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O legado complicado de Gossip Girl

Série transforma privilégios em espetáculo, romantiza relações tóxicas e ainda ocupa lugar no imaginário pop dos anos 2000


Entre escândalos, romances e privilégios, os personagens de Gossip Girl marcaram uma geração e ajudaram a construir uma das séries teen mais lembradas dos anos 2000 | Foto: Divulgação/The CW 
Entre escândalos, romances e privilégios, os personagens de Gossip Girl marcaram uma geração e ajudaram a construir uma das séries teen mais lembradas dos anos 2000 | Foto: Divulgação/The CW 

Por Jamile Milzarek | Agência Abre Aspas


Existe um tipo específico de série que se assiste sabendo exatamente o que está em jogo. Gossip Girl é uma delas. Você dá play, se acomoda no sofá e embarca em uma Nova York que nunca existiu de verdade, habitada por adolescentes milionários cujos maiores problemas envolvem festas, escândalos e a destruição calculada da reputação alheia. A questão é que, por trás do entretenimento irresistível, existe uma série que ajudou a formar imaginários sobre poder, status e relacionamentos de modos que hoje pedem revisão crítica.


Lançada em 2007 pela The CW e baseada nos romances de Cecily von Ziegesar, Gossip Girl acompanha a elite do Upper East Side, em Manhattan, sob o olhar constante de uma blogueira anônima conhecida apenas como Gossip Girl, com narração de Kristen Bell. No centro da trama estão Serena van der Woodsen (Blake Lively), Blair Waldorf (Leighton Meester), Chuck Bass (Ed Westwick), Nate Archibald (Chace Crawford) e Dan Humphrey (Penn Badgley), personagens que representam diferentes posições dentro do privilégio nova-iorquino. Ao longo de seis temporadas e 121 episódios, a produção se tornou um fenômeno teen de grande circulação na televisão.


O sucesso não aconteceu por acaso. Gossip Girl sabe o que vende e executa essa proposta com eficiência. Cada episódio apresenta novos segredos, alianças desfeitas, conflitos e reviravoltas. A narrativa avança em ritmo acelerado e transforma a maratona em uma experiência difícil de interromper. Quando o espectador percebe, já assistiu vários episódios seguidos e está envolvido naquela dinâmica de intrigas e disputas sociais.

Mas basta diminuir o ritmo para que alguns incômodos apareçam.


Chuck Bass é apresentado nos primeiros episódios como um personagem marcado por atitudes graves, incluindo uma tentativa de agressão sexual que rapidamente perde espaço na narrativa. Pouco tempo depois, o roteiro decide transformá-lo em protagonista romântico. A relação entre Chuck e Blair passa então a ser tratada como um grande amor épico, embora frequentemente seja marcada por manipulação, jogos de poder e chantagem emocional. A série raramente questiona essas dinâmicas e, muitas vezes, parece romantizá-las.


Blair Waldorf é a personagem mais bem construída da série. Inteligente, ambiciosa e estratégica, ela tem potencial para desenvolver uma trajetória própria e memorável. No entanto, grande parte de sua jornada acaba subordinada aos relacionamentos amorosos que definem seus conflitos ao longo das seis temporadas.


Os personagens que não pertencem ao núcleo privilegiado também recebem tratamento narrativo desigual. Jenny Humphrey surge como uma das figuras mais interessantes da trama: uma garota do Brooklyn tentando conquistar espaço em um universo que não foi feito para ela. Com o passar do tempo, porém, sua trajetória perde força e a personagem passa a funcionar como peça para produzir conflitos entre os protagonistas. O mesmo acontece com Vanessa Abrams, uma das poucas vozes alternativas dentro da série, gradualmente afastada da narrativa até desaparecer quase por completo.


O efeito é claro, mesmo quando a série não o declara: quem não pertence ao Upper East Side só ganha relevância quando serve aos interesses daquele universo.


Visualmente, Gossip Girl ainda sustenta parte de sua força. O trabalho de figurino de Eric Daman criou uma identidade estética que se tornou uma das marcas da produção. Blair, com seus laços, casacos estruturados e referências a Audrey Hepburn; Serena, com vestidos glamorosos e visual aparentemente despretensioso; Chuck, com ternos extravagantes e acessórios improváveis. Tudo contribui para a construção de uma fantasia de luxo, desejo e pertencimento.


A influência da série na moda foi forte e continua sendo discutida mais de uma década após seu encerramento. Talvez esteja aí uma das razões de sua permanência. A estética funciona como uma espécie de distração permanente. Enquanto o espectador admira roupas, festas e cenários luxuosos, fica mais fácil ignorar os problemas presentes naquele universo.


O encerramento da série, exibido em 2012, não alcança a força de suas melhores temporadas. A reta final é apressada, algumas resoluções parecem convenientes demais e a revelação da identidade de Gossip Girl gera mais questionamentos do que satisfação. É um desfecho que não acompanha a ambição que a série construiu ao longo dos anos.


Em 2021, a HBO Max tentou reviver a marca com um reboot que prometia maior diversidade, atualização para a era das redes sociais e uma abordagem mais contemporânea. A nova versão, porém, foi cancelada após duas temporadas. O cancelamento ajudou a confirmar uma percepção compartilhada por muitos fãs: Gossip Girl dependia menos de sua premissa isolada e mais de uma combinação específica de tempo, elenco, estética e irreverência difícil de reproduzir.


A tentativa de modernização tornou a série mais preocupada em responder às cobranças do presente, porém menos provocativa e menos memorável.


Hoje, com todas as temporadas novamente disponíveis na Netflix, Gossip Girl continua encontrando novas gerações de espectadores. Isso faz sentido. A série permanece divertida, envolvente e eficiente naquilo que se propõe a fazer. Ao mesmo tempo, oferece uma boa oportunidade para revisar padrões narrativos aceitos nos anos 2000 e hoje vistos com mais estranhamento.


Gossip Girl permanece porque sabe vender sua própria fantasia, construída sobre riqueza, poder, glamour e relações intensas. O que torna a série relevante quase vinte anos depois é a possibilidade de olhá-la com distância crítica, sem ignorar o prazer que ainda produz.


Ela continua irresistível. E talvez seja nessa contradição que more sua crítica mais forte.

 




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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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