Quando o corpo se torna um mistĂ©rio: a jornada de Amanda contra a esclerose mĂșltipla
- Giovanna Kava
- hĂĄ 2 dias
- 7 min de leitura
DiagnĂłsticos desencontrados, sintomas invisĂveis e a criação de uma comunidade de acolhimento marcam a histĂłria de uma jovem de Belo Horizonte diante da doença

Por Giovanna Kava | AgĂȘncia Abre Aspas
O ano de 2025 começou arrastado, pesado e sem respostas para Amanda. O que muita gente via como desĂąnimo ou falta de força de vontade era, na verdade, o inĂcio de uma busca mĂ©dica que testaria seus limites fĂsicos e emocionais. No fim de 2024, depois de perceber os primeiros sinais de que algo nĂŁo estava bem, ela decidiu fazer um check-up geral. O resultado apontou hipertireoidismo, disfunção na glĂąndula tireoide que acelera o metabolismo.
Sob orientação médica, Amanda passou por iodoterapia, tratamento usado para reduzir a atividade da tireoide e, em alguns casos, levar o organismo ao hipotireoidismo. A expectativa era controlar o quadro com mais estabilidade. Na pråtica, porém, ela enfrentou um hipotireoidismo severo, que afetou sua rotina e sua qualidade de vida. "Eu sentia muito os sintomas, muito cansaço, uma coisa muito ruim. Eu não conseguia viver direito", relembra.
Nos meses seguintes, ela passou por diferentes endocrinologistas. A cada consulta, uma explicação possĂvel. A cada tentativa, uma nova frustração. Amanda ajustou a alimentação, tomou vitaminas e tentou manter atividades fĂsicas, mas a sensação de adoecimento permanecia.
O mais difĂcil, segundo ela, era lidar com a desconfiança de quem nĂŁo enxergava nada nos exames ou no corpo. Os sintomas, muitas vezes, eram traduzidos por outras pessoas como preguiça, falta de foco ou exagero. Aos poucos, ela passou a duvidar da prĂłpria percepção.
O AGRAVAMENTO DOS SINTOMAS
Em agosto de 2025, tentando retomar algum domĂnio sobre a rotina, Amanda começou a fazer balĂ©. Na mesma Ă©poca, vivia desgaste fĂsico e emocional. Pouco depois, surgiram sinais que ela ainda nĂŁo associava Ă esclerose mĂșltipla. De um dia para o outro, acordou com o lado direito do corpo dormente, dor forte na nuca do lado esquerdo e visĂŁo turva no olho direito. Como havia se esforçado nas aulas, imaginou que pudesse ser uma consequĂȘncia muscular ou apenas cansaço acumulado.
Os dias seguintes mostraram que havia algo mais sĂ©rio. Na quinta-feira que antecedeu uma viagem a Aparecida, Amanda viveu o que descreve como a pior noite de sua vida. Sentia uma agonia fĂsica intensa, nĂŁo conseguia esticar braços e pernas e andava pela casa sem saber o que fazer. Mesmo assustada, manteve o compromisso de viajar na sexta-feira para coordenar uma excursĂŁo religiosa que organizava com a mĂŁe.
Sob o calor da cidade paulista, os sintomas pioraram. Ao tentar andar sem sapatos, Amanda percebeu que nĂŁo sentia o impacto do chĂŁo contra os pĂ©s. Depois veio a perda de sensibilidade na regiĂŁo do abdĂŽmen, acompanhada de uma dor que ela nunca havia experimentado. No domingo, durante a volta para Belo Horizonte, o ar-condicionado do ĂŽnibus estragou. O calor no veĂculo agravou o mal-estar e a dormĂȘncia se espalhou pelo corpo.
Na medicina, o agravamento temporårio dos sintomas neurológicos pelo aumento da temperatura corporal é conhecido como Efeito de Uhthoff, observado em pessoas com doenças desmielinizantes. Amanda não sabia nomear aquilo naquele momento. Só sabia que o corpo jå não respondia como antes. Ao perceber o estado da filha, a mãe pediu que ela procurasse atendimento assim que chegassem em casa.
âAssim que acordei, falei para o LuĂs: âLindo, vamos para o pronto-socorro. Meus sintomas estĂŁo muito ruins, estĂĄ muito difĂcilââ, conta.
TRĂS DIAS NO HOSPITAL E A PAZ DE UM DIAGNĂSTICO

Ao dar entrada no hospital, a gravidade dos sintomas chamou a atenção da equipe mĂ©dica. A primeira suspeita envolvia condiçÔes de emergĂȘncia, como Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou infarto. Amanda foi submetida a exames de imagem e de sangue. A ressonĂąncia magnĂ©tica trouxe a resposta: havia lesĂ”es desmielinizantes no cĂ©rebro e na medula, marcas compatĂveis com o ataque do prĂłprio sistema imunolĂłgico Ă bainha de mielina, estrutura que protege os neurĂŽnios e participa da transmissĂŁo dos comandos entre o cĂ©rebro e o corpo.
Embora o resultado do exame de lĂquor ainda demorasse alguns dias, a equipe de neurologia decidiu iniciar o tratamento. O padrĂŁo das lesĂ”es indicava que Amanda vivia um surto ativo de esclerose mĂșltipla. Para conter a inflamação e reduzir o risco de sequelas, os mĂ©dicos começaram cinco dias de pulsoterapia com corticoide injetĂĄvel, sob observação hospitalar.
A esclerose mĂșltipla Ă© uma doença neurolĂłgica crĂŽnica, autoimune e inflamatĂłria, que afeta o sistema nervoso central. Segundo informaçÔes divulgadas pelo MinistĂ©rio da SaĂșde, a maior parte das pessoas diagnosticadas estĂĄ entre 20 e 40 anos, com ocorrĂȘncia duas a trĂȘs vezes maior em mulheres do que em homens. Estimativas recentes apontam que cerca de 40 mil pessoas convivem com a doença no Brasil.

A reação de Amanda surpreendeu familiares e equipe mĂ©dica. Enquanto os pais e o namorado tentavam assimilar a notĂcia de uma doença crĂŽnica e atĂ© entĂŁo desconhecida para eles, a jovem sentiu alĂvio. Depois de meses ouvindo que poderia estar exagerando, o diagnĂłstico funcionou como confirmação de que seus sintomas eram reais.
"No momento em que recebi o diagnóstico, fiquei muito tranquila, porque vi que eu não estava doida, que o problema não era eu e que eu realmente tinha uma doença", conta.
Antes da internação, Amanda jĂĄ havia pesquisado relatos de pessoas com sintomas parecidos em redes sociais e plataformas de busca. A confirmação mĂ©dica nĂŁo veio como surpresa, mas como resposta. Ainda no hospital, foi ela quem gravou ĂĄudios para avisar amigos e parentes, tentando acalmar quem recebia a notĂcia de longe.
Naquele momento, tambĂ©m entendeu que precisaria proteger a prĂłpria saĂșde mental, jĂĄ que o estresse poderia agravar seu quadro.
A VIDA REAL DA DOENĂA
O diagnĂłstico encerrou a dĂșvida, mas abriu uma rotina de adaptaçÔes. A esclerose mĂșltipla deixou marcas no corpo de Amanda, como perda leve de força, fraqueza no lado direito e uma nĂ©voa persistente na visĂŁo do olho afetado. O maior desafio, porĂ©m, estĂĄ nos sintomas que nĂŁo aparecem para quem olha de fora. A fadiga associada Ă doença nĂŁo se confunde com um cansaço comum e nem sempre melhora com repouso. Em alguns dias, ela limita o corpo e o pensamento.
Essa nova realidade mudou sua forma de trabalhar. Como atua de maneira autÎnoma na maior parte do tempo, Amanda precisou criar outro ritmo, com pausas e menos cobranças.
"Muitas vezes meu cĂ©rebro simplesmente desliga. Uma tarefa que eu fazia em uma hora, hoje eu faço em trĂȘs ou quatro. Eu preciso de pausa", relata.
O clima tambĂ©m passou a funcionar como alerta. Dias muito quentes podem trazer de volta os formigamentos e a fraqueza. O frio intenso causa dores profundas e rigidez. Aprender a dizer "nĂŁo" para compromissos sociais ou profissionais virou parte do cuidado, mesmo quando isso exige enfrentar a incompreensĂŁo de quem a vĂȘ aparentemente bem.

Nesse processo, a atividade fĂsica deixou de ter finalidade estĂ©tica e passou a ser parte do tratamento. Amanda começou a enxergar os treinos funcionais, a musculação e o balĂ© como aliados para lidar com a fadiga e estimular o corpo. Com acompanhamento, disciplina e ajustes na rotina, perdeu 12 quilos, reduziu o percentual de gordura e recuperou uma disposição que nĂŁo sentia havia anos.
Ainda hĂĄ medo em relação ao futuro. Amanda pensa em casamento, filhos, trabalho e sustento da casa, e sabe que a fadiga crĂŽnica precisarĂĄ ser considerada em cada plano. Ao mesmo tempo, encontra apoio em uma rede formada pelo namorado, pela famĂlia, pelos amigos, pelos profissionais de saĂșde e por Phoebe, sua cachorra.

Phoebe chegou durante a pandemia, quando Amanda enfrentava um quadro de depressão profunda. Desde então, tornou-se companhia diåria, especialmente porque ela trabalha em home office. Nos dias de maior fadiga, a presença da cachorra ajuda a atravessar a rotina com menos solidão.

Amanda tambĂ©m destaca o apoio do namorado, da famĂlia e dos amigos desde o diagnĂłstico. No tratamento, afirma ter sido acolhida pelos profissionais de saĂșde. Hoje, Ă© acompanhada pelo neurologista David Queiroz, do NĂșcleo de Neuroimunologia do Hospital FelĂcio Rocho, em Belo Horizonte. Segundo ela, o mĂ©dico conduziu o processo com cuidado, explicou cada etapa e tornou menos difĂcil atĂ© mesmo o momento de troca da medicação.
DO ISOLAMENTO Ă VOZ COLETIVA

A decisĂŁo de falar publicamente sobre a doença nasceu do contato com o desconhecimento. Amanda jĂĄ tinha experiĂȘncia com redes sociais e decidiu mostrar a vida com esclerose mĂșltipla sem esconder os dias difĂceis. Publicava a superação na academia, mas tambĂ©m as crises, as dĂșvidas, o medo e as limitaçÔes.
A ideia de criar uma comunidade surgiu quando o pai de uma conhecida recebeu o mesmo diagnĂłstico e buscou orientação. A conversa fez Amanda perceber que outras pessoas tambĂ©m precisavam de escuta e informação. Ela criou um grupo de mensagens, compartilhou o link no Instagram e publicou um relato no TikTok. O conteĂșdo circulou rapidamente.
O pequeno grupo de Belo Horizonte se transformou na comunidade nacional Esclerosados, formada por cerca de duzentas pessoas de diferentes regiĂ”es do Brasil e tambĂ©m por brasileiros que vivem no exterior. O espaço reĂșne troca de experiĂȘncias, informaçÔes sobre tratamento, acolhimento emocional e apoio para quem chega assustado ao diagnĂłstico.

O trabalho voluntĂĄrio de Amanda ganhou alcance a ponto de seu perfil pessoal ser indicado por profissionais de saĂșde em um hospital de Minas Gerais para pacientes recĂ©m-diagnosticados. Para ela, isso mostra que a informação acessĂvel pode reduzir a sensação de abandono que costuma acompanhar quem recebe o diagnĂłstico.

Olhando para a rede que se formou, Amanda resume o sentimento em gratidĂŁo. Se pudesse voltar ao leito hospitalar onde recebeu a notĂcia, diria a si mesma para manter a fĂ©, acreditar no prĂłprio potencial e nĂŁo desistir de si.
Hoje, Amanda convive com a esclerose mĂșltipla sabendo que alguns dias serĂŁo mais difĂceis do que outros. Ainda hĂĄ medo, limitaçÔes e incertezas. TambĂ©m hĂĄ famĂlia, amor, cuidado, informação e uma comunidade nascida da prĂłpria dor. Mais do que contar a prĂłpria histĂłria, ela mostra que uma doença invisĂvel nĂŁo torna invisĂvel a pessoa que a enfrenta. Por trĂĄs de cada sintoma que o outro nĂŁo vĂȘ, existe alguĂ©m que precisa ser ouvido, compreendido e acolhido.
