Além do padrão: Yanca Costa disputa espaço no surfe brasileiro
- Heloyse Anjos

- há 2 dias
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Mesmo campeã brasileira de surfe, a cearense enfrenta barreiras de patrocínio e visibilidade, expondo a disputa por reconhecimento em um esporte moldado por padrões estéticos e raciais

Por Heloyse Anjos | Agência Abre Aspas
O silêncio que antecede a série de ondas na Praia de Icaraí, em Caucaia, no Ceará, ou nos dias de mar no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, é um dos poucos momentos em que Yanca Costa parece não precisar disputar espaço. Quando deita o peito sobre a prancha, rema com força e desce uma onda pesada, tudo depende da leitura do mar, da técnica e da coragem. Dentro d'água, o surfe parece mais direto. Fora dela, a disputa é outra.
Yanca é mulher, nordestina e negra. Em 2020, em meio às adversidades de um ano atípico para o esporte mundial, ela alcançou o topo do país ao se consagrar Campeã Brasileira de Surfe Profissional. No papel, nas estatísticas oficiais e nos pódios aprovados, ela provou ser a melhor surfista em águas nacionais. Na engrenagem comercial e publicitária do esporte, no entanto, a história ganha contornos de exclusão e silenciamento.
A trajetória de uma campeã no Brasil não se resume a enfrentar as adversidades do mar. Em muitos casos, passa também pela disputa por reconhecimento fora dele. Um exemplo citado na reportagem é Silvana Lima, um dos maiores nomes do surfe brasileiro e duas vezes vice-campeã do Circuito Mundial, em 2008 e 2009. Em participação ao podcast Fala Papah, a atleta relatou as dificuldades que enfrentou para conseguir apoio financeiro devido à sua orientação sexual. “No começo foi muito difícil, foram vários nãos que eu tive de marcas, né, de ver matérias de empresas grandes de dizer que não iam patrocinar nenhuma atleta que realmente gostasse do mesmo sexo. Isso de empresas de dentro do próprio surfe, e isso me deixava triste”, desabafou a surfista.
DE CAUCAIA AO TOPO DO BRASIL
A trajetória de Yanca Costa não se desenvolveu de forma linear. Ela iniciou no esporte por influência familiar, construindo uma base afetiva que se mantém como o principal pilar de sua carreira até hoje. Aos 9 anos de idade, a cearense já dava os seus primeiros passos no universo das competições.
Sua evolução precoce logo colidiria com a centralização dos investimentos e da cobertura midiática no eixo Sudeste, principalmente entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Em busca de melhores condições para o desenvolvimento da carreira esportiva, Yanca tomou a iniciativa e fez com que toda a sua família se mudasse para o Rio de Janeiro. A decisão estratégica visava garantir que seu trabalho ganhasse visibilidade no mercado nacional.
Essa migração expôs a necessidade de deslocamento geográfico para obter validação profissional, mas a adaptação técnica e a frequência nos principais campeonatos resultaram na conquista do título nacional de 2020. Para além das notas dos juízes, a relação com o mar possui uma dimensão pessoal e de equilíbrio essencial na vida da atleta, conforme ela mesma relata. “Minha relação com o surfe é muito familiar. Até hoje, o que me motiva é minha família e minha felicidade, o resto é consequência. Eu aprendi que o surfe cura de verdade. Ele me salvou de tanta coisa… A gente deu uma brigada um tempo, mas fizemos as pazes e hoje em dia é o lugar que amo. É minha casa”, afirma a atleta.

RACISMO ESTRUTURAL
“Eu prefiro acreditar que a cor da pele não define o talento de um atleta, mas reconheço que o racismo estrutural ainda influencia a modalidade. Eu queria que vivêssemos em um mundo em que atletas se inspirassem em atletas, e não pela cor”, diz Yanca. Os preconceitos reproduzidos por gerações se materializam de forma prática no esporte, afetando diretamente as oportunidades e a visibilidade de atletas negros, embora haja tímidos avanços na representatividade.
Ao falar sobre patrocínios e assimetrias no surfe a partir do recorte racial, Yanca adota uma postura reflexiva. Para ela, o preconceito nem sempre aparece de forma direta, mas atravessa relações, escolhas de mercado e ambientes familiares que formam parte do circuito esportivo.
Essa dinâmica interfere na presença de atletas negros nas praias e nas competições. Durante a infância, Yanca tinha poucas referências parecidas com ela no surfe. Esse cenário mudou, mas o reconhecimento comercial ainda não acompanhou a presença de atletas negros no mar. A surfista também aponta diferenças entre quem compete profissionalmente e quem atua como free surfer, já que cada trajetória exige formas distintas de apoio, imagem e mercado.
Para enfrentar o isolamento e mapear talentos muitas vezes ignorados pela indústria, surgiram redes de apoio e articulação de alcance nacional. É o caso do Movimento Surfistas Negras, fundado por Érica Prado. A ex-surfista profissional, jornalista, produtora audiovisual e comentarista da World Surf League (WSL) utiliza sua bagagem nos bastidores do esporte para analisar como o mercado opera na exclusão dessas atletas.
Transitando entre a prática esportiva e a cobertura de mídia, Érica aponta que a falta de patrocínio não é um caso isolado, mas sim o resultado de uma repetição deliberada de barreiras comerciais. Segundo ela, as marcas frequentemente utilizam justificativas padrão para limitar ou simplesmente vetar a presença de mulheres negras em ações publicitárias e editoriais, preferindo manter a estética embranquecida tradicional do surfe business.
Érica atua na interface entre a prática esportiva e a cobertura de mídia, tendo criado o coletivo a partir da reiteração de barreiras comerciais e desculpas corporativas que limitavam a presença de mulheres negras em ações publicitárias e editoriais.

O CENÁRIO NO MERCADO
A criação do movimento alterou parte da conversa sobre mercado, porque tirou das marcas a justificativa de que faltariam referências de surfistas negras. Ao reunir nomes, fotos e informações sobre atletas, o grupo passou a organizar uma base de visibilidade para mulheres negras no surfe. "O principal problema que eu identifiquei na época foi a falta de visibilidade e de oportunidade. Já cansei de ir a alguns lugares e ser a única mulher preta, a única surfista negra, e a justificativa era sempre a mesma: "Ah, a gente não conhece outras surfistas negras'. A partir do momento em que existe um movimento que reúne fotos e informações, essa desculpa acaba. Até 2019, as pessoas tinham medo de falar sobre racismo no surfe, ficavam encolhidas. Depois do surgimento do movimento, o cenário mudou um pouco", afirma Érica.
A falta de investimento compromete a permanência e a evolução das carreiras. Segundo Érica, uma surfista precisa viajar, disputar campeonatos, comprar equipamentos, cuidar do preparo físico e ter suporte emocional para competir em alto nível. Sem patrocínio, talentos deixam de circular nos eventos e perdem oportunidades de crescimento.
"As surfistas que menos têm patrocínio e oportunidade são justamente as negras, as não brancas. Isso é bem nítido, é bem latente, e acaba limitando talentos. Uma surfista, para se desenvolver na carreira, precisa viajar, participar de campeonatos e ter uma estrutura profissional fora d'água para estar bem física e mentalmente", declara.
INVESTIMENTO FINANCEIRO
A trajetória recente de Yanca Costa exemplifica o impacto direto do investimento estruturado na carreira de uma atleta de alto rendimento. No surfe profissional, os patrocínios são fundamentais para custear viagens, inscrições em campeonatos, equipamentos, preparação física e outras despesas essenciais à manutenção da carreira. A ausência desse suporte financeiro limita a participação em competições e reduz as oportunidades de desenvolvimento esportivo.
Os reflexos da falta de incentivo aparecem na oscilação da participação feminina brasileira no circuito internacional. O Movimento Surfistas Negras aponta que a presença de competidoras do país nas etapas qualificatórias da World Surf League (WQS) sofreu redução em períodos de menor suporte financeiro nacional. Posteriormente, o cenário apresentou tentativas de recuperação. Na mesma época, a Confederação Brasileira de Surf estabeleceu a equiparação das premiações oficiais entre as categorias masculina e feminina.
Érica avalia que a mudança de patamar financeiro de Yanca ajuda a mostrar como talento precisa caminhar com oportunidade. "A Yanca é um exemplo prático de que, com investimento, você vai longe. Ela saiu do Ceará, enfrentou a falta de patrocínio e ascendeu. Hoje viaja o mundo com patrocínios pontuais, vivendo do esporte. É a prova de que, quando há talento e acesso, é possível chegar longe", afirma.
Mais do que uma história individual de sucesso, a trajetória de Yanca ajuda a discutir quem consegue permanecer no surfe profissional brasileiro. O caso mostra que diversidade no esporte depende de talento, sim, mas também de oportunidades, investimento e acesso real a condições de trabalho. Sem isso, muitas atletas seguem disputando ondas dentro do mar e espaço fora dele.




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