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O amor que partiu deixou outro para ficar

História de Magda Aparecida da Silva: um amor interrompido, uma filha esperada e a coragem de renascer em meio ao luto


Com o retrato nas mãos, Magda relembra os momentos vividos, que agora são eternizados na memória.  | Crédito da foto: Eduarda Goes
Com o retrato nas mãos, Magda relembra os momentos vividos, que agora são eternizados na memória. | Crédito da foto: Eduarda Goes

Por Eduarda Goes | Agência Abre Aspas


Sentada em uma cadeira ao lado do caixão, Magda chorava sem parar. Aos cinco meses de gestação, ela se despedia de Claudinei, o Nei, como todos o chamavam. Foram 15 anos juntos e o sonho que ela mesma descreve como o maior de todos: ter uma filha. A gravidez havia chegado depois de anos tentando. O acidente, em uma quinta-feira comum, não avisou.


O luto e a maternidade se cruzaram. "Foi o momento mais feliz da minha vida, mas ao mesmo tempo o mais triste", ela conta. Magda precisava seguir, por ela e pela filha que ainda viria.

VIDA A DOIS


O casal se conheceu ainda muito jovem e, após cinco anos de namoro, casou-se em 1996. Ela tinha 24 anos, ele 26. Juntos, abriram um lava-rápido no bairro Guarujá, em Cascavel, onde viviam. Apesar da rotina intensa de trabalho, Magda nunca deixou de sonhar em ser cabeleireira e manicure, uma paixão que já cultivava nas horas vagas.


Durante anos, o casal tentou ter uma filha. Fizeram exames, consultaram médicos e a esperança foi diminuindo. A notícia da gravidez chegou de surpresa, quando já não esperavam mais. "A família inteira ficou feliz, era algo muito aguardado por todos", conta Magda. Com a mudança que se aproximava, Nei aceitou uma proposta para trabalhar como motorista de uma empresa de temperos. Fecharam o lava-rápido. Ela foi trabalhar em um salão, fazendo unhas. Nei viajava para cidades vizinhas entregando condimentos, sempre por no máximo dois dias. "Eu sempre pedia pra ele se cuidar. Sempre. Aquelas viagens me deixavam inquieta, mas eu nunca imaginei que um dia ele não voltaria”.


O ÚLTIMO DIA


Em uma quinta-feira comum, no dia 19 de maio de 2005, Nei veio almoçar em casa. Magda preparou um almoço e uma gelatina, a sobremesa favorita dele. Antes de partir para mais uma viagem, ele sorriu e disse que comeria a gelatina assim que chegasse, com calma, sem pressa. Ela foi até o portão, como sempre fazia, pediu que se cuidasse, que não esquecesse o cinto e que fosse com Deus, como sempre dizia.


"Quando ele dobrou a esquina, eu senti um aperto aqui no peito. Semanas antes eu vinha sonhando com acidente. Mas a gente nunca acredita que pode ser com a gente, né?".

A noite chegou chuvosa. Uma ligação de Nei, da cidade de Laranjeiras, foi interrompida abruptamente. Eles não conseguiram se despedir, como faziam todas as noites antes de dormir.

O ANÚNCIO

Na manhã seguinte, uma antiga colega do salão ligou com uma pergunta estranha e nervosa: onde o cunhado de Magda trabalhava? A pergunta ficou martelando. Minutos depois, a mesma mulher ligou novamente pedindo que ela fosse ao salão, pois uma cliente queria ser atendida exclusivamente por ela. Ao chegar, o ambiente estava vazio. Não havia cliente nenhuma. Duas colegas de trabalho de Nei se sentaram ao seu lado e anunciaram que ele havia sofrido um acidente em Laranjeiras. O chefe da empresa e o cunhado já haviam ido até lá.


As pessoas foram chegando. A mãe, amigas, conhecidas. Magda tentava se convencer de que era exagero, que logo tudo se resolveria. Ao chegar à casa da mãe, todos os irmãos estavam lá, em plena sexta-feira, dia útil. Ninguém falava.

Sua irmã Marlei a levou a um consultório. Já a sós com a médica, ouviu: "Magda, você precisa ser forte agora. Porque agora é só você e o seu neném." Quando Marlei entrou na sala, Magda perguntou:


"O Nei morreu?".


Marlei confirmou com os olhos cheios de lágrimas.


"Eu lembro que comecei a chorar, mas ao mesmo tempo eu não acreditava. Era como se eu tivesse dentro de um sonho ruim esperando acordar. Só que eu não acordei."


Ao voltar para a casa da mãe, o telefone tocou. Era o senhor Heraldo, pai de Claudinei, pedindo que Magda fosse até lá para contar a dona Nair, mãe de Nei, o que havia acontecido. Ninguém tinha coragem suficiente para dar a notícia. Sabiam que Magda, apesar da própria dor, era a única que encontraria as palavras. A relação entre ela e a sogra sempre foi próxima, cheia de carinho e respeito. Ela enxugou as lágrimas e foi. Ao chegar, encontrou dona Nair deitada no sofá. Sentou-se ao lado dela, segurou suas mãos e disse:


"O Nei faleceu".


O silêncio durou poucos segundos. Então, as duas desabaram juntas.


DESPEDIDA


O corpo de Nei chegou ainda naquela tarde. Era difícil acreditar que aquele homem que fazia todos ao redor rirem estava ali, imóvel, vestido de terno e gravata, tão diferente do que era no cotidiano. Nei não gostava de roupas formais, nunca se sentia confortável nelas.


Sentou-se ao lado do caixão e dali não saiu. Não queria comer, não queria beber água. As irmãs se revezavam ao seu lado, tentando convencê-la a se alimentar, por ela e pela filha que carregava.


"Eu ficava olhando pra ele e pensando: como que eu vou criar essa criança sozinha? Como que eu vou contar pra ela sobre o pai, sendo que ela nunca vai conhecer ele?", conta Magda.


O dia 20 de maio nunca mais seria apenas uma data. Para Magda, aquele se tornaria o marco de uma vida dividida em antes e depois.


SOZINHA


No dia seguinte, o enterro. Ao voltar para casa, tudo estava como antes. Menos ela. As roupas de Nei ainda estavam no guarda-roupa, dobradas. Na penteadeira, o perfume favorito dele, o "Sintonia", ainda estava cheio.


"Eu pegava as roupas dele e ficava abraçada, chorando. Todas as noites. Como se eu pudesse, de algum jeito, trazer ele de volta. A cama parecia enorme e o silêncio era constante”.


Em meio ao luto, chegou a se perguntar por que ele não a havia levado também. Viver sem ele parecia, naquele momento, impossível.


Foi sua amiga Meiridiane quem a impediu de se perder. Passou a visitá-la todos os dias, encontrando-a quase sempre da mesma forma: sentada, em prantos. Com cuidado, reorganizou o espaço: mudou os móveis, guardou os porta-retratos, separou as roupas para doação. Não para apagar a memória de Nei, mas para devolver a Magda fôlego para viver. O perfume ficou com o pai dela, o senhor José. Sempre que ele o usava, as lembranças de Claudinei voltavam.


RECOMEÇO


Com a barriga crescendo, Magda foi encontrando razões para continuar. Cuidava da gravidez com atenção. Em uma das noites mais pesadas, saiu para caminhar pelas ruas quase desertas do bairro, sem destino certo. Os passos a levaram até uma pequena igreja católica, onde um encontro religioso acontecia. Ela entrou, sentou-se no fundo, em silêncio.


Um homem que ela nunca havia visto antes se aproximou e disse que tudo o que ela estava passando iria acabar, que Deus tinha um propósito para a vida dela.

"Eu não sei explicar o que eu senti naquele momento. Parecia que alguém havia me colocado a mão no ombro e dito: você não está sozinha. Chorei muito. Mas foi um choro diferente, sabe? De alívio”.


Com o apoio da família e de amigos, Magda foi se reerguendo. Buscou seus direitos e, com muita luta, conseguiu comprar uma casa simples, de três cômodos. Organizou o enxoval, planejou cada detalhe para receber a filha que estava por vir.


No dia 5 de outubro de 2005, a filha de Magda e Nei veio ao mundo. Os traços do rosto eram os do pai. Enquanto outras mães eram acompanhadas pelos companheiros, Magda se virou para a parede e engoliu o choro. Mas encontrou, ali, um motivo concreto para seguir.

PRESENÇA


O tempo passou. A filha cresceu feliz e saudável. Houve dias em que a dor apertava mais, mas a vida continuou sendo construída.
Vinte anos depois, Magda olha para trás com orgulho da mulher que se tornou. A dor foi diminuindo aos poucos. Mas a lembrança de Nei ainda aparece, especialmente quando olha para a filha. Nos traços dela, ele ainda está presente.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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