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A linha tênue entre o cuidado e a despedida

Em um lar de passagem, Eni Castorina oferece presença e afeto a crianças que vivem entre a ruptura e um novo caminho 


Na casa de Eni, crianças e adolescentes encontram um espaço de cuidado e convivência familiar | Crédito da foto: Eduarda Goes
Na casa de Eni, crianças e adolescentes encontram um espaço de cuidado e convivência familiar | Crédito da foto: Eduarda Goes

Por Eduarda Goes | Agência Abre Aspas


A porta da casa de Eni Castorina se abre para chegadas que quase nunca são simples. Quem entra ali não traz apenas uma mala ou algumas roupas, carrega histórias interrompidas, vínculos quebrados e, muitas vezes, silêncios que nem sempre encontram palavras. As crianças chegam sem saber por quanto tempo vão ficar. Eni, mesmo depois de anos no acolhimento familiar, também nunca sabe exatamente quando será a despedida.


Há mais de sete anos, ela transformou o próprio lar em um espaço de cuidado, convivência e estabilidade. A casa, que antes seguia uma rotina comum, passou a se reorganizar a cada nova chegada: horários, hábitos e afetos precisam se adaptar a quem chega, na maioria das vezes, fragilizado. Ali, o que pode parecer simples ganha outro peso. Uma refeição no horário certo, um lugar para dormir, alguém que escuta, alguém que permanece. Pequenos gestos que, para muitas dessas crianças, deixam de ser mera rotina e se tornam reconstrução.


"Eu entrei no acolhimento sem saber exatamente como seria. Com o tempo, fui entendendo o quanto isso é importante para as crianças", conta Eni. Ao longo desse período, cinco crianças e adolescentes passaram pela sua casa. Todos a chamavam carinhosamente de "Vó".


O primeiro acolhido permaneceu por três anos, entre 2019 e 2022. "Quando fez 18 anos, seguiu a vida dele. Foi um tempo longo, acompanhamos o amadurecimento. Hoje, perdemos contato, mas sempre penso que ainda vou encontrá-lo", lembra. Depois, veio um menino que ficou por dois anos, de 2022 a 2024. "Ele foi para outra família, mas até hoje mantemos contato", conta.


Em outro momento, Eni acolheu duas crianças pequenas ao mesmo tempo. A passagem foi breve: a menina permaneceu por três meses e, depois, o menino ficou apenas um mês, no final de 2024. Ambos conseguiram retornar à família de origem. "Foi diferente, mais rápido... mas a gente também se envolve", afirma.


A experiência mais recente, vivida entre fevereiro de 2025 e abril de 2026, ainda é a mais sensível. "O último chegou com um aninho e ficou um ano com a gente. Foi o que mais mexeu comigo, porque nos apegamos muito", relata.


Cada história foi diferente, mas nenhuma foi passageira por completo. De alguma forma, todas permaneceram.

O QUE É O ACOLHIMENTO FAMILIAR


O acolhimento familiar é uma medida de proteção prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), entre os artigos 34 e 36, aplicada quando crianças e adolescentes precisam ser afastados temporariamente de suas famílias em razão de violação de direitos, como negligência, maus-tratos, violência física ou sexual, abandono ou uso de substâncias ilícitas por responsáveis.


Segundo a assistente social Mary Weber, responsável pelo programa, o acolhimento é considerado uma medida excepcional, adotada apenas após esgotadas todas as possibilidades de permanência da criança no ambiente familiar. "Crianças e adolescentes expostos a situações de vulnerabilidade podem apresentar dificuldades de sociabilidade e de confiança, em razão da falta de referência familiar segura, além de dificuldades de aprendizagem. Em alguns casos, principalmente entre adolescentes, a exposição à violação de direitos pode desencadear sofrimento psíquico, autolesão e contato com drogas", explica.


Diferentemente da adoção, não há promessa de permanência. A guarda é provisória e se mantém enquanto a Justiça define os próximos caminhos: o retorno à família de origem, o encaminhamento para adoção ou, em alguns casos, a permanência prolongada no sistema de proteção. O próprio ECA estabelece, no artigo 19, que toda criança tem direito a ser criada no seio familiar, sendo o acolhimento institucional ou familiar uma medida excepcional e provisória.


Em Cascavel (PR), esse modelo tem ganhado força. Atualmente, o município conta com 78 famílias acolhedoras e 153 crianças e adolescentes acolhidos, segundo dados da Câmara Municipal. O programa existe desde 2006 e busca oferecer atendimento mais individualizado, priorizando a convivência familiar e a reinserção na família de origem. O reconhecimento ultrapassa o cenário local: Cascavel é considerada referência nacional no Programa Família Acolhedora, reunindo um dos maiores números de famílias cadastradas no país, conforme apontam dados do Ministério do Desenvolvimento Social.


A proposta rompe com a lógica tradicional da institucionalização. Em vez de crescerem em abrigos ou casas-lares, crianças e adolescentes passam a viver em residências comuns, inseridos em rotinas familiares, com atenção individualizada e convivência cotidiana.

UM MODELO QUE AINDA NÃO É REGRA


Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que cerca de 30 mil crianças e adolescentes vivem em serviços de acolhimento no Brasil. Desse total, aproximadamente 96% permanecem em instituições, abrigos e casas-lares, enquanto apenas 4% estão inseridos em famílias acolhedoras. Os números apontam para um modelo ainda concentrado em espaços coletivos, apesar dos avanços registrados nas últimas décadas.


Segundo o Diagnóstico do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), elaborado pelo CNJ, 62,9% das crianças permanecem acolhidas por até um ano. Outras ultrapassam esse período, algumas por vários anos, em situação de indefinição jurídica e afetiva. Apenas 8% estão aptas à adoção, o que reforça o caráter transitório, mas muitas vezes prolongado, dessa medida. A idade média no momento do acolhimento é de 8 anos e 7 meses. Além disso, 33% são adolescentes e 12% têm até um ano de vida quando entram no sistema.


A importância do ambiente familiar também aparece na experiência prática de quem acompanha o acolhimento de perto. Para Mary Weber, o acolhimento familiar vai além da proteção imediata e contribui diretamente para o desenvolvimento infantil. "O acolhimento familiar possibilita cuidado e atenção individualizados, além de manter uma rotina familiar, evitando a institucionalização. O cuidado familiar é indispensável para o desenvolvimento de crianças e adolescentes, especialmente na primeira infância, para que possam receber estímulo, cuidado e afeto, fundamentais para o desenvolvimento em todos os aspectos da vida", afirma.


Mary Weber também destaca o papel do acolhimento na superação de experiências anteriores. "Ao oferecer um ambiente seguro, estável e acolhedor, a família acolhedora possibilita que a criança ou adolescente ressignifique experiências dolorosas, reconstrua vínculos de confiança e desenvolva sentimentos de pertencimento e proteção", explica.


VÍNCULO


Uma das questões mais recorrentes entre famílias acolhedoras envolve exatamente a construção de afeto nas relações: como criar amor sabendo que haverá despedida?


"Eles falam que a gente não pode se apegar, mas não tem como. A convivência, o dia a dia, o carinho... o amor vem sozinho, como se já fizesse parte da família", diz Eni.

A ideia de que vínculos temporários causam mais sofrimento do que benefício ainda gera dúvidas. No entanto, psicólogos do desenvolvimento infantil e profissionais da área de acolhimento apontam que a ausência de afeto pode ser ainda mais prejudicial. Relações consistentes são fundamentais para o desenvolvimento emocional de qualquer criança, ajudando a construir segurança, confiança e capacidade de vinculação futura. Para crianças afastadas de suas famílias de origem, essa referência torna-se ainda mais essencial.

DESPEDIDAS


Todas as despedidas foram difíceis. Mas a última foi a que mais abalou Eni. Diferentemente das anteriores, em que as crianças já eram maiores e foi possível manter algum tipo de contato, dessa vez havia também a consciência de que o vínculo, com o tempo, se perderia. Aos dois anos, a criança provavelmente não guardaria lembranças daquele período. O apego, no entanto, foi inevitável. Desde a chegada, ainda bebê, a convivência diária construiu um vínculo profundo, formado nos gestos simples do cuidado: o colo, a rotina, a presença constante.


Quando a notícia da adoção chegou, veio acompanhada da urgência. Foram poucos dias para assimilar a despedida. A saída deixou marcas pela casa. Roupas, brinquedos e objetos que faziam parte do cotidiano permaneceram, agora carregados de sentido. Entre eles, uma cobertinha, o "cheirinho", que Eni não conseguiu entregar.


No dia da despedida, a emoção rompeu qualquer preparo. Ao ver o carro da família adotiva chegar, enquanto a criança ainda dormia, Eni reconheceu que aquele seria o momento final. O choro veio sem contenção, e o peso da separação se impôs de forma concreta. Sem conseguir conduzir a despedida até o fim, Eni precisou se afastar. Foi a filha quem fez a entrega. Ela conseguiu apenas um gesto breve: um beijo e uma bênção. "Meu coração foi junto".

PRESENÇA


O acolhimento não é punição. É proteção. Não é sobre substituir a família de origem, nem antecipar uma adoção. É sobre garantir que, enquanto o futuro é decidido, nenhuma criança precise enfrentar esse tempo sozinha.

Entre dados, histórias e despedidas, o acolhimento familiar se constrói em algo menos visível e, talvez, mais essencial: a presença. Em um cenário marcado por rupturas e incertezas, a convivência temporária com uma família acolhedora representa cuidado, escuta e a possibilidade de manter vínculos afetivos durante um período de transição.


Não se trata de permanecer para sempre, mas de assegurar que, durante esse percurso, crianças e adolescentes encontrem proteção, pertencimento e referências capazes de tornar esse processo menos solitário.




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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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