A quem é permitido pisar na grama?
- Juan Karlo Pagno

- há 3 dias
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Enquanto a FIFA vende o Mundial como celebração global, profissionais e fãs de alguns países descobrem que nem todos atravessam os mesmos portões

Por Juan Pagno | Agência Abre Aspas
A Copa do Mundo adora contar uma história sobre si mesma. A cada quatro anos, dirigentes, patrocinadores e transmissões repetem o mesmo roteiro: o futebol une povos, derruba fronteiras e cria uma linguagem universal capaz de aproximar culturas, religiões e nacionalidades. É uma narrativa bonita, bonita até demais.
A competição acontece em um momento que expõe as rachaduras desse discurso com uma clareza difícil de ignorar. Enquanto a FIFA vende a imagem de uma celebração global, guerras seguem em curso, fronteiras permanecem fechadas para determinadas nacionalidades e conflitos internacionais acompanham atletas, árbitros e torcedores até a porta dos estádios.
A verdade é que o futebol nunca esteve acima da política, da história ou das relações de poder. A diferença é que, desta vez, ficou mais difícil fingir o contrário.
As barreiras que cercam esta Copa não são metafóricas. Elas existem em aeroportos, consulados e postos de imigração. O árbitro somali Omar Artan, selecionado para atuar em competições ligadas ao calendário internacional da FIFA, teve sua entrada nos Estados Unidos negada em razão das restrições migratórias impostas a cidadãos de determinados países. O episódio levantou uma questão constrangedora para um torneio que se apresenta como universal: como alguém pode participar de uma Copa do Mundo sem conseguir entrar no país onde ela acontece?
A situação não se restringe aos árbitros. Integrantes da delegação iraniana enfrentaram dificuldades relacionadas a vistos e a deslocamentos justamente quando as tensões entre Teerã e Washington voltavam a ocupar o centro do debate internacional. Mais uma vez, o passaporte parecia pesar tanto quanto a capacidade esportiva. Para alguns participantes, a partida começava muito antes do apito inicial.
Mas as barreiras da Copa não terminam nas fronteiras: também aparecem nas arquibancadas, nas redes sociais e no tratamento dispensado a determinados atletas. Jogadores africanos continuam sendo alvos frequentes de ataques racistas. Atletas asiáticos e oriundos do Oriente Médio frequentemente carregam estereótipos políticos e culturais que raramente acompanham seus colegas europeus ou norte-americanos. Em um torneio que se vende como símbolo da diversidade, algumas identidades ainda precisam provar constantemente que fazem parte do espetáculo.
E então surge a pergunta: quem decide tudo isso?
Ao longo dos anos, a FIFA construiu sua imagem sobre um discurso recorrente de neutralidade. Sempre que confrontada com guerras, violações de direitos humanos ou tensões diplomáticas, a entidade costuma afirmar que o futebol deve permanecer separado da política. É uma posição confortável e quase nunca questionada. O problema é que ela raramente parece ser aplicada de maneira uniforme.
A exclusão da Rússia das competições internacionais após a invasão da Ucrânia demonstrou que o futebol é perfeitamente capaz de tomar decisões políticas quando considera necessário. A medida foi apresentada como uma resposta moral a um conflito internacional. No entanto, diante de outros conflitos, ataques militares e crises humanitárias, a mesma disposição para agir nem sempre se manifesta com a mesma intensidade. A questão é entender por que critérios aparentemente tão claros em um caso se tornam nebulosos em tantos outros.
Não se trata de defender que a FIFA assuma o papel de tribunal do mundo. O problema é que, quando a neutralidade aparece apenas em alguns momentos e desaparece em outros, ela deixa de parecer um princípio e passa a parecer uma conveniência, em um cenário no qual alguns grupos podem tomar certas decisões e outros não.
Talvez essa seja a principal contradição da Copa de 2026. O torneio que se apresenta como símbolo da integração global acontece em um mundo cada vez mais marcado por fronteiras, suspeitas e disputas de poder. E, em vez de confrontar essa realidade, o futebol frequentemente prefere escondê-la atrás de slogans sobre união, inclusão e diversidade.
Mas slogans não concedem vistos. Campanhas publicitárias não derrubam barreiras migratórias. Discursos sobre fraternidade não impedem ataques racistas nem eliminam preconceitos históricos.
A Copa continuará sendo o maior espetáculo esportivo do planeta e seguirá reunindo bilhões de pessoas diante das telas, produzindo momentos capazes de atravessar gerações. O que está em discussão não é a grandeza do torneio, mas a honestidade do discurso que o sustenta.
Se o futebol realmente pertence a todos, não deveria haver dúvidas sobre quem pode participar dele. Se essas dúvidas continuam existindo, talvez seja hora de admitir que ainda há placas de proibição espalhadas ao redor do gramado.
Elas não aparecem nas transmissões oficiais. Não são exibidas nos telões dos estádios. Seus efeitos, porém, são visíveis. A Copa do Mundo gosta de se apresentar como a festa de todos os povos. Em 2026, ela também se tornou um lembrete de que alguns convidados continuam encontrando a porta fechada.
E isso nos obriga a voltar à pergunta inicial.
A quem é permitido pisar na grama?


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