viver mais e melhor. Já o avanço dos cigarros eletrônicos revela que esse desejo também pode ser capturado por produtos que vendem uma imagem de modernidade sem necessariamente oferecer menos riscos.


No fim das contas, talvez a principal característica da juventude contemporânea seja justamente essa convivência entre informação e contradição. Nunca se falou tanto sobre saúde. Nunca se consumiu tanto conteúdo sobre bem-estar. Ainda assim, novos hábitos surgem e desafiam a ideia de que informação, por si só, é suficiente para orientar escolhas.


A discussão sobre os cigarros eletrônicos, portanto, não passa apenas pela saúde pública. Ela também diz respeito à maneira como uma geração constrói sua identidade em um ambiente onde autocuidado, consumo e redes sociais caminham lado a lado.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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