A infância interrompida e a vida construída com as próprias mãos
- Eduarda Vitória Goes

- há 1 dia
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Órfão desde a infância, José atravessou o país e construiu a própria vida a partir do trabalho

Por Eduarda Goes | Agência Abre Aspas
Os rostos dos pais já não estão nítidos na memória de José. O tempo tratou de apagar contornos, detalhes e expressões. As feições se dissolveram com os anos, como fotografias antigas esquecidas ao sol. Mas há coisas que não se perdem. Nunca. Permanecem vivas nas sensações, nos cheiros, nos gestos simples que atravessam décadas e resistem ao esquecimento.
José ainda se lembra do gosto da comida da mãe, da mandioca recém-colhida, do cheiro da terra molhada depois do trabalho na roça. Lembra-se do calor do sol sobre a pele, do peso das tarefas divididas com o pai, da rotina simples que, na época, não parecia dura, apenas natural. Lembra-se do cuidado silencioso. Da presença constante que, um dia, deixou de existir.
Aos oito anos, a infância de José foi interrompida pela morte do pai. No ano seguinte, antes mesmo de compreender a dimensão da primeira perda, veio a segunda: a mãe, levada por problemas no coração. Em pouco mais de um ano, o mundo que conhecia deixou de existir. Não houve tempo para o luto. Não houve espaço para ser criança.
A perda, quando chega tão cedo, não parece uma separação, torna-se uma ausência permanente. José não teve a chance de entender o que significava perder. Apenas seguiu. Como se a vida tivesse exigido, de forma silenciosa, que continuasse andando, mesmo sem saber exatamente para onde.
Nascido em 1949, em Cacimba Nova, Pernambuco, José é o caçula de oito irmãos. Quando perdeu os pais, muitos deles já haviam seguido seus próprios caminhos, formado suas famílias e buscado a própria sobrevivência. Restou a ele acompanhar a irmã mais velha, Zefa, que partia para o Paraná ao encontro do noivo, Valdomiro.
Foi assim que, ainda menino, José atravessou o país. A necessidade impediu qualquer possibilidade de escolha. A migração, nesse caso, carrega o peso da urgência, suprimindo idealizações. Foi para sobreviver, não para buscar oportunidades.
TRABALHO PRECOCE
Antes mesmo do luto, já havia o trabalho. Na curta infância que teve, José ajudava o pai na roça: colhia mandioca, carregava peso e participava da rotina da pequena produção de farinha. Não havia tempo para brincadeiras longas, nem para a escola. A vida, desde cedo, exigia esforço. Exigia presença. Exigia responsabilidade.
Mas foi no Paraná que o trabalho deixou de ser apenas parte da rotina e se tornou condição de sobrevivência.
Em Maringá, a promessa de recomeço não se concretizou como esperança. Na casa do cunhado, José encontrou abrigo, mas também enfrentou exploração. Trabalhando de dia e de noite, roçando mato e executando serviços pesados e repetitivos, aprendeu o sentido mais duro da palavra “necessidade”. Não havia escolha. Não havia alternativa.
Muitas vezes, o trabalho não vinha acompanhado de comida suficiente. Havia dias em que o corpo cansado não encontrava descanso. O estômago vazio era sempre um desafio maior a enfrentar.
De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 33,1 milhões de brasileiros ainda vivem em situação de insegurança alimentar, o que mostra como a dificuldade de acesso à comida continua sendo uma realidade no país.
A infância, que já havia sido interrompida, agora dava lugar a uma vivência ainda mais dura: a de um menino que precisava agir como adulto para sobreviver.
José resume esse período de forma direta, com os olhos marejados. “A minha infância foi muito sofrida. Seu Valdomiro me negou comida várias vezes, mesmo eu ajudando a sustentar a casa”.
A experiência aponta para muito mais do que a dureza das condições em que viveu. José não se sente propriamente criado, mas forjado. Moldado pelas circunstâncias, pelas dificuldades e pela ausência de escolhas. Sua formação foi atravessada pela necessidade de resistir.
TRAVESSIA
Esse tipo de trajetória traduz uma realidade comum a muitos brasileiros, sobretudo em décadas passadas: a infância abreviada, substituída precocemente pelo trabalho. Peço licença à narrativa de José: a contextualização, aqui, faz-se necessária. A ausência de acesso à educação e à proteção social limita oportunidades e redireciona destinos.
Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em setembro de 2025 e referentes à PNAD Contínua 2024, indicam que o trabalho infantil no Brasil, após um período de queda, voltou a crescer, atingindo 1,65 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, principalmente em atividades informais e no meio rural. Embora os números tenham diminuído ao longo dos anos, o problema persiste, sobretudo em situações de vulnerabilidade social e baixo acesso à educação.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2019, cerca de 1,8 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos estavam em situação de trabalho infantil no país.
Nesse cenário, a história de José não é um caso isolado, mas parte de uma realidade social que marcou gerações, em que o trabalho precoce foi, muitas vezes, condição para a própria sobrevivência.
Mesmo diante das condições adversas, José nunca se permitiu seguir caminhos que considera errados. “Só vai para o caminho errado quem quer”. Repete isso com convicção, não como julgamento, mas como filosofia de vida construída na prática e na resistência cotidiana.
Ainda jovem, decidiu sair daquela realidade. Com o apoio da irmã, partiu para Ouro Verde, onde conseguiu trabalho em uma fazenda. Lá, enfrentou novos desafios: carregava cargas pesadas na cabeça, encarava longas jornadas e, por um período, não tinha sequer um lugar fixo para morar.
Dormia em um barracão onde eram armazenados sacos de alimentos. Improvisava um espaço com um colchão simples, cercado pelo cheiro da produção agrícola e pelo silêncio das madrugadas. Era uma vida solitária, marcada pelo esforço físico extremo e pela ausência de estabilidade.
Foi nesse período que conheceu Eni, a mulher com quem dividiria o resto da vida. O encontro abriu um novo horizonte, sem desrespeitar ou se sobrepor ao passado ainda presente em José. Mais do que companhia, Eni representou a construção de um novo sentido: o de não estar mais sozinho.
Juntos, decidiram tentar uma nova vida em Cascavel, quando ele tinha cerca de 20 anos. Ali, José construiu sua trajetória como pedreiro, em um trabalho duro e repetitivo. Eni, por sua vez, trabalhava como varredora de rua. Não havia luxo, mas havia parceria. Não havia facilidade, mas havia propósito.
AFETO
Se na infância lhe faltaram oportunidades, sobretudo o acesso à educação, na vida adulta ele encontrou um sentido claro: garantir que nada faltasse à sua família. O desejo de estudar permaneceu como uma ausência silenciosa, uma vontade nunca realizada.
Hoje, aos 77 anos, José evita revisitar as dores da infância, mas reconhece o caminho que percorreu. As lembranças dos pais ainda o emocionam e, quando vêm, ele prefere se apegar ao que ficou de bom. O tempo levou os rostos, mas preservou o afeto.
Mesmo após uma vida inteira de trabalho, ele não é um homem parado. Ocupa os dias com pequenos consertos: cuida da casa, mexe em objetos, encontra formas de se manter ativo. Como se o trabalho ainda fosse, de alguma maneira, parte de quem ele é.
José diz, com simplicidade, que venceu. Não no sentido grandioso da palavra, mas naquilo que realmente importa para ele: construiu uma família, garantiu sustento e seguiu o caminho que escolheu. Diante de tudo o que enfrentou, isso não é pouco. É tudo.
Sua história é silenciosa, construída na repetição dos dias e na força de continuar. A perda dos pais não definiu seu fim, embora tenha marcado um percurso difícil. Ao longo dos anos, ele transformou a ausência em resistência.
Hoje, fala do passado com menos dor e mais compreensão. Como quem sabe que, mesmo sem escolhas em muitos momentos, soube aproveitar aquelas que pôde. É nisso que se sustenta sua trajetória: não na ausência de dificuldades, mas na forma como decidiu enfrentá-las.
O silêncio, aliás, é um elemento constante. José não é um homem de muitas palavras quando se trata do passado. As pausas, os olhos marejados e as respostas curtas dizem tanto quanto qualquer relato detalhado. Há memórias que não se traduzem facilmente, não por falta de lembrança, mas pelo peso que carregam.
No fim, entre lembranças que se apagam e sentimentos que permanecem, José segue com a tranquilidade de quem construiu, com as próprias mãos, um caminho possível.




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