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Do desapego ao empreendedorismo feminino: a transformação da moda circular em negócio e oportunidade de renda

De bazares domésticos a negócios estruturados, empreendedoras encontram espaço em um mercado movido por consumo consciente, curadoria, peças exclusivas e reaproveitamento de roupas


Depois de mais de 20 anos no comércio, Neusa May Alves transformou um bazar em um negócio de moda circular, com curadoria, consignação e relacionamento com clientes e fornecedoras | Crédito da foto: Ana Bonini
Depois de mais de 20 anos no comércio, Neusa May Alves transformou um bazar em um negócio de moda circular, com curadoria, consignação e relacionamento com clientes e fornecedoras | Crédito da foto: Ana Bonini

 Por Ana Bonini | Agência Abre Aspas


Antes de chegar às araras, uma peça passa por várias etapas. Ela é recebida, avaliada, higienizada, passada, fotografada, cadastrada em sistema e divulgada nas redes sociais. Só depois desse percurso fica disponível para venda. A rotina mostra um trabalho que vai além da imagem tradicional associada aos brechós. Cada item exige gestão, curadoria, relacionamento com fornecedoras e conhecimento de mercado.

 

Antes de chegar às araras, uma peça passa por várias etapas. Ela é recebida, avaliada, higienizada, passada, fotografada, cadastrada em sistema e divulgada nas redes sociais. Só depois desse percurso fica disponível para venda. A rotina mostra um trabalho que vai além da imagem tradicional associada aos brechós. Cada item exige gestão, curadoria, relacionamento com fornecedoras e conhecimento de mercado.

 

“Eu falei que queria 20 dias de folga para descansar até começar a pensar em outra coisa. Foi quando comecei a seguir alguns brechós, um de Cascavel, que eu já conhecia, e outros de fora. Resolvi fazer um bazar numa sexta-feira à noite. Aluguei duas araras, emprestei uma da minha vizinha, fiz o bazar e foi superlegal. Veio bastante gente e deu um lucro bem bacana”.

 

O que seria uma experiência pontual acabou se transformando em negócio. Na semana seguinte, Neusa decidiu continuar. A trajetória construída no varejo ajudou nos primeiros passos. Muitas clientes das boutiques onde ela havia trabalhado passaram a fornecer roupas para revenda, formando uma rede baseada em confiança e relacionamento.

 

EMPREENDEDORISMO FEMININO EM NÚMEROS

 

A história da empresária acompanha uma tendência observada no Paraná. Dados do Sebrae mostram que Cascavel tem 32.455 empresas ativas lideradas por mulheres, o equivalente a 45,7% dos negócios existentes no município. Desse total, 90% são pequenos negócios. O segmento de moda e confecção aparece entre os que concentram maior participação de empresárias.

 

No cenário estadual, o Paraná conta com mais de 909 mil empresas, lideradas por mulheres, responsáveis por 45,2% dos empreendimentos ativos. Entre elas, 90,8% são pequenos negócios. A área de moda e confecção representa 10,9% do empreendedorismo feminino paranaense.

 

Embora os números indiquem crescimento, a construção de um negócio próprio ainda envolve desafios. Para Neusa, a principal dificuldade não esteve relacionada à venda das Embora os números indiquem avanço, a construção de um negócio próprio ainda envolve desafios. Para Neusa, a principal dificuldade não estava na venda das peças, mas na mudança de rotina.

 

Acostumada a trabalhar em lojas, com horários definidos e contato diário com colegas, ela precisou se adaptar à realidade de empreender sozinha. Também passou a administrar todas as etapas do negócio, da seleção dos produtos ao controle financeiro.

 

Neusa lembra o peso desse início: “Eu era a empreendedora, a colaboradora, eu era tudo. As maiores dificuldades eram relacionadas a como fazer, porque não tinha ninguém para me explicar como funcionava um brechó”.

 

A experiência adquirida ao longo da vida ajudou nesse processo. Filha de comerciantes, Neusa cresceu em contato com vendas. Ainda criança, observava os pais trabalhando em estabelecimentos do interior. Aos 13 anos, começou a atuar diretamente no comércio. Desde então, passou por diferentes funções ligadas ao atendimento e à gestão de lojas.

 

CURADORIA, CONSIGNAÇÃO E CONTROLE

 

Essa vivência ajudou a desenvolver um olhar próprio sobre o mercado de moda. Atualmente, uma das características que diferenciam o negócio é a curadoria das peças. Nem tudo que chega ao brechó é aceito.

 

Cada item passa por uma avaliação que considera estado de conservação, qualidade do tecido, modelagem, potencial de venda e alinhamento com o perfil das clientes. Roupas desgastadas, com defeitos aparentes ou fora do padrão procurado pelo público costumam ser devolvidas às fornecedoras. O objetivo é garantir que o item chegue ao consumidor em condições adequadas de uso.

 

Além da curadoria, existe uma estrutura de gestão que muitas vezes passa despercebida por quem observa apenas o resultado final. As roupas são cadastradas individualmente, recebem códigos de controle, entram em sistemas de estoque e passam por processos de divulgação digital. Como o negócio funciona por consignação, também é necessário controlar vendas e repasses para cada fornecedora.

Segundo a gestora de projetos do Sebrae Paraná, Ana Rizzi, esse é um dos principais desafios enfrentados por empreendedores que atuam nesse segmento.

 

“Um dos maiores desafios para quem trabalha com peças únicas e estoque variável é justamente equilibrar criatividade com gestão. Muitas vezes, o negócio cresce rápido no digital, mas precisa estruturar processos, organização de estoque, precificação e previsibilidade financeira”.

 

CONSUMO CONSCIENTE E NOVOS HÁBITOS

 

A necessidade de profissionalização acompanha o crescimento do próprio mercado de moda circular. Nos últimos anos, os brechós deixaram de ocupar um espaço restrito e passaram a atrair públicos diversos. Parte dessa transformação está relacionada às mudanças nos hábitos de consumo.

 

Se antes a compra de roupas usadas era associada principalmente à economia, hoje outros fatores passaram a influenciar a decisão dos consumidores. Exclusividade, qualidade, acesso a marcas conhecidas e preocupação ambiental ganharam peso nessa escolha.

 

A enfermeira Sinara Bonini é uma das clientes que passaram a incorporar os brechós à rotina de consumo. Ela conta que começou a procurar preços mais acessíveis, mas encontrou outros atrativos ao longo do tempo.

 

Sinara resume a percepção: “Eu acredito que a compra em brechó, além de ser um consumo consciente, é uma forma de movimentar pequenos empreendedores. Eu percebi que conseguia comprar peças de qualidade, muitas vezes de marcas que eu encontraria com um valor até quatro vezes mais alto”.

 

A gestora Ana Rizzi avalia que o consumidor contemporâneo busca mais do que produtos.

 

“Hoje o consumo está muito mais conectado com propósito, identidade e experiência. E as mulheres têm conseguido transformar isso em marca, em comunidade e em posicionamento”.

 

Essa mudança de comportamento também ajuda a explicar a expansão dos pequenos negócios liderados por mulheres em nichos específicos. “Existe uma conexão muito forte entre autenticidade, relacionamento e construção de marca com significado. Isso gera identificação real com o consumidor”. No caso dos brechós, a transformação ocorreu de forma acelerada nos últimos anos.

 

“A moda circular e os brechós cresceram muito, principalmente após a pandemia. As pessoas passaram a olhar mais para consumo inteligente, exclusividade, reaproveitamento e sustentabilidade. O brechó deixou de ser visto apenas como alternativa econômica para se tornar comportamento de consumo e posicionamento de estilo”.

 

A FORÇA DO DIGITAL


A internet teve papel importante nesse processo. Para pequenos negócios, as redes sociais reduziram barreiras de entrada e ampliaram possibilidades de alcance. Empreendedores passaram a divulgar produtos, construir comunidades e fortalecer a identidade das marcas sem depender exclusivamente de pontos físicos.

 

“O digital mudou completamente o jogo para os pequenos negócios de moda. Hoje uma marca pequena consegue criar desejo, construir comunidade e vender para diferentes cidades sem precisar de uma grande estrutura física”.

 

No N Coisas Brechó Premium, a presença digital faz parte da rotina. As peças são fotografadas, publicadas e apresentadas ao público por meio das redes sociais. O trabalho de divulgação complementa a experiência presencial e amplia a visibilidade do negócio.

 

Ao mesmo tempo, o crescimento da moda circular dialoga com discussões mais amplas sobre sustentabilidade e reaproveitamento. A indústria da moda figura entre os setores que mais estimulam a renovação constante do consumo. Coleções são lançadas em intervalos cada vez menores, tendências mudam rapidamente e produtos permanecem menos tempo em uso.

 

Nesse cenário, modelos baseados na reutilização de roupas ganham espaço como alternativa capaz de prolongar a vida útil das peças e reduzir desperdícios.

 

Mais do que acompanhar uma tendência, pequenos negócios como o de Neusa ajudam a criar novas possibilidades econômicas para produtos que, de outra forma, permaneceriam esquecidos em armários.

 

A moda circular envolve mais do que desapego. Ela reúne planejamento, curadoria, relacionamento com clientes, gestão e adaptação constante às mudanças de mercado.

 

Em Cascavel, onde mais de 32 mil empresas são lideradas por mulheres, iniciativas como a de Neusa mostram como experiências pessoais podem se transformar em trabalho, renda e novas formas de consumo. Entre araras, etiquetas, fotos e conversas com clientes, o brechó deixa de ser visto como improviso e passa a ocupar outro lugar: o de negócio organizado, ligado ao reaproveitamento e sustentado por mulheres que encontram, no que já existe, uma forma de seguir empreendendo.

 


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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