A banca onde Cascavel ainda se encontra
- Lucas Lobo

- há 19 horas
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Revistaria Edson resiste à queda das bancas, diversifica produtos e transforma a troca de figurinhas em ponto de encontro entre gerações

Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas
As fontes da Praça do Migrante formam um arco-íris discreto atrás das bandeiras dos estados brasileiros. A poucos metros dali, no balcão da Revistaria Edson, pacotes de figurinhas são abertos enquanto jornais, revistas, sorvetes, impressões e pequenos serviços dividem espaço no mesmo negócio. O sábado de outono mistura sol, frio e movimento no centro de Cascavel, mas o que sustenta a cena não é só a nostalgia: é a tentativa diária de uma banca de 1990 continuar vendendo em um mercado que mudou.
Em ano de Copa, a troca de figurinhas transforma a praça em ponto de encontro. Quem chega procura cromos repetidos, compara listas e conversa com desconhecidos. Para a banca, esse ritual também tem função econômica: aumenta o fluxo, puxa outras vendas e mostra como um produto sazonal pode ajudar um pequeno comércio a enfrentar períodos de menor movimento.
Enquanto algumas crianças correm pelo gramado, adultos conferem as imagens que ainda faltam nos álbuns. A coleção é o motivo imediato, mas o efeito vai além da compra: famílias permanecem na praça, clientes antigos retornam ao balcão e a revistaria ocupa um espaço que as telas não substituíram por completo. “Você acaba entrando em contato com muitas pessoas. Além disso, é bom para sair um pouco do celular e dedicar o tempo a outras coisas, viver mais a troca com outras pessoas. Sem contar o aspecto de colecionar, que é algo muito interessante e ainda proporciona bastante aprendizado e conhecimento”, comenta João Victor Gonçalves, estudante de engenharia de software, de 21 anos, que está fazendo seu primeiro álbum de figurinhas e frequenta os encontros de trocas.
É nesse ponto que a tradição deixa de ocupar o lugar da lembrança e passa a funcionar como estratégia de sobrevivência. Em uma época de consumo mediado por aplicativos e redes sociais, o negócio ainda depende do encontro, da conversa direta e da capacidade de fazer do balcão uma ponte entre gerações.
“Na época de Copa, passam 20 vezes mais pessoas do que nos dias tradicionais. Aumenta muito, é o mês em que a gente mais ganha dinheiro. É a hora de ganhar dinheiro”, comenta Márcia Estevão, funcionária da loja desde 1995, cinco anos após a inauguração, e uma das pessoas que acompanharam a construção do empreendimento.
A consultora do Sebrae/PR Ana Rizzi, que atua com iniciativas de comércio de rua, afirma que produtos sazonais, datas comemorativas e movimentos culturais podem movimentar o comércio local quando o negócio aproveita o fluxo para oferecer outros produtos e serviços.
Apesar do entusiasmo, a cena contrasta com a realidade enfrentada por bancas e outros pequenos negócios ligados a produtos impressos em tempos de digitalização. A sazonalidade e a espontaneidade do álbum de figurinhas ajudam no caixa, mas não bastam para conter, sozinhas, as mudanças nos hábitos de consumo que reduziram o espaço dos jornais e revistas impressos.
PRIMEIRA PÁGINA
A Revistaria Edson ocupa um lugar simbólico no coração do município. Próxima ao marco zero de Cascavel, a Praça Getúlio Vargas, onde a cidade começou a se formar há pouco mais de 70 anos, a banca atravessa décadas como ponto de referência da região central. Desde 1990 está ali, no mesmo lugar: Avenida Brasil, número 7538. “Aqui é a área central, então sempre tem movimento. Sempre teve pessoal da calçada, cliente de longe, cliente de fora, de outras cidades”, relata Márcia sobre o ponto escolhido para o comércio.
Ao ser perguntada sobre o início da banca, Márcia responde sem romantizar. “No começo era só sustento mesmo. Só um trabalho, nada mais do que isso”. A resposta ajuda a entender que a banca nasceu como possibilidade de renda, antes de se tornar referência afetiva na cidade. Não partia necessariamente de um sonho ou de um projeto idealizado, mas de uma oportunidade de trabalho em um ponto de circulação.
Esse tipo de negócio fazia parte do cotidiano, especialmente pelo acesso à informação por meio dos jornais impressos. “Na época em que abriu, tinha muitas bancas na cidade. Era hábito, era de costume ter bancas em todo o centro, na Avenida Brasil toda. Até hoje acho que é a única ainda que está aberta, as outras foram fechando”, completa. Em reportagem publicada pelo G1 em 2019, com base em dados do Sinjor-PR, o número de bancas de jornais no Paraná havia sofrido redução de 45% em relação à década anterior. No momento da pesquisa, eram 3.875 estabelecimentos em funcionamento no estado.
JORNALEIRO DIGITAL
Embora tenha presença simbólica na formação da cidade, a Revistaria Edson se depara com uma consequência comum do nosso tempo: a adequação ao digital. Para um empreendimento marcado por contornos analógicos, pautado na interação tátil com o papel, distante de telas e preservado no odor de um livro nunca aberto, a mudança produz uma tensão maior.
Antes, quem queria jornal, revista, álbum ou passatempo passava pela banca. Hoje, parte desse consumo migrou para o celular, enquanto outros produtos voltaram a ganhar procura por influência das redes sociais. A informação chega mais rápido, mas o gesto de escolher, tocar e conversar ficou mais raro.
Os desafios de comércios dessa categoria são variados diante desse novo momento. Para Ana Rizzi, a sobrevivência dos pequenos negócios depende da capacidade de adaptar canais sem perder a relação com o cliente. “Muitos empresários ainda enfrentam dificuldades com presença digital, uso de tecnologia, gestão de dados e até mesmo entendimento do novo comportamento do consumidor. O cliente mudou: ele pesquisa antes, compara preços, busca experiência, conveniência e conexão. E o pequeno negócio precisa aprender a competir em relacionamento, posicionamento e experiência”. No caso da Revistaria Edson, a adaptação ao digital aparece, sobretudo, como canal de contato, e não como espaço de interação contínua. A página no Instagram chegou a atualizar, em 2025, produtos e serviços oferecidos, mas a estratégia perdeu ritmo pouco depois.
Esse vaivém entre telas e papel também aparece entre consumidores que ainda procuram produtos analógicos. Em alguns casos, o interesse por itens físicos nasce ou cresce nas redes sociais. Tendências digitais ditam modas e, por consequência, produtos mais procurados, que muitas vezes podem ser encontrados em bancas, como ocorreu recentemente com livros de colorir e, historicamente, com o card game da franquia Pokémon. Tudo isso reforça a necessidade de o comerciante acompanhar os pontos de interesse do consumidor. “É legal olhar as ‘novidades’ de mangás e HQs, o que está sendo promovido naquele momento específico e até as capas de revistas ‘normais’”, comenta Raphael Giovanni, profissional da área de desenvolvimento de jogos, nascido em Cascavel e frequentador da banca desde o final dos anos 1990.
Raphael diz que ainda compra presencialmente quando o produto não compensa a espera da entrega pela internet. “Hoje em dia, o que eu compraria seria só palavra cruzada e cigarro, mas com certeza iria olhar a banca toda e talvez querer alguma HQ ou mangá. É muito mais fácil ir comprar presencialmente”.
A pandemia de Covid-19 também afetou o consumo de produtos físicos no começo da década de 2020. O distanciamento que já se formava pela digitalização passou a ser uma exigência sanitária, o que atingiu diretamente negócios baseados na circulação de pessoas e na compra presencial.
Márcia conta que, no período, o consumo de jornais, que já diminuía, foi prejudicado. “Quando houve a pandemia, fecharam muitas editoras. Quando passou, essas mesmas editoras não voltaram. Então, a gente tinha uma média de, sei lá, 50 ou 60 editoras trabalhando muito, com muita publicidade. Hoje não tem mais nenhuma”. A consequência foi a necessidade de se reinventar e operar sob uma nova lógica, considerando novos consumos, consumidores e produtos.
REINVENÇÃO
“Se tivéssemos ficado na expectativa apenas de revistas e publicidade, nós já tínhamos fechado todas as portas. Então, a gente teve que agregar tabaco, sorvete, serviço de impressão, tecnologia, produtos de todos os tipos que você possa imaginar”, relata
Márcia sobre a maneira de lidar com as diferenças que o tempo produziu no consumo. Segundo ela, a primeira saída foi incorporar itens de papelaria. Depois vieram produtos de conveniência, alimentos e serviços procurados no cotidiano de quem circula pelo centro.
Para pequenos negócios, depender de um único produto aumenta o risco. No caso da Revistaria Edson, a saída foi ampliar o mix sem abandonar a identidade de banca. Se o comprador procura uma experiência e se o consumo muda com rapidez, ficar preso a um único nicho tende a ser uma decisão arriscada.
A Revistaria Edson, referência do centro cascavelense, conta com um diferencial: a ambientação. A entrada reúne adesivos para veículos e livros institucionais ao lado do freezer de sorvetes. A porta abre a vista para prateleiras de revistas, jornais, livros, mangás, álbuns e outros produtos incorporados à estratégia de permanência.
Além da diversificação dos produtos vendidos, a manutenção do espaço depende da presença da banca no imaginário cultural da cidade, movimento que se renova a cada quatro anos com a chegada da Copa do Mundo.
A consultora Ana afirma que uma maneira de pequenos negócios competirem com empresas maiores é investir em proximidade. Quando não podem disputar em escala, relacionamento e confiança passam a ser estratégia. Décadas depois da inauguração, a Revistaria Edson permanece aberta também por causa da relação cultural que estabeleceu com moradores de Cascavel.
REACENDER DA COPA
Mesmo em um momento de incerteza sobre a seleção brasileira, a Copa do Mundo mantém força para ativar rituais de consumo. Na banca, o álbum de figurinhas transforma a compra em encontro: abrir pacotes, trocar repetidas, procurar o cromo que falta e conversar com desconhecidos. O valor comercial da temporada se mistura ao valor social da praça.
Em Cascavel, a Copa reacende a interação própria de um comércio com produtos táteis e leva movimento a um segmento que perdeu espaço com a digitalização. “A troca de figurinhas socializa as pessoas. Elas precisam conversar, procurar, ir de uma família a outra. Assim, fazem amizade”, relata Márcia.
A banca mudou para continuar existindo, mas preservou algo que o digital ainda não substituiu: o encontro. As mudanças tecnológicas obrigaram o negócio a se reinventar, mas não encerraram aquilo que se marcou como tradição. “Edson sempre foi a maior e melhor banca de Cascavel, acho que não mudou nada sinceramente”, diz Raphael sobre uma experiência que atravessa momentos distintos da vida dele. “Antigamente comprava decks de Yu-Gi-Oh. Ia com meu irmão mais novo. Ele comprava Turma da Mônica e eu as cartas”, finaliza.
Cada pacotinho aberto mostra que a Revistaria Edson encontrou uma forma de permanecer na cidade. O negócio já não depende só de jornais e revistas, nem vive da saudade de outro tempo. Entre álbuns, mangás, impressões, sorvetes e clientes que continuam passando pela Praça do Migrante, a banca faz história porque aprendeu a vender produtos, serviços e encontro no mesmo balcão.




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