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O amor que se multiplica: a jornada de Débora e Bia até Helena

Casal formado por duas mulheres constrói a própria maternidade e compartilha a chegada da filha nas redes


Débora e Bia oficializam união em cerimônia à beira-mar, etapa que marcou o início da jornada construída pelas duas | Crédito da foto: Lauro Maeda
Débora e Bia oficializam união em cerimônia à beira-mar, etapa que marcou o início da jornada construída pelas duas | Crédito da foto: Lauro Maeda

Por Heloyse Anjos | Agência Abre Aspas


Quando Helena nasceu, o projeto de vida que Débora Nataly e Bia Hertzing vinham construindo deixou de ser apenas sonho, espera e tratamento médico. Passou a caber no colo das duas, nos primeiros sons da filha, no cuidado dividido e na rotina que mudou a casa. Para quem acompanha o casal pelas redes sociais, a cena parece simples: duas mães com uma bebê nos braços. Para elas, porém, cada imagem guarda um caminho feito de amizade, escolha, paciência e desejo de formar família.


Débora e Bia são influenciadoras digitais e compartilham parte da rotina com milhares de pessoas. Nas telas, a maternidade aparece em cenas de afeto, registros de Helena e relatos sobre a vida em família. Antes da chegada da filha, no entanto, houve uma história anterior, construída sem pressa. As duas foram amigas durante três anos antes de assumirem o relacionamento. “Esse tempo foi muito importante porque nos permitiu criar uma amizade sólida, baseada em confiança, carinho e admiração”, relembram.


A passagem da amizade para o amor aconteceu aos poucos, quando os planos começaram a apontar para a mesma direção. “Entendemos que queríamos construir uma vida juntas quando vimos que os nossos sonhos, planos e valores caminhavam na mesma direção e que éramos mais felizes compartilhando tudo lado a lado”, contam.


REDE DE APOIO


Em um país onde casais formados por pessoas LGBTQIAPN+ (sigla usada para se referir a lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, pessoas não binárias e outras identidades de gênero e orientações sexuais representadas pelo sinal de mais) ainda enfrentam hostilidade, Débora e Bia reconhecem que a trajetória delas teve um componente importante: o acolhimento das pessoas próximas. “Olhando para a nossa história, não sentimos que o preconceito tenha sido algo marcante na nossa relação. Talvez porque sempre escolhemos focar na nossa família e na nossa felicidade, sem dar tanto peso à opinião dos outros”, afirmam.


O apoio recebido de familiares, amigos e dos ambientes que frequentam ajudou a tornar a caminhada mais leve. Elas sabem, porém, que essa não é a realidade de todas as famílias. “Tivemos a sorte de sermos muito respeitadas pelos nossos familiares, amigos e pelas pessoas dos ambientes que frequentamos. Isso fez com que a nossa caminhada fosse leve e cercada de apoio”, dizem.


A convivência também ensinou que a construção de uma família não se sustenta apenas no sentimento. Ela passa por diálogo, respeito e presença no cotidiano. “Aprendemos que o diálogo é fundamental, que o respeito precisa estar presente em todos os momentos e que o amor é uma escolha diária”, resumem.


A REALIDADE E O AMPARO LEGAL


A experiência acolhedora vivida por Débora e Bia contrasta com dados nacionais sobre violência e discriminação contra a população LGBTQIAPN+. Segundo a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), cerca de 20 milhões de pessoas no Brasil se identificam como LGBTQIAPN+. Apesar da presença expressiva na sociedade, essa população ainda convive com vulnerabilidades, medo e violências motivadas por orientação sexual ou identidade de gênero.


Levantamento da organização Gênero e Número, com apoio da Fundação Ford, apontou que parte dos entrevistados relatou aumento da violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no período da eleição presidencial de 2018. O mesmo levantamento indicou que a violência verbal aparece entre as formas mais recorrentes de agressão, embora também haja registros de violência física.


No campo jurídico, desde 2019, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), atos de homofobia e transfobia passaram a ser enquadrados na Lei de Racismo (Lei nº 7.716/1989) até que o Congresso aprove legislação específica. A proteção legal, no entanto, não elimina sozinha as barreiras enfrentadas por quem precisa existir publicamente, amar, formar família e ocupar espaços sem pedir autorização social.


SAÚDE MENTAL


Para a psicóloga Vitória Maria Siqueira, que atua com demandas da comunidade LGBTQIAPN+, o preconceito não atinge todos da mesma maneira. Cada pessoa e cada casal lidam com a violência externa a partir de sua história, de sua rede de apoio e de seus recursos emocionais. “A primeira coisa a ser feita é uma análise de como o seu parceiro reage a esse preconceito, como ele é afetado, como você é afetado, e entender as formas de acolhimento com o outro depois de ter o acolhimento consigo próprio”, orienta.


Vitória também lembra que fortalecer-se não significa negar a dor. “Às vezes a gente acha que tem que estar sempre com a cabeça erguida, mas a gente perpassa pela tristeza, pela raiva, pela indignação, pelo ódio. Isso não significa que a gente é esse sentimento, e a gente é o que a gente faz com isso”, explica.


Na avaliação da psicóloga, a existência de um casal homoafetivo também pode carregar uma dimensão política quando desafia a ideia de que só há uma forma legítima de amar e constituir família. “A melhor estratégia para um casal lidar com preconceito é continuar forte, continuar existindo. É se acolher, se ouvir, se revoltar. Amar é o ato político mais forte contra o preconceito”, afirma.


A BASE PARA EXISTIR


O acolhimento familiar e social, segundo Vitória, interfere diretamente na saúde mental. Quando a casa, que deveria ser abrigo, se torna um espaço de rejeição, o sofrimento tende a se prolongar. “Eu costumo dizer que a gente não consegue curar ninguém se essa pessoa está no ambiente que adoece. Quando a gente fala de casais homoafetivos e do contato com as famílias, a gente geralmente está falando do lar, da base daquela pessoa, onde a gente volta no final da noite. Quando esse lar é adoecido, a pessoa vai adoecendo com o tempo”, analisa.


Para ela, o apoio da família e o apoio social cumprem papéis diferentes. Um ajuda a dar estrutura para que a pessoa cresça; o outro permite que ela siga ocupando a vida pública com menos medo. “O apoio familiar te dá base para existir. O social te dá base para continuar existindo”, conclui.

O CAMINHO DA FERTILIZAÇÃO


Com o relacionamento consolidado, Débora e Bia decidiram ampliar a família por meio da Fertilização In Vitro (FIV). Para casais de mulheres, a medicina reprodutiva permite diferentes caminhos, entre eles a chamada gravidez compartilhada, quando uma das parceiras fornece os óvulos e a outra conduz a gestação. O procedimento envolve indução da ovulação, coleta dos óvulos, fecundação em laboratório com espermatozoides de doador anônimo e transferência do embrião para o útero.


Para Débora e Bia, a espera exigiu confiança. O processo não depende apenas do desejo de ser mãe, mas de etapas médicas, exames, expectativas e tempo. “Foi um processo que exigiu muita paciência, esperança e confiança, porque nem sempre as coisas acontecem no tempo que desejamos. Houve momentos de ansiedade e expectativa, mas nunca deixamos de acreditar que a nossa filha chegaria”, relatam.


A chegada de Helena deu sentido a cada etapa. “Sem dúvida, a chegada da Helena resume nossa história. Foi o momento em que vimos um sonho muito grande se tornar realidade. Ela representa todo o amor, a parceria, a dedicação e a força que construímos ao longo dos anos”, dizem.


O primeiro registro com Helena no hospital marca a concretização do sonho da maternidade para Débora e Bia | Crédito da foto: Bruna Costa
O primeiro registro com Helena no hospital marca a concretização do sonho da maternidade para Débora e Bia | Crédito da foto: Bruna Costa

HELENA E O FUTURO


Ainda bebê de colo, Helena já reorganizou as prioridades do casal. A rotina passou a girar em torno dos horários da filha, das descobertas pequenas e da responsabilidade de criar uma criança em uma casa onde o afeto precisa vir acompanhado de liberdade. “A Helena trouxe ainda mais amor, união e propósito para as nossas vidas. Ela nos ensinou uma nova forma de amar e nos mostrou que família é construída todos os dias através do cuidado, do respeito e da presença. Hoje enxergamos a família com ainda mais gratidão e responsabilidade”, afirmam.


Para o futuro, Débora e Bia desejam que Helena cresça sabendo que o amor pode existir de muitas formas. “Gostaríamos que ela aprendesse que o amor pode se manifestar de diferentes formas e que todas elas merecem respeito. Queremos que ela cresça sabendo valorizar as pessoas pelo que elas são, com empatia, respeito às diferenças e liberdade para ser quem deseja ser”, projetam.

Os planos também incluem acompanhar cada fase da filha e, um dia, ampliar a família. “Sonhamos em vê-la crescer ao lado de um irmão ou irmã, ampliando ainda mais a família que construímos com tanto carinho. Acima de tudo, desejamos continuar realizando sonhos lado a lado”, contam.


Para outros casais que desejam trilhar um caminho parecido, Débora e Bia deixam uma mensagem que combina cuidado e coragem. “Diríamos para não desistirem dos seus sonhos por causa do medo. Os desafios existem, mas o amor, a determinação e a vontade de construir uma família podem ser maiores do que qualquer obstáculo. Cada família tem sua própria história, e todas merecem ser vividas com orgulho e felicidade”.


No primeiro registro com Helena no hospital, não há tese sobre família, legislação ou preconceito. Há duas mães sorrindo com a filha entre elas. Talvez seja essa a força da história de Débora e Bia:

antes de qualquer debate público, existe uma criança sendo amada, uma casa sendo construída e uma família que encontrou seu próprio modo de chegar até aqui.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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