A ascensão da autoestima preta e de sua cultura no Brasil
- André Felipe Tozzi

- há 2 dias
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Da marginalização à valorização, expressões da cultura negra atravessam moda, música, cabelo, dança e disputas por reconhecimento no país.

Por André Felipe | Agência Abre Aspas
A cultura negra sempre teve forte presença na vida social brasileira, mas nem sempre foi reconhecida de forma positiva pela mídia e pelas instituições. Por muitos anos, expressões ligadas à moda, à música, aos penteados e às manifestações artísticas negras foram alvo de estigmas, preconceitos e tentativas de apagamento. No Brasil, país marcado por desigualdades raciais e por disputas em torno da identidade, essas formas de expressão muitas vezes foram tratadas como inadequadas, perigosas ou inferiores.
Mesmo com a criação de datas voltadas à valorização da cultura negra, como o 20 de novembro, Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, feriado nacional pela Lei 14.759/2023, a descredibilização da estética e das manifestações do povo preto ainda aparece no cotidiano. Ao mesmo tempo, a circulação cultural, as redes sociais e a presença de artistas negros em diferentes espaços ampliaram a visibilidade dessas expressões, contribuindo para uma retomada da autoestima preta no Brasil.
Para compreender esse movimento entre marginalização e valorização, é preciso olhar para a história da população negra no país. A escravização, a abolição sem reparação e o racismo estrutural criaram marcas que seguem atravessando a cultura, a aparência e os modos de pertencimento da população negra.
CONTEXTO HISTÓRICO
O debate remete ao período colonial e ao tráfico transatlântico de africanos escravizados. No caso brasileiro, milhões de pessoas foram trazidas à força do continente africano entre os séculos XVI e XIX. Essa história não pode ser tratada apenas como dado do passado, porque suas consequências seguem presentes nas desigualdades sociais e na forma como a cultura negra foi reconhecida, apropriada ou rejeitada.
Segundo o IBGE, cerca de 4 milhões de africanos desembarcaram no Brasil entre os séculos XVI e XIX. Vindos de diferentes regiões do continente africano, esses povos participaram de maneira decisiva da formação cultural brasileira, influenciando a língua, a religiosidade, a música, a culinária, o corpo, a dança e outras práticas sociais.
A pesquisadora Yeda Pessoa de Castro, no livro “Falares africanos na Bahia: um vocabulário afro-brasileiro”, ajuda a compreender a presença de línguas africanas na formação do português falado no Brasil. Essa influência aparece em palavras, ritmos, formas de celebração, práticas religiosas e modos de convivência que permanecem na vida cotidiana.
Palavras, celebrações, hábitos e expressões artísticas mostram que a cultura brasileira foi profundamente atravessada por matrizes africanas e indígenas. O samba, o jongo, o maracatu, as religiões de matriz africana, a capoeira e diferentes práticas de cuidado e convivência são exemplos de heranças que resistiram apesar da perseguição histórica.
Além das influências africanas, a formação cultural brasileira também foi atravessada por matrizes indígenas, europeias e, mais tarde, por referências culturais norte-americanas difundidas pela mídia, pela música e pelo consumo.
As heranças indígenas permanecem presentes na alimentação, no conhecimento sobre plantas, em palavras incorporadas ao português e em práticas de relação com o território. Já a cultura norte-americana, especialmente a partir do século XX, passou a influenciar a música, a moda, o audiovisual e os padrões de consumo no Brasil. Nesse fluxo, manifestações negras da diáspora, como o rap, o hip-hop, as tranças e danças urbanas, chegaram também a cidades do interior, como Laranjeiras do Sul, onde atuam a trancista Kerilin Bandeira e Marlon Barbosa, dançarino, coreógrafo, palestrante e ativista da cultura hip-hop há mais de 10 anos.
ASCENSÃO DA CULTURA
Em uma época marcada pela expansão do chamado “American way of life”, referências culturais norte-americanas ganharam força no Brasil, especialmente entre as décadas de 1980 e 1990. Ao mesmo tempo, expressões afro-americanas, como o rap e o hip-hop, cresceram em espaços periféricos e passaram a influenciar jovens brasileiros. Marlon conta que começou na dança em 2016, motivado também pelo irmão mais velho, e afirma que, mesmo diante da marginalização, a comunidade da dança funciona como uma grande família, conectada pela arte.
Essa marginalização não surgiu por acaso. Durante muito tempo, manifestações ligadas ao hip-hop, ao rap, ao grafite e à pichação foram associadas à violência ou à rebeldia, especialmente por estarem ligadas a territórios periféricos. No entanto, essas expressões também funcionaram como denúncia, pertencimento e disputa por espaço em uma sociedade que historicamente tentou silenciar corpos e vozes negras.
Com a ascensão de artistas como Racionais MC’s e Sabotage, o crescimento de religiões de matriz africana e a presença de linguagens urbanas nas ruas, a cultura negra passou a ocupar espaços mais amplos. Ao mesmo tempo, enfrentou resistência de setores conservadores, que muitas vezes responderam com preconceito, repressão ou desvalorização. Kerilin, por exemplo, cita o receio de parte de sua clientela na escolha de penteados, muitas vezes por medo da reação de outras pessoas:
“Posso contar nos dedos quantos negros eu atendo, e sempre ouço das minhas clientes, mesmo sendo brancas, que têm receio de fazer e medo de sofrer preconceito pelo que as outras pessoas possam achar”.
O preconceito racial não é novidade no Brasil. Dados do Censo 2022 mostram que pretos e pardos somam mais de 112 milhões de pessoas no país. Já uma pesquisa do Instituto Locomotiva e da plataforma QuestionPro, divulgada em 2024, apontou que sete em cada dez pessoas negras já passaram por algum constrangimento por causa de preconceito ou discriminação racial. Na dança, Marlon relembra a discriminação quando começou, mas afirma que o estudo da cultura ajudou a compreender melhor esse processo: “A cultura negra do hip-hop foi fundada por afro-americanos e latinos, então, de certa forma, tornou-se uma identidade desse povo. Quando eu comecei, ainda existiam muitos dogmas e tabus, mas hoje em dia, com o estudo da cultura, as coisas ficaram mais claras”.
CONSOLIDAÇÃO
Ao longo dos anos, com a globalização e o avanço da internet, as expressões culturais negras passaram a circular com mais intensidade. No Brasil, essas manifestações se fortaleceram nas periferias e ganharam espaço no cenário mainstream da música, da dança e da moda. Penteados como tranças, dreadlocks e o uso de durags, antes associados a estigmas como “desleixo” ou “sujeira”, passaram a ser reivindicados como símbolos de identidade, estilo e pertencimento.
Kerilin vê esse avanço como algo difícil de resumir. “As tranças são um trabalho manual, que exige muitas horas para ser feito. Então, quando você vê o resultado final no rosto dos clientes, é muito satisfatório. Ainda mais em cabelos ondulados, que sempre tiveram essa visão mais complicada e sempre foram difíceis de arrumar. É indescritível”.
Símbolos culturais como as tranças e a dança vão muito além do fator estético. Eles representam autenticidade, autoestima e pertencimento. Para muitas pessoas, aproximar-se dessas expressões é também um modo de reconhecer a própria ancestralidade e de se comunicar com comunidades que compartilham experiências parecidas. Marlon lembra que a arte tem alcançado públicos maiores, mas ainda enfrenta um sistema marcado por preconceitos.
Kerilin também valoriza a aceitação dos cabelos cacheados e crespos e resume sua posição em uma frase direta: “Se não vai bancar minhas tranças, se não vai bancar meu trabalho, então não tem direito a opinião nenhuma”.
Ainda assim, o futuro parece promissor. Entre penteados, coreografias, ritmos, roupas e referências visuais, a cultura negra se mostra cada vez mais presente, inclusive em regiões marcadas por menor presença demográfica negra, como o Paraná. Na música, gêneros de origem negra, como rap, hip-hop, blues, samba e funk, seguem influenciando a dança, a moda e o comportamento. Nas ruas e nas redes, cores, lenços, estampas, roupas largas, tranças e cachos aparecem como formas de expressão e afirmação.
No fim, o recado é claro: a autoestima preta ganhou visibilidade e trouxe consigo cultura, memória e pertencimento. Como resume Marlon: “Acreditem na arte e na cultura”.




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