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Quando o corpo se torna um mistĂ©rio: a jornada de Amanda contra a esclerose mĂșltipla

Diagnósticos desencontrados, sintomas invisíveis e a criação de uma comunidade de acolhimento marcam a história de uma jovem de Belo Horizonte diante da doença


Amanda durante internação hospitalar em Belo Horizonte | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Amanda durante internação hospitalar em Belo Horizonte | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Por Giovanna Kava | AgĂȘncia Abre Aspas


O ano de 2025 começou arrastado, pesado e sem respostas para Amanda. O que muita gente via como desùnimo ou falta de força de vontade era, na verdade, o início de uma busca médica que testaria seus limites físicos e emocionais. No fim de 2024, depois de perceber os primeiros sinais de que algo não estava bem, ela decidiu fazer um check-up geral. O resultado apontou hipertireoidismo, disfunção na glùndula tireoide que acelera o metabolismo.


Sob orientação médica, Amanda passou por iodoterapia, tratamento usado para reduzir a atividade da tireoide e, em alguns casos, levar o organismo ao hipotireoidismo. A expectativa era controlar o quadro com mais estabilidade. Na pråtica, porém, ela enfrentou um hipotireoidismo severo, que afetou sua rotina e sua qualidade de vida. "Eu sentia muito os sintomas, muito cansaço, uma coisa muito ruim. Eu não conseguia viver direito", relembra.


Nos meses seguintes, ela passou por diferentes endocrinologistas. A cada consulta, uma explicação possível. A cada tentativa, uma nova frustração. Amanda ajustou a alimentação, tomou vitaminas e tentou manter atividades físicas, mas a sensação de adoecimento permanecia.

O mais difícil, segundo ela, era lidar com a desconfiança de quem não enxergava nada nos exames ou no corpo. Os sintomas, muitas vezes, eram traduzidos por outras pessoas como preguiça, falta de foco ou exagero. Aos poucos, ela passou a duvidar da própria percepção.

O AGRAVAMENTO DOS SINTOMAS


Em agosto de 2025, tentando retomar algum domĂ­nio sobre a rotina, Amanda começou a fazer balĂ©. Na mesma Ă©poca, vivia desgaste fĂ­sico e emocional. Pouco depois, surgiram sinais que ela ainda nĂŁo associava Ă  esclerose mĂșltipla. De um dia para o outro, acordou com o lado direito do corpo dormente, dor forte na nuca do lado esquerdo e visĂŁo turva no olho direito. Como havia se esforçado nas aulas, imaginou que pudesse ser uma consequĂȘncia muscular ou apenas cansaço acumulado.


Os dias seguintes mostraram que havia algo mais sério. Na quinta-feira que antecedeu uma viagem a Aparecida, Amanda viveu o que descreve como a pior noite de sua vida. Sentia uma agonia física intensa, não conseguia esticar braços e pernas e andava pela casa sem saber o que fazer. Mesmo assustada, manteve o compromisso de viajar na sexta-feira para coordenar uma excursão religiosa que organizava com a mãe.


Sob o calor da cidade paulista, os sintomas pioraram. Ao tentar andar sem sapatos, Amanda percebeu que nĂŁo sentia o impacto do chĂŁo contra os pĂ©s. Depois veio a perda de sensibilidade na regiĂŁo do abdĂŽmen, acompanhada de uma dor que ela nunca havia experimentado. No domingo, durante a volta para Belo Horizonte, o ar-condicionado do ĂŽnibus estragou. O calor no veĂ­culo agravou o mal-estar e a dormĂȘncia se espalhou pelo corpo.


Na medicina, o agravamento temporårio dos sintomas neurológicos pelo aumento da temperatura corporal é conhecido como Efeito de Uhthoff, observado em pessoas com doenças desmielinizantes. Amanda não sabia nomear aquilo naquele momento. Só sabia que o corpo jå não respondia como antes. Ao perceber o estado da filha, a mãe pediu que ela procurasse atendimento assim que chegassem em casa.


“Assim que acordei, falei para o Luís: ‘Lindo, vamos para o pronto-socorro. Meus sintomas estão muito ruins, está muito difícil’”, conta.


TRÊS DIAS NO HOSPITAL E A PAZ DE UM DIAGNÓSTICO


Amanda durante os dias de internação, quando passou por exames e iniciou o tratamento do surto | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Amanda durante os dias de internação, quando passou por exames e iniciou o tratamento do surto | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Ao dar entrada no hospital, a gravidade dos sintomas chamou a atenção da equipe mĂ©dica. A primeira suspeita envolvia condiçÔes de emergĂȘncia, como Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou infarto. Amanda foi submetida a exames de imagem e de sangue. A ressonĂąncia magnĂ©tica trouxe a resposta: havia lesĂ”es desmielinizantes no cĂ©rebro e na medula, marcas compatĂ­veis com o ataque do prĂłprio sistema imunolĂłgico Ă  bainha de mielina, estrutura que protege os neurĂŽnios e participa da transmissĂŁo dos comandos entre o cĂ©rebro e o corpo.


Embora o resultado do exame de lĂ­quor ainda demorasse alguns dias, a equipe de neurologia decidiu iniciar o tratamento. O padrĂŁo das lesĂ”es indicava que Amanda vivia um surto ativo de esclerose mĂșltipla. Para conter a inflamação e reduzir o risco de sequelas, os mĂ©dicos começaram cinco dias de pulsoterapia com corticoide injetĂĄvel, sob observação hospitalar.


A esclerose mĂșltipla Ă© uma doença neurolĂłgica crĂŽnica, autoimune e inflamatĂłria, que afeta o sistema nervoso central. Segundo informaçÔes divulgadas pelo MinistĂ©rio da SaĂșde, a maior parte das pessoas diagnosticadas estĂĄ entre 20 e 40 anos, com ocorrĂȘncia duas a trĂȘs vezes maior em mulheres do que em homens. Estimativas recentes apontam que cerca de 40 mil pessoas convivem com a doença no Brasil.


Amanda ao lado da mãe, uma das principais presenças durante o diagnóstico | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Amanda ao lado da mãe, uma das principais presenças durante o diagnóstico | Crédito da foto: Arquivo pessoal

A reação de Amanda surpreendeu familiares e equipe médica. Enquanto os pais e o namorado tentavam assimilar a notícia de uma doença crÎnica e até então desconhecida para eles, a jovem sentiu alívio. Depois de meses ouvindo que poderia estar exagerando, o diagnóstico funcionou como confirmação de que seus sintomas eram reais.


"No momento em que recebi o diagnóstico, fiquei muito tranquila, porque vi que eu não estava doida, que o problema não era eu e que eu realmente tinha uma doença", conta.

Antes da internação, Amanda jå havia pesquisado relatos de pessoas com sintomas parecidos em redes sociais e plataformas de busca. A confirmação médica não veio como surpresa, mas como resposta. Ainda no hospital, foi ela quem gravou åudios para avisar amigos e parentes, tentando acalmar quem recebia a notícia de longe.

Naquele momento, tambĂ©m entendeu que precisaria proteger a prĂłpria saĂșde mental, jĂĄ que o estresse poderia agravar seu quadro.

A VIDA REAL DA DOENÇA


O diagnĂłstico encerrou a dĂșvida, mas abriu uma rotina de adaptaçÔes. A esclerose mĂșltipla deixou marcas no corpo de Amanda, como perda leve de força, fraqueza no lado direito e uma nĂ©voa persistente na visĂŁo do olho afetado. O maior desafio, porĂ©m, estĂĄ nos sintomas que nĂŁo aparecem para quem olha de fora. A fadiga associada Ă  doença nĂŁo se confunde com um cansaço comum e nem sempre melhora com repouso. Em alguns dias, ela limita o corpo e o pensamento.


Essa nova realidade mudou sua forma de trabalhar. Como atua de maneira autÎnoma na maior parte do tempo, Amanda precisou criar outro ritmo, com pausas e menos cobranças.

"Muitas vezes meu cĂ©rebro simplesmente desliga. Uma tarefa que eu fazia em uma hora, hoje eu faço em trĂȘs ou quatro. Eu preciso de pausa", relata.

O clima tambĂ©m passou a funcionar como alerta. Dias muito quentes podem trazer de volta os formigamentos e a fraqueza. O frio intenso causa dores profundas e rigidez. Aprender a dizer "nĂŁo" para compromissos sociais ou profissionais virou parte do cuidado, mesmo quando isso exige enfrentar a incompreensĂŁo de quem a vĂȘ aparentemente bem.


A atividade física passou a fazer parte da rotina de cuidado de Amanda após o diagnóstico | Crédito da foto: Arquivo pessoal
A atividade física passou a fazer parte da rotina de cuidado de Amanda após o diagnóstico | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Nesse processo, a atividade física deixou de ter finalidade estética e passou a ser parte do tratamento. Amanda começou a enxergar os treinos funcionais, a musculação e o balé como aliados para lidar com a fadiga e estimular o corpo. Com acompanhamento, disciplina e ajustes na rotina, perdeu 12 quilos, reduziu o percentual de gordura e recuperou uma disposição que não sentia havia anos.


Ainda hĂĄ medo em relação ao futuro. Amanda pensa em casamento, filhos, trabalho e sustento da casa, e sabe que a fadiga crĂŽnica precisarĂĄ ser considerada em cada plano. Ao mesmo tempo, encontra apoio em uma rede formada pelo namorado, pela famĂ­lia, pelos amigos, pelos profissionais de saĂșde e por Phoebe, sua cachorra.


Amanda com Luís, seu namorado, e Phoebe, sua cachorra, no período de recuperação | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Amanda com Luís, seu namorado, e Phoebe, sua cachorra, no período de recuperação | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Phoebe chegou durante a pandemia, quando Amanda enfrentava um quadro de depressão profunda. Desde então, tornou-se companhia diåria, especialmente porque ela trabalha em home office. Nos dias de maior fadiga, a presença da cachorra ajuda a atravessar a rotina com menos solidão.


Amanda ao lado do pai, uma das presenças de sua rede de apoio | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Amanda ao lado do pai, uma das presenças de sua rede de apoio | Crédito da foto: Arquivo pessoal

Amanda tambĂ©m destaca o apoio do namorado, da famĂ­lia e dos amigos desde o diagnĂłstico. No tratamento, afirma ter sido acolhida pelos profissionais de saĂșde. Hoje, Ă© acompanhada pelo neurologista David Queiroz, do NĂșcleo de Neuroimunologia do Hospital FelĂ­cio Rocho, em Belo Horizonte. Segundo ela, o mĂ©dico conduziu o processo com cuidado, explicou cada etapa e tornou menos difĂ­cil atĂ© mesmo o momento de troca da medicação.


DO ISOLAMENTO À VOZ COLETIVA


O grupo Esclerosados nasceu para reunir pessoas com esclerose mĂșltipla e familiares | CrĂ©dito da foto: Arquivo pessoal
O grupo Esclerosados nasceu para reunir pessoas com esclerose mĂșltipla e familiares | CrĂ©dito da foto: Arquivo pessoal

A decisĂŁo de falar publicamente sobre a doença nasceu do contato com o desconhecimento. Amanda jĂĄ tinha experiĂȘncia com redes sociais e decidiu mostrar a vida com esclerose mĂșltipla sem esconder os dias difĂ­ceis. Publicava a superação na academia, mas tambĂ©m as crises, as dĂșvidas, o medo e as limitaçÔes.


A ideia de criar uma comunidade surgiu quando o pai de uma conhecida recebeu o mesmo diagnĂłstico e buscou orientação. A conversa fez Amanda perceber que outras pessoas tambĂ©m precisavam de escuta e informação. Ela criou um grupo de mensagens, compartilhou o link no Instagram e publicou um relato no TikTok. O conteĂșdo circulou rapidamente.


O pequeno grupo de Belo Horizonte se transformou na comunidade nacional Esclerosados, formada por cerca de duzentas pessoas de diferentes regiĂ”es do Brasil e tambĂ©m por brasileiros que vivem no exterior. O espaço reĂșne troca de experiĂȘncias, informaçÔes sobre tratamento, acolhimento emocional e apoio para quem chega assustado ao diagnĂłstico.


Mensagens no grupo mostram como a troca de informaçÔes pode ajudar pacientes no início do tratamento | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Mensagens no grupo mostram como a troca de informaçÔes pode ajudar pacientes no início do tratamento | Crédito da foto: Arquivo pessoal

O trabalho voluntĂĄrio de Amanda ganhou alcance a ponto de seu perfil pessoal ser indicado por profissionais de saĂșde em um hospital de Minas Gerais para pacientes recĂ©m-diagnosticados. Para ela, isso mostra que a informação acessĂ­vel pode reduzir a sensação de abandono que costuma acompanhar quem recebe o diagnĂłstico.


Amanda transformou a experiĂȘncia com a doença em um caminho de acolhimento para outras pessoas | CrĂ©dito da foto: Arquivo pessoal
Amanda transformou a experiĂȘncia com a doença em um caminho de acolhimento para outras pessoas | CrĂ©dito da foto: Arquivo pessoal

Olhando para a rede que se formou, Amanda resume o sentimento em gratidão. Se pudesse voltar ao leito hospitalar onde recebeu a notícia, diria a si mesma para manter a fé, acreditar no próprio potencial e não desistir de si.

Hoje, Amanda convive com a esclerose mĂșltipla sabendo que alguns dias serĂŁo mais difĂ­ceis do que outros. Ainda hĂĄ medo, limitaçÔes e incertezas. TambĂ©m hĂĄ famĂ­lia, amor, cuidado, informação e uma comunidade nascida da prĂłpria dor. Mais do que contar a prĂłpria histĂłria, ela mostra que uma doença invisĂ­vel nĂŁo torna invisĂ­vel a pessoa que a enfrenta. Por trĂĄs de cada sintoma que o outro nĂŁo vĂȘ, existe alguĂ©m que precisa ser ouvido, compreendido e acolhido.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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