“Mães entre aspas”: crônicas sobre formas de maternar
- Alcemar, Giovanna, Juan, Karol e Rayssa

- há 5 dias
- 33 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Uma coletânea sobre mães que trabalham, faltam, riem, temem, resistem e continuam

O Dia das Mães comparece todos os anos com flores na mão, anúncio no bolso e uma emoção que já vem treinada. Bate à porta, sorri, pede licença e, antes que a gente perceba, já está dizendo o que uma mãe deve ser. Serena, inteira, disponível, agradecida. Uma criatura sem ônibus atrasado, sem conta vencida, sem noite maldormida, sem vontade de sumir por meia hora.
O Abre Aspas prefere desconfiar um pouco dessa mãe tão “arrumada”. Não para negar o afeto, que existe e insiste, mesmo quando a vida aperta. Também não para diminuir a celebração. O que se procura aqui é outra entrada: a das maternidades vistas de perto, com suas presenças e ausências, seus medos, culpas, redes, risos, tarefas, escolhas, improvisos e modos de continuar.
Cada crônica começou em uma entrevista. Antes da escrita, houve conversa, apuração, observação de cena, atenção ao cotidiano e autorização da fonte. A proposta não é transformar mulheres em exemplo, nem em personagens de sofrimento. Mãe não precisa virar “santa” para merecer uma página. Também não precisa sangrar em público para que sua história seja lida com respeito.
As páginas reunidas nesta coletânea se aproximam da vida comum, onde quase tudo acontece sem aplauso. A comida que esfria. O filho que chama. A mensagem que chega tarde. A lembrança que aperta no meio da noite. A casa que pede. O trabalho que espera. O corpo que cansa. O riso que aparece, meio torto, e salva alguma coisa.
“Mães entre aspas” tem esse nome porque nenhuma maternidade cabe inteira em uma palavra só. As aspas não protegem, interrogam. Lembram que “mãe” é palavra atravessada por histórias, trabalho, desigualdades, afetos, contradições e condições de vida. Aqui, ela aparece em movimento, na fala de mulheres que maternam de formas diferentes, em lugares diferentes, com os recursos possíveis.
Nas crônicas a seguir, o Dia das Mães deixa de ser uma data cercada por discursos previsíveis e se torna ocasião para ouvir com mais demora. Os textos foram escritos por estudantes de jornalismo e por seu professor, reunidos no mesmo exercício de olhar para além da homenagem esperada e buscar, na vida cotidiana, matéria de escrita. Talvez seja este o gesto mais justo: escrever sobre mães sem encerrá-las numa moldura, homenagear sem idealizar, narrar sem reduzir.
Abram-se às crônicas.
A casa que ainda espera

Maria Lourdes é mãe-casa: aquela que gesta, cria, acolhe, educa, alimenta, espera e deixa partir | Crédito da foto: Rick Batista
Por Alcemar Araujo | Agência Abre Aspas
Tem casas que continuam criando filhos mesmo depois que as crianças vão embora. A de Maria Lourdes é assim. O portão já não bate toda tarde no mesmo horário. A mochila já não cai no sofá. O chinelo pequeno já não aparece no meio da sala. Não há mais caderno esquecido na mesa, nem uniforme secando perto do fogão, nem voz chamando “vó” de um jeito que, na verdade, queria dizer “mãe”.
Mesmo assim, a casa ainda espera. Espera porque há coisas que o corpo aprende e depois não desaprende. Maria Lourdes ainda escuta melhor do que todos. Se alguém chega, ela sabe pelo portão. Se alguém mente, ela sabe pelo jeito de olhar. Se alguém está triste, ela pergunta se já comeu, porque na língua dela afeto quase sempre começa pela cozinha.
“Você já almoçou?”. A pergunta parece pequena. Não é. Dentro dela cabe uma vida inteira.
Antes dos netos, vieram os filhos. Quatro. Três homens e uma mulher. Maria Lourdes criou todos sem chamar aquilo de missão, sem transformar cansaço em discurso, sem esperar que alguém aplaudisse a roupa lavada, a comida pronta, a febre vigiada, o medo engolido.
Na casa dela, amor nunca precisou se anunciar. Ele fazia arroz, feijão e virado de biju com ovo.
“Come antes que esfrie”. “Leva blusa”. “Não fala comigo desse jeito”. “Você vai ver na hora do banho”. “Depois você me conta direito”.
Era assim que ela cuidava. Com frase curta, mão ocupada e atenção em tudo. Maria Lourdes sempre pareceu saber onde estava cada coisa. O documento, o remédio, a toalha, o dinheiro miúdo, a dor de cada filho.
Quando os filhos cresceram, talvez a casa pudesse ter descansado. Talvez ela pudesse ter sido só avó, dessas que entregam bala escondida, deixam a criança dormir um pouco mais tarde e devolvem depois do almoço.
Mas nem sempre a vida devolve. Primeiro veio a menina: recém-nascida, pequena demais para saber que estava mudando o destino de uma casa. Chegou com cheiro de leite, choro de madrugada e um corpo que dependia de outro corpo para tudo. Maria Lourdes abriu espaço onde já parecia não caber mais nada.
A menina passou a dormir naquela casa. A mamar. A chorar. A engatinhar. A dar os primeiros passos. A aprender que casa também pode ser colo, regra, bronca e prato servido.
“Volta aqui, agora”. A menina, travessa, conhecia o mapa da fuga. Depois das estripulias, sentava no cantinho do muro e observava a avó de longe. Ao menor sinal de Maria Lourdes se aproximando, pulava o murinho e corria para a casa da vizinha, dona Nice, que em muitos momentos foi apoio, abrigo e respiro.
Ali, a menina ficava até os ânimos baixarem. Talvez comesse alguma coisa, talvez escutasse um “fica quietinha um pouco”, talvez só esperasse o tempo fazer aquilo que o tempo faz quando a infância apronta e o amor precisa esfriar a voz.
Depois, voltava. E Maria Lourdes, que já tinha passado da raiva para o cuidado, insistia:
“Você acha que eu estou falando por quê?”. Falava porque sabia. Porque já tinha criado quatro. Porque conhecia o mundo do lado de fora e o lado de dentro das crianças. Porque criança, quando não sabe dizer que precisa de cuidado, faz bagunça, responde, chora por outra coisa, finge que não liga.
Anos depois, veio o menino. Também recém-nascido. Mais uma vez, a casa precisou crescer. Vieram as fraldas, as mamadeiras, as noites partidas, os banhos dados com cuidado, a febre medida com a mão na testa, o sono leve de quem escuta qualquer movimento no berço.
Depois vieram os brinquedos, o joelho ralado, a fome fora de hora, as perguntas, a pressa, aquele jeito de menino que acha que tudo se resolve correndo.
“Vai devagar”. Ele não ia. “Vai cair”. Caía. Maria Lourdes lavava o machucado, passava remédio e brigava enquanto cuidava. “Eu falei”. E a frase, que parecia bronca, era quase um abraço disfarçado.
Assim, Maria Lourdes assumiu outra vez o lugar de mãe. Sem hospital, sem enxoval preparado por ela, sem anúncio. Assumiu esse lugar na repetição. No choro da madrugada. No banho. No café antes da escola. Na roupa dobrada. Na espera no portão. Na tarefa cobrada. No medo de faltar. No cuidado que ninguém vê porque acontece todos os dias.
O curioso é que, quando uma avó assume lugar de mãe, ela não ganha outro nome. Continua sendo vó. Só que a palavra fica pequena para o tanto que ela faz.
A menina cresceu ali até os 9 anos. Depois decidiu morar com a mãe.
Foi embora com as roupas, algumas lembranças e uma parte da casa. Criança não sabe o tamanho da ausência que deixa. Talvez tenha ido contente, talvez dividida, talvez apenas seguindo o caminho que parecia certo naquele momento.
Maria Lourdes não dramatizou. Mulheres como ela raramente dramatizam na frente dos outros. Perguntam se levou tudo. Dobram uma roupa que ficou. Guardam um objeto. Dizem “vai com Deus”. Fecham a porta. Depois continuam vivendo, porque tem almoço, tem louça, tem roupa, tem outro dia.
Mas a casa sabe. A casa sente quando uma criança sai. O quarto fica com um silêncio fora do lugar. A mesa parece errar a conta das cadeiras. O mercado continua oferecendo coisas que ninguém mais vai comer toda semana. A mão ainda procura o copo menor. A boca quase chama.
Anos depois, o menino também saiu. Também aos 9 anos. Foi morar com a mãe. E Maria Lourdes precisou fazer de novo uma das coisas mais difíceis para quem cria: deixar ir. Pouco se fala disso.
Falam da avó que acolhe. Da avó que assume. Da avó que dá conta. Mas quase ninguém fala da avó que cria desde o primeiro choro sabendo que talvez aquela criança um dia volte para outra casa. Quase ninguém fala da mulher que pega no colo, ensina, alimenta, educa, ama, e depois precisa aceitar que o amor não dá posse.
Criar também é preparar a partida. Maria Lourdes ficou. Ficou com a casa mais quieta. Ficou com os filhos já adultos. Ficou com a memória dos netos em lugares pequenos: uma marca na parede, uma foto antiga, uma história repetida, um jeito de rir que volta quando alguém fala o nome deles.
A menina casou. Tem duas filhas, uma de 10 anos e outra de 2. Maria Lourdes agora vê aquela criança, que um dia chegou recém-nascida aos seus braços e fugia pelo murinho para a casa de dona Nice quando a bronca vinha forte, penteando o cabelo das próprias filhas, preparando lanche, dando banho, chamando pelo nome inteiro quando precisa ser ouvida. E talvez, sem perceber, a menina repita gestos aprendidos naquela casa: a pressa em servir comida, a bronca que vem junto do cuidado, a mão que arruma a roupa, o olhar que mede se está tudo bem.
O menino também casou. Teve uma filha, hoje com 5 anos, idade em que tudo é descoberta, pressa e pergunta. Maria Lourdes agora é avó e bisavó. Tem sete netos e cinco bisnetos. E talvez seja aí que a vida faça uma de suas voltas mais difíceis de explicar. Aquele menino que também chegou recém-nascido, que correu pela casa, ralou o joelho e escutou tantas vezes “vai devagar”, agora segura a filha no colo, atravessa a rua com ela pela mão e aprende, no corpo, que cuidar é viver com uma parte do coração fora da gente.
E Maria Lourdes observa. Às vezes, interfere. “Segura direito”. “Essa criança está com frio”. “Deixa ela comer mais um pouco”. Ninguém precisa dizer que ela já fez isso antes. Está tudo no gesto.
Quando as bisnetas chegam, a casa acende uma parte antiga. Maria Lourdes se levanta antes que peçam. Procura prato. Abre armário. Pergunta o que querem comer. Reclama da bagunça, mas guarda brinquedo com um cuidado que denuncia saudade.
“Não precisa, mãe. Deixa que eu faço”. Ela responde quase sempre igual. “Eu sei onde está”. E sabe mesmo. Sabe onde está o copo. Sabe onde está a toalha. Sabe onde está o biscoito. Sabe onde está a paciência quando todo mundo já perdeu. Sabe onde está a força, mesmo quando o corpo pede pausa.
O mundo gosta de chamar essas mulheres de fortes. Talvez porque seja mais fácil chamar de força aquilo que foi falta de escolha. Maria Lourdes foi forte muitas vezes, sim. Mas também deve ter ficado cansada. Deve ter sentido raiva. Deve ter querido silêncio. Deve ter se perguntado por que a vida pedia tanto dela.
Só que havia criança dentro de casa. E, quando havia criança dentro de casa, ela fazia o que sempre fez: levantava.
Levantava para preparar comida. Para ver febre. Para escutar choro. Para abrir a porta. Para ensinar respeito. Para dizer não. Para dizer sim. Para fingir segurança quando por dentro também tinha medo.
Maria Lourdes talvez diga que não fez nada demais. “Eu fiz o que precisava. Sou muito feliz por tê-los criado”. Mas há frases que diminuem uma existência inteira.
Ela criou quatro filhos. Depois criou dois netos desde recém-nascidos até os 9 anos. Depois viu os netos irem embora. Agora vê as bisnetas chegarem e saírem, cada uma levando um pouco do cheiro da casa, um pouco da voz dela, um pouco dessa forma de amar que quase nunca pede licença.
A casa já não tem crianças morando ali. Faz muitos anos.
Mas certas presenças não vão embora quando a pessoa sai. Elas ficam no modo como uma mulher dobra uma roupa. No jeito como olha para o portão. Na comida feita a mais. Na pergunta repetida antes de qualquer conversa séria.
“Quer que eu faça um virado de biju com ovo?”.
Eu passei a vida ouvindo essa pergunta.
Talvez por isso tenha demorado tanto para entender que, na boca de Maria Lourdes, ela nunca foi só sobre comida. Era medo. Era cuidado. Era tentativa de manter todos vivos, perto, aquecidos, possíveis.
Hoje, eu escrevo sobre uma avó que assumiu lugar de mãe, uma mulher que atravessou filhos, netos e bisnetos sem nunca abandonar o verbo cuidar.
Mas, não escrevo de longe. Maria Lourdes é minha mãe. E, neste Dia das Mães, eu não consigo chamá-la de homenagem. Chamo de casa.
E o que eu desejo, hoje, é que essa casa demore muito para fechar as portas. Que ainda haja muitos anos de voz chamando, panela no fogo, conselho atravessando a sala, bisnetas correndo pelo chão e Maria Lourdes dizendo, do jeito dela, que amor também é perguntar se alguém já comeu.
A mulher que ficou depois da mãe

Por Juan Pagno | Agência Abre Aspas
“E o irmãozinho?”.
Perguntavam como quem pergunta da chuva.
“Vai vir quando?”.
Você ria curto. Daquele jeito que não abre espaço para continuação. Aprendeu cedo que nenhuma mulher pode responder “não” sem parecer amarga. Então, sorria. Mexia no café e olhava pra mim correndo pela sala. Mudava de assunto.
Nasci em uma sexta-feira de chuva forte. Você me conta que a água batia na janela do hospital a madrugada inteira e, por alguns minutos, ficou assustada, porque demorei para chorar. Levei horas em uma sala sendo cuidado e quando voltei, nunca mais parei.
Quando me colocaram nos seus braços, penso que você esperava sentir aquelas coisas que falavam nos filmes. O mundo parando. O amor atravessando o peito. A vida fazendo sentido. Mas acho que você sentiu medo.
Medo das contas, do aluguel, do ônibus cedo. Medo de abrir a geladeira e não saber se dava até sexta-feira.
Meu pai dormia em uma cadeira do outro lado do quarto. Dormia torto, cansado, distante. Você olhava e já sabia que ia ficar sozinha. Dois meses depois, ele foi embora.
Sem grito nem porta batendo. Engraçado como é sempre o homem que aborta mais, vai entender, né? Depois disso, os dias começaram a passar rápido demais.
Em junho, você balançava meu berço enquanto, na TV, Denilson fugia de um pelotão Turco. Eu chorava de madrugada e você aprendia a dormir em pedaços. Dormia vinte minutos. Quarenta. Uma hora boa virava presente. Tinha leite vazando na camiseta no meio do trabalho, roupa acumulando no tanque, conta atrasando em cima da mesa.
A vida transformou-se em urgência.
Corria para o ponto de ônibus ainda escuro, me deixava com meus tios, avós ou com quem pudesse. Depois de um tempo fui parar na creche. Você pegava serviço em mercado, limpeza, caixa, qualquer coisa que pagasse o suficiente pra continuar faltando pouco no fim do mês.
Algumas pessoas falam de ti como guerreira. Você odeia essa palavra. Guerreira parece coisa bonita em postagem de internet. Não parecia uma mulher cochilando sentada no ônibus depois de doze horas de trabalho nem quando chorava baixinho no banheiro pra eu não ouvir. Trauma. Abdicação. Luta. Tudo isso só para, anos depois, olhar para mim e saber que nessa casa ninguém virou vagabundo.
Eu cresci no intervalo entre um turno e outro.
Primeiro dente.
Primeira febre.
Primeira apresentação da escola que você não podia ver por causa do trabalho, então, enviava os meus avós.
Sempre cansada. Cansada em um lugar do corpo que banho nenhum alcançava.
Às vezes, olhava para mim dormindo e sentia culpa pelo cansaço. Como se amar precisasse acontecer sem esforço. Como se a maternidade fosse aquela propaganda de margarina que ninguém fala de boleto, olheira ou dor nas costas. Olhava e pensava que queria passar mais tempo comigo, mas a vida impediu isso.
Mas amava.
Amava o jeito de separar a mistura melhor pra mim. No jeito de fingir que já tinha comido, mas, na verdade, você sentia fome pra eu não sentir. No jeito de acordar assustada de madrugada só pra ouvir se eu ainda respirava.
O amor morava nisso, na sua tentativa de fazer o melhor que conseguia.
Não nas frases bonitas.
Aos poucos, seu corpo foi aprendendo a sobreviver. E sobreviver, cansa diferente. O corpo endurece. A voz muda e o tempo passa sem pedir licença.
Chegou o tempo em que comecei dormir a noite inteira e você percebeu, quase sem perceber, que fazia anos desde a última vez que descansava de verdade.
Foi aí que entendeu.
Não queria outro filho. Não porque faltasse amor. Talvez, porque amor demais também ensina limite.
Sabia o tamanho exato da responsabilidade de criar alguém sozinha. Sabia quanto custava uma febre, uma mochila nova, uma madrugada acordada antes do trabalho no dia seguinte.
Sabia o que a maternidade levou embora dela.
Quando perguntavam do irmãozinho, continuava sorrindo.
“Só esse mesmo”.
Como quem não explica sobrevivência para quem nunca precisou sobreviver.
O peso da sacola

Por Alcemar Araujo | Agência Abre Aspas
Há três anos, no Dia das Mães, Tereza acorda antes do sol. Não porque haverá café na cama, mesa posta ou filho chegando com flor. Acorda porque domingo de visita começa quando a cidade ainda está escura e as pessoas de bem, como costumam dizer por aí, ainda dormem sem imaginar que o amor também entra na fila.
Tereza é nome fictício. O nome verdadeiro fica guardado a pedido dela, não por vergonha de ser mãe, mas por medo de carregar mais uma camada de julgamento. Ela sabe que há olhares que condenam antes de ouvir, que transformam o erro do filho em marca no corpo da mãe. Por isso, aceita contar a própria história desde que sua identidade permaneça protegida. Não é esconderijo. É cuidado de quem já aprendeu que o preconceito também visita, também bate à porta, também atravessa a rua.
Ela tem 61 anos. O filho único 43. Preso por tráfico de drogas. Condenado a 15 anos. Esses números a acompanham como se fossem parte do nome dele. Às vezes, quando alguém pergunta se ela tem filhos, Tereza responde que tem um. Depois vem um silêncio. É o silêncio de quem calcula se deve contar o resto. Quase sempre, ela não conta. Aprendeu que há perguntas que não querem ouvir resposta, querem confirmar julgamento.
No sábado, ela separa o que pode levar. Pouca coisa, do jeito permitido. Nada de improviso. A comida precisa ir em embalagem transparente. O bolo, quando dá para fazer, vai cortado. A fruta, quando pode, vai sem mistério. A roupa precisa estar certa. O documento precisa estar na bolsa. O corpo também precisa se preparar para obedecer.
Tereza faz tudo devagar, como quem arruma um filho para a escola, embora o menino já tenha barba, cabelo raspado e uma tristeza que ela não sabe pentear.
No fundo da sacola, coloca o que não aparece: vergonha, cansaço, medo, saudade, raiva, fé e uma culpa antiga que ninguém pediu, mas que ela carrega mesmo assim. “Eu sei que o erro foi dele. Mas quem paga junto sou eu. Ele está preso lá dentro. Eu fico presa aqui fora”.
A frase dói. Tereza não fala para comover. Fala porque é assim que a semana dela funciona. Tem a casa, os remédios, a fila do posto, a conta de luz, o mercado, a roupa no varal. E tem a cadeia. A cadeia entrou na agenda dela como uma doença que demora a passar. Toda semana, ela precisa atravessar a cidade, atravessar olhares, atravessar portões, atravessar uma forma de revista que faz o amor passar antes pela desconfiança. Há também o nu do corpo, a vergonha de se despir diante de quem procura suspeita até na pele. Antes de chegar ao filho, Tereza precisa deixar uma parte de si naquela sala.
Na fila, há outras mulheres com sacolas parecidas. Algumas conversam. Outras olham para o chão. Há mães, companheiras, avós, irmãs, filhas. Cada uma levando uma parte do mundo para dentro de um lugar feito para separar o mundo dos homens que estão ali.
Tereza não gosta quando dizem que ela é forte. “Forte é quem pode escolher. Eu não escolhi. Só não consegui abandonar”.
A primeira visita foi a pior. Não sabia onde ficar, o que dizer, como olhar para o próprio filho atrás daquele controle todo. Sentiu que, ao entrar, deixava a pele do lado de fora. Tudo nela parecia suspeito, até o cuidado. A comida, a roupa, a ‘ramona’ no cabelo, o remédio da pressão na bolsa, tudo precisava ser explicado. Naquele dia, ela entendeu que, para visitar um preso, uma mãe também precisa aprender a ser examinada.
“Eu saio de casa de madrugada, chego lá com o corpo doendo, fico esperando, passo por tudo, entro, vejo meu filho por pouco tempo e volto para casa mais vazia do que fui. Mesmo assim, é o único pedaço de alegria que eu tenho na semana. Quando pego a sacola, sinto que ainda posso fazer alguma coisa por ele”, relata. Alguma coisa. Duas palavras pequenas para quem já não pode desfazer quase nada.
O filho pede perdão sempre. No começo, Tereza respondia com sermão. Falava do que ele tinha perdido, do que tinha feito com a própria vida, da vergonha, do sofrimento dela. Depois cansou. Não de sentir, mas de repetir a dor como se ela fosse capaz de consertar alguma coisa.
Hoje, quando ele pede perdão, ela segura a vontade de chorar e diz: “Agora você precisa voltar vivo por dentro”.
Ele abaixa a cabeça. O cabelo cortado deixa o rosto mais menino. É isso que mais a desarma. A prisão envelheceu o filho e, ao mesmo tempo, devolveu à mãe uma imagem dele pequeno, pedindo desculpa por ter quebrado alguma coisa. Só que agora o que quebrou foi grande demais.
Em casa, a ausência dele ocupa cadeira, prato, quarto e feriado. No Dia das Mães, Tereza não sabe onde colocar a própria maternidade quando tudo ao redor manda celebrar presença.
Os parentes se afastaram aos poucos. Primeiro, pararam de perguntar. Depois, pararam de chamar. Alguns diziam que era melhor esquecer. Outros davam conselhos como quem joga pedra embrulhada em boa intenção. Tereza passou a perceber que a condenação do filho tinha se espalhado pela família inteira, mas pousado, principalmente, nela.
“Tem gente que olha para mim como se eu tivesse parido o crime. Eu pari um filho. O que ele fez, ele vai responder. Mas eu continuo sendo mãe. Você entende? Eu não posso abandonar o meu filho”, enaltece.
Essa é a parte que quase ninguém quer ouvir. Uma mãe pode amar sem absolver. Pode visitar sem concordar. Pode levar comida sem apagar a vítima, a lei, o erro, a sentença. Pode sofrer pelo filho e ainda saber que ele precisa responder pelo que fez. O amor de Tereza não pede inocência. Pede apenas o direito de existir sem ser confundido com desculpa.
Na volta da visita, a sacola vem mais leve, mas ela não. O corpo parece carregar aquilo que deixou lá dentro. Às vezes, no ônibus, fecha os olhos e lembra do menino correndo pela casa, do uniforme escolar, da febre de madrugada, do primeiro emprego que não durou, das companhias que ela não conseguiu afastar, das conversas que chegaram tarde. A memória de mãe é cruel porque guarda tudo junto. O primeiro passo e a algema. A risada e o processo. O berço e a cela.
Quando chega em casa, Tereza dobra a sacola e já pensa na próxima semana. Há nisso uma repetição que parece castigo, mas também é resistência. Cada visita fala ao filho que ele não desapareceu. Cada madrugada na fila diz ao mundo que maternidade não acaba quando a porta da prisão fecha.
“Meu sonho é ver meu filho sair. Não para fingir que nada aconteceu. Eu quero ver ele sair diferente. Quero ver ele trabalhar, comer na minha mesa, andar na rua sem dever nada a ninguém. Ele me diz que mudou. Eu olho para ele e tento acreditar, porque mãe também vive disso, de tentar acreditar quando quase tudo já machucou”, relata.
Neste domingo, talvez ninguém lhe entregue flores. Talvez o telefone não toque. Talvez o Dia das Mães passe como passam todos os domingos difíceis. Enquanto outras mães esperam abraço, Tereza espera a abertura dos portões. Enquanto outras casas se preparam para o almoço, ela atravessa a revista, a fila e a vergonha, levando ao filho o que ainda pode oferecer: comida, presença e um amor que ninguém vê, mas que chega primeiro que ela.
Ainda assim, antes do sol nascer, confere o documento, ajeita o cabelo diante do espelho e sai com a sua sacola. Não para diminuir o crime. Não para apagar a dor de ninguém. Não para pedir inocência onde houve sentença.
Ela sai porque, entre tudo o que lhe tiraram, ainda restou isso: o gesto de chegar. E, para Tereza, enquanto houver uma fila, um portão e um filho esperando do outro lado, abandonar também seria uma condenação.
Essa, ela não assina.
Mães em luto: um silêncio em meio às homenagens

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas
Na casa de Taiane, o quarto do filho permanece como ele deixou. Suas roupas, a gaveta bagunçada que apenas ele conseguia entender; tudo está lá, intacto, esperando por Gabriel e, na mente da mãe, ainda estão os últimos dias que viveu com o filho.
Neste domingo de Dia das Mães, as homenagens ocupam vitrines, comerciais de televisão, mesas de restaurantes e publicações nas redes sociais. Famílias se reúnem para o almoço, filhos entregam presentes e a cidade parece falar de afeto em todos os lugares. Para Taiane, no entanto, a data também chega marcada pela ausência. Enquanto o mundo celebra, ela tenta atravessar mais um domingo sem Gabriel. O silêncio da casa pesa mais. Taiane pensa no filho. Pensa no jeito dele, nas conversas, nos últimos momentos vividos ao lado dele, e as lágrimas escorrem.
Na manhã seguinte, ela evita permanecer muito tempo nas redes sociais. As fotografias de mães ao lado dos filhos fazem com que volte às próprias memórias: os presentes feitos na escola, as fotos guardadas na galeria do celular, os antigos Dias das Mães vividos com Gabriel. Desde o falecimento do filho, essa se tornou a realidade de Taiane todos os anos.
Para Taiane, a dor se tornou parte de seu corpo, e ela a sente em todos os momentos. Em alguns dias, consegue falar sobre seu filho sem chorar. Diz que até consegue rir ao lembrar dele. Em outros, define como um vale de lágrimas, em que tudo a faz questionar sua partida tão precoce, aos 15 anos.
O Dia das Mães, para Taiane, é vivido com ambiguidade. Sente, ao mesmo tempo, o conforto e o amor na presença do filho mais novo, Joaquim, enquanto lida com a ausência de Gabriel. Taiane exalta o amor de Gabriel pelo irmão e afirma que esse sentimento era visível no brilho de seus olhos ao vê-lo, mesmo tendo convivido com Joaquim por apenas um ano e nove meses.
Taiane guarda na memória o primeiro choro, as primeiras palavras, os primeiros passos, a primeira roupa usada e todos os momentos em que viveu na companhia do filho falecido. Mesmo assim, ainda hoje, voltar ao hospital em que Gabriel fez o seu tratamento de câncer a lembra das inúmeras lutas cansativas que passou ao lado dele.
Nos nove meses em que viveu o tratamento, Taiane conta que o medo virou cotidiano na família. Ainda assim, Gabriel tentava manter o sorriso e ressignificar os dias difíceis, transformando-os em momentos mais leves para quem estava ao redor. Lembra-se de seu filho tocando gaita ou saindo para pescar, hábitos que faziam parte da rotina da família.
Na noite em que o filho faleceu, ele pediu para que ela cozinhasse purê de batata. Taiane fez, mesmo estando cansada após mais uma semana acompanhando-o em uma internação, pois sentiu que essa seria a última comida que faria para o filho. Ele comeu com entusiasmo. Taiane conta que, depois de sua partida, sempre que tenta ingerir o alimento, começa a chorar e a estremecer, deixando a comida no prato. Também lembra que, segundos antes de falecer, Gabriel a chamou de melhor mãe do mundo e disse que a amava demais.
Quando Gabriel descansou, Taiane descobriu que, além de lidar com a ausência do filho, precisaria encarar o silêncio das pessoas ao seu redor. Hoje, percebe que, se toca no nome de seu filho, tentam silenciá-la e trocam de assunto, como se ela precisasse ignorar seus sentimentos em mais uma conversa. Para Taiane, o mundo está corrido demais para acolher a dor de quem fica.
“Era um menino de ouro, ele tinha um coração puro”, diz ao relembrar a personalidade de Gabriel. “Com ele não existia tempo ruim, e sigo tentando viver intensamente como ele vivia, mesmo sendo muito difícil. Vejo que essa seria a melhor forma de seguir o legado que deixou”.
A dor do luto chegou para Taiane em uma segunda-feira. Um dia comum para a população se transformou no dia mais triste de sua vida. Desde então, a saudade nunca mais a deixou sozinha, e seu quarto nunca mais deixou de esperar pelo filho.
O que quase nunca se diz sobre uma mãe em luto é que ela não perde o filho uma vez só. Ela perde quando acorda e lembra que não há mais chamado vindo do quarto. Perde quando vê uma roupa que ainda guarda o formato do corpo, quando escuta uma música, quando sente um cheiro, quando alguém pergunta quantos filhos ela tem e a resposta fica presa entre a verdade e a dor. O mundo espera que ela aprenda a seguir, mas seguir, para uma mãe, nunca é deixar o filho para trás. É carregar a ausência junto, como parte do corpo, da memória e da forma de existir.
Também pouco se fala que o luto de uma mãe não termina quando acabam as visitas, as mensagens e as primeiras semanas de comoção. Ele atravessa aniversários, almoços de família, datas comemorativas, noites comuns e domingos como este. A mãe que perde um filho continua sendo mãe todos os dias, mesmo quando já não pode preparar o prato, arrumar a cama, esperar a volta, ouvir a voz. O amor permanece trabalhando dentro dela, sem descanso, e talvez seja isso que mais doa: descobrir que a morte interrompe a presença, mas não encerra a maternidade.
Mãe não cabe no porta-retrato

Por Alcemar Araujo | Agência Abre Aspas
No Dia das Mães, muita gente ainda procura uma imagem per(feita): uma mulher sorrindo diante de flores, café na cama, filhos alinhados, casa em paz, amor sem ruído. A cena é linda, mas rasa. Mãe, quando aparece só assim, se torna enfeite. E há mães que nunca couberam nesse porta-retrato.
No Brasil de 2026, ainda há quem queira conferir certidão, barriga, sobre(nome), corpo, roupa, fé, desejo e aparência antes de re(conhecer) uma mãe. Como se o amor precisasse passar por “cartório moral”. Como se cuidar de alguém todos os dias fosse menor quando não segue a arquitetura esperada.
Rosa aprendeu isso cedo.
Mãe solo de dois filhos, lésbica, ela escutou de tudo quando um deles começou a dizer quem era. Não foi uma descoberta feita em cena de filme. Foi dentro de casa, no intervalo da rotina, entre roupa para lavar e passar, tarefa da escola, comida no fogo e uma pergunta que não saía da cabeça: o que atravessa mais: a felicidade de um filho ou a opinião de quem não conhece a sua preocupação?
Ela costuma dizer que a maternidade a fez mais inteira. Talvez, porque tenha conhecido a ausência antes de conhecer o cuidado. Foi deixada pela própria mãe e, por isso, prometeu a si mesma que seus filhos nunca precisariam gritar para serem vistos.
Quando começaram as acusações, ela não se assustou com a criatividade da crueldade. Ela ouviu que, por ser lésbica, teria influenciado o filho. Rosa respirou, engoliu a raiva e respondeu do jeito que uma mãe responde quando já chorou no banheiro antes de sair para trabalhar.
“A única coisa que eu ensinei foi que ele não precisa sentir vergonha de existir”.
A frase ficou nela como um ponto de apoio. Não protegia de tudo, mas dava a ela um lugar para se manter em pé.
Na casa de Rosa, amor é segurar a mão na porta da escola. É perguntar como foi o dia sem pressa de corrigir. É procurar gente que acolha. É mudar palavra, hábito, documento, se for preciso. É aprender também. Porque mãe não nasce sabendo, nem quando pariu, nem quando adotou, nem quando foi escolhida pela vida. Mãe vai sendo feita no susto, na escuta, no medo e na coragem.
Marta também foi escolhida assim, sem aviso.
Mulher trans, negra, periférica, viveu por muito tempo com a maternidade guardada em um canto silencioso do peito. Achava que talvez fosse madrinha, presença, referência. Mãe, não. A sociedade nunca lhe ofereceu essa palavra com naturalidade.
Então, veio Caio. No começo, era um adolescente que precisava de colo sem pedir colo. Um menino com sonhos parecidos com os dela, com um jeito de olhar que a desarmava. Marta reparava nas semelhanças pequenas, o riso, a teimosia, a vontade de vencer sem saber direito por onde começar. Um dia, entendeu que não estava apenas ajudando. Estava maternando.
A conversa aconteceu sem cerimônia. Sentaram-se, como quem vai decidir uma coisa enorme usando palavras simples. Marta perguntou se ele aceitava ser filho. Caio, ainda menino e já tão calejado pela vida, respondeu algo que ela nunca esqueceu:
“Você vai ver que essa oportunidade que está me dando não vai ser em vão”.
Marta diz que ali nasceu uma mãe. Não houve sala de parto, nem fotografia de hospital, nem pulseirinha no pulso. Houve uma mesa, duas pessoas e uma decisão.
Depois vieram os conflitos comuns, que quase nunca entram nos textos de homenagem. O quarto bagunçado. A resposta dura. A preocupação com namoro, trabalho, amigos, rua. A vontade de proteger demais.
“Às vezes, eu queria colocar meu filho dentro de uma caixinha. Depois lembro que criei para a vida, não para uma vitrine”.
Hoje, Caio já mora perto, do outro lado da rua. Perto o suficiente para ela continuar sendo chamada quando algo aperta. Longe o suficiente para que ele treine o próprio caminho. E há outro menino chegando, ainda pequeno, ainda à espera de papéis, ainda aprendendo a chamar aquela mulher de mãe.
Marta ri quando perguntam se sua maternidade é diferente. Ela sabe que há violências que batem primeiro em alguns corpos. Sabe que uma mulher trans precisa provar o óbvio muitas vezes. Mas também sabe que filho com fome não pergunta se a mãe é cis. Filho com medo quer voz conhecida. Filho perdido quer alguém que diga “vem, eu estou aqui”.
Ana Lúcia, por sua vez, nunca aceitou que maternidade fosse contada só em meses de gestação.
Travesti, mãe de dois filhos, ela fala dos seus partos de outro modo. Um durou poucos dias. Outro, 3 meses. Outro ainda continua acontecendo, porque há filhos que chegam no colo e há filhos que nascem quando conseguem dizer o próprio nome.
O primeiro veio pequeno, quase cabendo inteiro no susto. Era filho de uma amiga que já não tinha como garantir o cuidado. Ana Lúcia não conta essa história como quem tomou o lugar de alguém. Conta como quem recebeu uma vida e entendeu que receber também é responder por ela.
“Meus filhos não vieram do meu corpo, mas vieram para a minha vida”, diz.
A segunda filha nasceu em uma tarde que não aparece em álbum de bebê. Nasceu quando pediu para ser chamada por outro nome. Nasceu quando deixou de caber no nome antigo. Nasceu quando a casa precisou aprender a dizer uma palavra nova sem tropeçar nela. Ana Lúcia lembra desse dia com o corpo inteiro.
“Quando minha filha disse quem era, eu senti como se alguma coisa em mim também tivesse nascido”.
Não foi simples. Nada disso é simples. Há escola, vizinho, parente, documento, médico, igreja, medo. Há também cozinha, risada, bronca, aniversário, chinelo perdido, panela queimando, mensagem de madrugada. Ana Lúcia não romantiza. Maternidade, para ela, é ensinar caráter, limite, justiça, cuidado e resistência. É corrigir sem quebrar. É amar sem prender. É permitir que os filhos tenham fé, dúvida ou distância da fé dela. “Eu ensino alguma coisa, sim. Mas aprendo muito mais do que esperava”.
Talvez seja isso que assuste tanta gente. Essas mães não pedem licença para existir dentro da palavra mãe. Elas ocupam a palavra, alargam suas bordas, mostram que família não é vínculo em construção. Falam de sexualidade, identidade, corpo e afeto sem transformar a vida em escândalo. Elas r(existem) sem posar de heroínas. Criam filhos enquanto enfrentam a rua, a piada, o julgamento, a burocracia e, muitas vezes, a solidão.
No domingo das flores, elas também merecem flor. Mas não só flor. Merecem escuta. Merecem nome. Merecem o direito de contar a própria história sem que alguém tente corrigir a forma da sua maternidade.
Porque há mães que não cabem no porta-retrato. Há mães que re(nasceram) quando ouviram “você topa ser minha mãe?”. Há mães que escolheram o filho diante do julgamento. Há mães que fizeram da casa um lugar possível para uma criança trans respirar. Há mães que são trans, travestis, lésbicas, héteros, solo, negras, brancas, periféricas, religiosas, descrentes, exaustas, engraçadas, firmes, protetoras, contraditórias.
E, quando uma delas fecha a porta no fim do dia, depois de enfrentar o mundo lá fora, talvez não sobre nenhuma explicação.
Talvez reste apenas o gesto mais antigo e mais difícil: olhar para um filho e dizer, sem precisar de plateia, “aqui você pode ser”.
Meu primeiro ministério é ser mãe

Para Jheniffer, maternar é cuidar de duas infâncias com necessidades diferentes. Bella, de 5 anos, é celíaca e tem alergias alimentares severas. Murilo, de 9, é autista nível 1 de suporte, tem TOC e superdotação | Crédito da foto: Arquivo pessoal
Por Giovanna Kava | Agência Abre Aspas
Do lado de fora da escola, faltam quinze minutos para o sinal tocar, quando Jheniffer Veronica começa a responder as perguntas. Enquanto fala, também olha o relógio de tempos em tempos, porque Murilo precisa sair exatamente no mesmo horário de sempre. Nem antes, nem depois. “Senão ele entra em crise”, explica. A entrevista acontece ali mesmo, no meio da rotina, enquanto ela pensa em tudo que ainda precisa fazer quando chegar em casa. Buscar as crianças, resolver a comida, organizar o restante do dia. Em determinado momento, no meio de uma resposta, ela lembra que tinha esquecido a lancheira de frutas da Bella em casa. Depois comenta que ainda precisa passar comprar um miojo à base de farinha de arroz porque não tinha deixado nada preparado. E então fala uma frase que aparece várias vezes durante a conversa, mesmo quando ela não percebe. “A culpa existe o tempo todo”.
Jheniffer tem 33 anos, trabalha com proteção veicular e também como influencer digital, mas nenhuma dessas definições vem primeiro quando fala de si mesma. “Meu primeiro ministério é ser mãe”. Existe alguma coisa muito honesta na forma como diz isso. Não parece uma frase pronta. Não parece apenas um discurso de internet. Parece alguém tentando explicar o próprio lugar no mundo naquele momento. Em outro trecho da conversa, comenta que é muito difícil responder quem ela é além da maternidade, porque atualmente se vê “Apenas mãe”. Depois ri de leve e completa que aquilo não é uma coisa ruim. “Pra mim, é o papel principal e o melhor”.
Talvez a maternidade tenha mesmo essa capacidade de reorganizar completamente uma pessoa. Em vários momentos da conversa, dá para perceber que a antiga Jheniffer ficou em algum lugar distante da rotina que vive naquele momento. Ela mesma diz que quem a conheceu antes dos filhos já não a conhece mais. “Eu sou outra”. Conta que ficou mais empática, mais próxima de Deus e, ao mesmo tempo, mais assustada com o mundo. Sente medo de morrer, medo de deixar os filhos sem cuidado, medo de qualquer coisa acontecer. “Eu desenvolvi até pânico de remédio porque acho que vou morrer com um paracetamol”, comenta, rindo.
A maternidade dela é atravessada por duas realidades diferentes. Bella, de 5 anos, é celíaca e possui alergias alimentares severas. Murilo, de 9, é autista nível 1 de suporte, possui TOC e superdotação. Quando fala sobre os filhos, Jheniffer não tenta transformar a rotina em uma história inspiradora o tempo inteiro. Fala sobre amor, mas também sobre desgaste, culpa, adaptação e medo. Fala como alguém que vive uma rotina intensa e que precisa aprender tudo na prática.
Ela comenta que, quando estava grávida, imaginava uma maternidade completamente diferente. “A gente desenha o filho perfeito”. Depois fez questão de corrigir a própria frase rapidamente. Não porque os filhos não fossem perfeitos para ela, mas porque nenhuma mãe imagina uma maternidade atípica enquanto espera um bebê. “Você pensa que no máximo eles vão ter uma gripe, uma febre, dar trabalho na escola igual qualquer criança”.
O diagnóstico do Murilo demorou quatro anos para chegar. E talvez uma das partes mais fortes da entrevista tenha sido justamente quando ela diz ter sentido alívio ao descobrir o autismo do filho. Não tristeza. Não revolta. Alívio. Porque antes disso, tentavam tratar Murilo como tratariam qualquer criança neurotípica, e nada funcionava. “Ele entrava em sofrimento.” O diagnóstico trouxe respostas. “Abriu uma luz.” Pela primeira vez, ela sentiu que existia um caminho possível para ajudar o filho sem machucá-lo ainda mais.
Mas deixa claro que isso não significa facilidade. Pelo contrário. A rotina da casa inteira precisou mudar. Enquanto outras famílias levavam os filhos para futebol, judô ou passeios durante as férias, eles precisavam adaptar a vida às terapias, à rotina escolar e às crises do Murilo. Ela conta que julho e dezembro costumavam ser meses muito difíceis dentro de casa, porque Murilo precisava da escola para se regular emocionalmente. “As mães estão curtindo as crianças nas férias e a gente está tentando sobreviver”.
A rotina da família funcionava em torno de planejamento. Eles precisavam pensar desde o que iam comer até a forma como falavam perto das crianças. Murilo precisava saber exatamente o que iria acontecer. Não dava para comentar sobre praia, passeio ou viagem sem que aquilo estivesse confirmado. “Ele já fica desesperado.” Então mediam palavras, horários e mudanças. Tudo precisava ser previsível.
Também existiam as batalhas que ninguém via. Murilo não usava sapato fechado nem meia, mesmo no frio. Ela conta que desde o inverno anterior tenta trabalhar nisso diariamente. “As pessoas falam: meu filho também não gosta. Só que o delas não gostam, mas colocam, já o meu entra em crise”. Existe um desgaste evidente quando fala sobre essas comparações, como se estivesse cansada de precisar explicar o tempo inteiro que algumas situações iam além do que as pessoas imaginavam, principalmente quando comentava sobre os hiperfocos dele. Atualmente, programação, códigos, números, componentes eletrônicos e linguagem C++. Ela reflete sobre não conseguir acompanhar metade do que o filho diz, depois fica séria. “Ele espera que eu entenda”. Nesse momento, parece existir uma culpa silenciosa, como se as mães sentissem a obrigação de alcançar os filhos em todos os lugares possíveis.
Mesmo assim, diz que a parte mais bonita é justamente assistir tudo aquilo acontecer. Ver uma criança de nove anos falando sobre assuntos que muitos adultos demorariam anos para compreender. Ver o filho aprendendo a demonstrar carinho. Antes, quando os pais chegavam de viagem, Murilo apenas dizia “Ah, ok, vocês chegaram”. Hoje corre para abraçar os dois e dizer “Eu te amo”. A emoção aparece forte quando ela fala sobre isso. “A gente sabe o esforço que ele fez pra isso”.
Talvez, quem olhasse de fora não entendesse o peso que algumas pequenas conquistas carregavam dentro de uma maternidade atípica. Um abraço. Um toque. Um eu te amo. Coisas que pareciam simples para algumas famílias, mas que dentro da casa dela representavam meses, anos de desenvolvimento, terapia e esforço emocional.
Em vários momentos da entrevista, Jheniffer fala sobre cansaço. Não apenas físico, mas emocional. Diz que o exercício físico tinha ajudado muito depois de alguns surtos, mas até isso era difícil de encaixar na rotina. Não conseguia frequentar academia porque os filhos praticamente não ficavam longe dela. Então fazia exercícios em casa, junto com eles, nos horários possíveis. Comenta também que Murilo ainda dormia muito mal. Aos nove anos, continuava dormindo com os pais. “Uma hora ele dorme e a gente dorme também”, diz, rindo de leve. “Enquanto isso, sobrevivemos”.
Quando pergunto se ela já pensou que não daria conta, responde imediatamente: “Todos os dias”. E talvez tenha sido a resposta mais sincera da conversa inteira. Porque, ouvindo Jheniffer falar, em nenhum momento ela tenta parecer heroína. Não romantiza o próprio cansaço. Não tenta mostrar força o tempo inteiro. Apenas parece alguém vivendo um dia de cada vez.
Ela comenta também sobre a solidão. Diz que tem o esposo ao lado e que ele é extremamente presente, mas que, mesmo assim, existem momentos em que o peso da rotina ainda a faz se sentir sozinha. Ao mesmo tempo, encontrou na internet uma espécie de rede de apoio. Outras mães atípicas, outras mulheres vivendo rotinas parecidas. “A gente troca figurinhas”. E talvez fosse justamente isso que a ajuda a continuar. Pequenas pessoas. Pequenos gestos.
Também fala sobre o julgamento das pessoas. Principalmente em relação à superdotação do Murilo. Comenta que muitos esperam que ele responda perguntas imediatamente, como aqueles personagens geniais dos filmes. E quando isso não acontece, percebe a decepção estampada no rosto das pessoas. “Não é carinho genuíno”. Há uma dor silenciosa nisso. A sensação de que muitas vezes olhavam para o filho esperando um espetáculo, e não uma criança.
No fim da entrevista, pergunto o que o Dia das Mães significa para ela. Ela ri antes de responder e diz ser ótimo a conversa estar sendo feita por áudio, porque provavelmente choraria se fosse pessoalmente. Depois fica séria. Diz que o Dia das Mães é o melhor dia do ano. “Pode abandonar meu aniversário, mas o Dia das Mães é o Dia das Mães”. Fala sobre acreditar que ser mãe é um presente de Deus e que educar crianças talvez seja uma das maiores responsabilidades que alguém pode ter.
Enquanto ela falava, fiquei pensando que talvez a maternidade real estivesse muito distante das homenagens prontas que aparecem em maio. Porque ela não acontecia só nas flores, nos cafés da manhã ou nas mensagens emocionantes em redes sociais. Acontecia dentro do carro, esperando o horário certo da escola. Acontecia nas noites mal dormidas. Na culpa silenciosa por esquecer uma lancheira. Nas adaptações diárias, no medo, no cansaço e também no orgulho. Principalmente no orgulho.
No final da conversa, Jheniffer diz sentir orgulho de nunca ter desistido dos filhos. Orgulho de estudar, pesquisar, adaptar a vida inteira e correr atrás do melhor para eles. Orgulho de olhar para Murilo e Bella exatamente como eram.
E talvez fosse justamente isso que permanecesse depois de ouvir a história dela: não a imagem de uma mãe perfeita, mas a de uma mulher real, cansada às vezes, sobrecarregada em muitos momentos, mas que ainda conseguia olhar para toda a própria rotina e dizer que teria “Uns dez filhos iguais ao Murilo e à Bella”.
Porque, no fim, apesar de tudo, ser mãe continuava sendo a parte mais importante de quem ela era.
Engole o choro, levanta e continua

Por Karoline Martins | Agência Abre Aspas
A rua vira barro quando chove.
Na subida, debaixo da chuva, o suor de um dia inteiro ainda escorria junto. Uma filha na cadeirinha, a outra no guidão. O cansaço não vinha só da bicicleta, vinha do corpo exausto e das contas apertadas. A roda encontrou uma pedra e enroscou. Bastou aquilo para tudo balançar. Em um instante, a menina já estava no chão, as roupas cobertas de barro e o choro descendo junto com a chuva.
A culpa veio primeiro. Depois, a frase que carrega pela vida inteira: “Engole o choro, levanta e vamos”. Não era dureza, era instinto de sobrevivência. Na maternidade solo, cair nunca significou ter o direito de parar.
Naquele tempo, a vida cabia dentro de um único quarto. Paredes apertadas para uma mulher e duas meninas. As escolhas nunca eram simples: ficar e assistir de perto a cada fase das filhas ou sair cedo para garantir o sustento da casa e voltar quando as luzes dos postes já estivessem acesas. Celia saía para trabalhar enquanto as filhas ainda dormiam e voltava quando o dia já tinha acabado. A rotina se repetia sem pausa, porque o cansaço podia esperar, a fome não.
Os anos foram passando e, no meio deles, veio o filho; dois anos depois, a caçula. Foi então que o peso das ausências começou a apertar ainda mais dentro do peito. A vida já não podia seguir daquele jeito, acumulando dias perdidos e deixando de acompanhar o crescimento de mais dois filhos.
A mudança realmente aconteceu quando colocou a filha, com apenas três meses, na creche para continuar mantendo a casa. Não havia outro colo para dividir a responsabilidade, nenhuma presença paterna para aliviar o peso dos dias. Existia apenas ela.
Enquanto relembra aquele período, ela apoia as mãos sobre a mesa, como quem ainda tenta segurar o passado. “Meus filhos cresceram comigo, mas e a minha presença?”.
O medo existia, as oportunidades eram poucas. Ainda assim, foi dentro de uma cozinha improvisada, cercada pelos filhos e pelas incertezas, que ela começou o próprio negócio: fazer salgados.
As manhãs passaram a começar antes de o sol nascer. O despertador cortava o silêncio da casa, o rádio baixo fazia companhia e o café quente se tornava parceiro das madrugadas. As mãos mergulhavam na massa ainda fervendo, queimavam, doíam, mas havia uma motivação maior esperando do outro lado: manter a casa aquecida, acompanhar o crescimento dos filhos e garantir a comida na mesa.
“Eu sou o pilar da minha casa. Se eu cair, as paredes caem”. A frase não sai como um desabafo, mas como uma regra que teve que impor à própria vida.
Na maternidade solo, o medo nunca dorme completamente. Medo de a geladeira esvaziar, medo de faltar, medo de não conseguir sustentar aquilo que depende apenas de você. E, enquanto o medo permanece acordado, o corpo aprende a continuar mesmo cansado. O pé queimado, as dores acumuladas, o esgotamento: nada disso interrompe a rotina de quem entendeu cedo demais que descansar, muitas vezes, é um privilégio.
As decisões também precisaram nascer dentro de casa, sem outra voz para dividir o peso. Sem uma presença paterna, era dela que vinham os limites, os conselhos, os cuidados, as broncas e o afeto. Ser mãe solo significava ocupar todos os espaços ao mesmo tempo.
Houve dias em que parecia, finalmente, que tudo começava a entrar no lugar. Até que, em uma manhã comum, a voz da filha caçula atravessou o telefone: “Mãe, a firma está pegando fogo”.
O café quente esfriou sobre a mesa. O que antes eram risadas compartilhadas entre filha, mãe e neta virou tensão e pressa. E, nesses momentos, a vida parece andar devagar de propósito. Os carros não avançam, o caminho nunca chega ao fim e a cabeça começa a relembrar tudo aquilo que levou anos para ser construído.
Dentro daquele desespero, Celia voltou para o passado: a bicicleta, o barro, o quarto apertado, a cozinha improvisada e, junto, o medo de ver o fogo levar embora tudo que construiu.
O tempo ensinou muitas coisas sobre a maternidade solo. Ensinou sobre a exaustão, sobre o medo constante de não conseguir suportar tudo sozinha e sobre como existem preocupações que nunca descansam completamente dentro de uma mãe.
Hoje, um dos sentimentos que mais apertam o peito é assistir aos filhos seguindo suas vidas. Há amor, orgulho e sensação de vitória, mas também existe silêncio. Aos poucos, a casa vai mudando de som, a mesa já não se preenche da mesma forma. Talvez por isso os pequenos momentos tenham ganhado tanto valor.
Estar todos juntos, ouvir movimento pela casa, dividir uma refeição: detalhes que, para muitos, parecem pequenos, mas que carregam o peso de todos os sacrifícios feitos sozinha para manter a família de pé sem deixar a presença se perder no caminho.
Atualmente, tudo é diferente: o barro virou asfalto, a bicicleta virou carro, o quarto virou casa. Mas, no fundo, o que mais importa continua sendo aquilo que ela passou a vida inteira tentando preservar: a presença.
E a subida continua, mesmo quando chove, mesmo quando escorrega, mesmo quando o corpo cansa. Porque sempre existe um motivo para levantar e continuar.



Crônicas lindas e muito sensíveis. Cada história mostrou a maternidade de uma forma real e necessária.💙
Ahh mães… como são importantes.💙