top of page

Vinagre de maçã: os perigos da influência digital, onde a atenção vira moeda

Atualizado: 17 de jun. de 2025

Seguidores cada vez mais engajados e influenciadores cada vez mais lucrativos em um ciclo de consumo emocional


Geração Z está habituada a usar múltiplos meios de comunicação simultaneamente, seja assistindo à TV e usando o celular ao mesmo tempo ou navegando na internet e interagindo nas redes sociais | Foto: Hallis Novak
Geração Z está habituada a usar múltiplos meios de comunicação simultaneamente, seja assistindo à TV e usando o celular ao mesmo tempo ou navegando na internet e interagindo nas redes sociais | Foto: Hallis Novak

Em 6 de fevereiro deste ano, a Netflix lançou a série Vinagre de Maçã, baseada na história real da influenciadora australiana Belle Gibson. Na capa, uma mulher com semblante sério segurava um celular nas mãos; ao fundo, recortes de comentários do Instagram e diversas fotos da mesma personagem com aparência impecável, sorrindo e demonstrando confiança.

O nome escolhido pela criadora da produção, Samantha Strauss, é explicado no último episódio da série, quando uma das personagens relata que Belle ingeria a solução por acreditar que curaria uma infecção por micose - quando, na verdade, ela confundiu o fungo com uma tênia.

Distribuída em seis episódios, a trama retrata a história real da influenciadora que afirmava ter alcançado a cura do câncer. A série reacendeu as especulações sobre o caso ocorrido entre 2009 e 2010, período em que o Instagram começava a ganhar espaço e os primeiros influenciadores digitais surgiam.

Belle passava o dia postando conteúdos em seu perfil, contando como havia se curado de um câncer no cérebro. Ela afirmava que uma alimentação adequada e tratamentos alternativos haviam eliminado a doença, e que a medicina tradicional lhe havia dado apenas dois meses de vida. Assim, em pouco tempo, a australiana acumulava milhares de seguidores no Instagram.

Disposta a ajudar seus seguidores a se curarem da mesma forma, lançou um aplicativo de receitas, no qual ensinava como preparar sua comida e quais ingredientes utilizar. O sucesso foi tanto que a empresária faturou cerca de um milhão de dólares apenas no mês de lançamento.

Por trás da narrativa de superação, na qual Belle aparentava estar cada vez mais feliz e saudável, crescia um império de manipulação e mentiras. Jornalistas investigativos desconfiaram da veracidade da história e confrontaram a influenciadora, que admitiu nunca ter tido sequer um laudo médico comprovando o tumor. Quando a verdade veio à tona, causou grande repercussão e revolta entre seus seguidores - muitos dos quais realmente enfrentavam a doença e depositaram nela a esperança de cura.

Como desfecho, Belle Gibson foi condenada pela Justiça a pagar 410 mil dólares australianos por práticas enganosas e fraudes. Apesar da penalidade financeira, nunca foi acusada criminalmente e permanece em liberdade.


O influenciador como produto


A história de Belle Gibson é um caso extremo, mas revela um comportamento comum nas redes sociais: transformar a vida em produto e a audiência em lucro. Cada vez mais, influenciadores digitais ganham destaque – especialmente, no Instagram, onde seus perfis alcançam milhões de pessoas. No Brasil, há cerca de 2 milhões de influenciadores, quase 10% da população total do país. Esses números crescem a cada dia, refletindo o interesse de quem deseja trabalhar nas redes, atraído pelas oportunidades que essas plataformas oferecem.

O acelerado crescimento do mercado de influenciadores é impulsionado pela audiência, medida pelo número de visualizações, curtidas, comentários ou cliques em links patrocinados. Para a jornalista e professora de Comunicação, Juliane Brita, o comportamento dos influenciadores e de seu público reflete características da sociedade pós-moderna.

“Quando pensamos nessa perspectiva, pensamos muito em fragmentação. Nossa atenção é fragmentada por bolhas, onde pessoas produzem conteúdos que consumimos - um comportamento típico do pós-modernismo”.

Nos meios digitais, criadores de conteúdo demonstram proximidade com seu público, compartilhando rotinas, aspectos pessoais e abrindo espaço para que seguidores opinem.

“Seguimos essas pessoas nas redes sociais e sentimos que há uma troca legítima, como se fossem nossos amigos. Mas, na realidade, essa relação é unidirecional, porque elas não nos conhecem”, observa a professora.

Como destaca Juliane, essa sensação de pertencimento pode ser ilusória e até problemática, pois mascara uma lógica de consumo que nem sempre favorece quem acompanha o conteúdo.

“Existe uma dinâmica de pertencimento, porque está posta nessa lógica social e comunicacional - mesmo sabendo que não há, de fato, uma troca. O que esses grandes influenciadores recebem é audiência, e a audiência vira dinheiro”, explica.

O preço da atenção


Na prática, a influência digital vai muito além da promoção de produtos ou marcas. Está enraizada em uma lógica de consumo de conteúdos que, muitas vezes, não agregam valor à vida de quem os consome.

“Passamos a ser como cachorros em frente ao forno de uma padaria, olhando os frangos sem poder acessá-los”, destaca Juliane, ao explicar como os influenciadores preenchem a vida dos seguidores.

A administradora Ana Karoline Nunes segue quase 1.500 pessoas em suas redes, onde busca referências para compras.

“Costumo usar Instagram e Pinterest como ferramentas de inspiração, principalmente para itens de casa e roupas.” Além de se informar, Ana admite que passa horas no celular acompanhando conteúdos e, por vezes, age por impulso: “Eu nunca preciso do produto, mas quando vejo algo da moda ou que parece útil, crio uma necessidade que, até então, não existia”.

Essa busca por pertencimento, seja ao mudar o estilo de vida ou ao comprar um produto para se sentir melhor, pode levar a endividamentos ou prejuízos.

“Já comprei um item não planejado porque senti que precisava - e isso comprometeu dinheiro de contas mensais”, conta Ana.

Segundo pesquisa da Opinion Box em parceria com a Influency.me, 80% dos consumidores brasileiros já compraram produtos indicados por influenciadores digitais. Além disso, 62% utilizaram links ou cupons fornecidos por eles. A confiança é um fator decisivo: 93% dos consumidores confiam nas recomendações dos criadores.

A professora Juliane reforça que o comportamento de Ana é comum na sociedade atual.

“Não conseguimos consumir todos os produtos que nos são oferecidos, porque vivemos uma dinâmica em que ‘você é’ a partir do que ‘você tem’, e não do que ‘você faz’. Como não podemos comprar tudo, acabamos consumindo o conteúdo. A influência negativa está justamente na forma como lidamos com o que nos é oferecido pelas redes”.

A confiança é a principal aliada na hora de oferecer produtos ou conteúdos online. Quando a credibilidade é consolidada, o influenciador acaba por fidelizar o “cliente”

“O grande produto é a nossa atenção. Compra-se o nosso deslumbramento. Preenchemos as lacunas do nosso ser com uma atenção desenfreada, como se pudéssemos absorver todas essas informações. Mas não é possível. Transformamos uma pausa de cinco minutos em três horas, indo de vídeo em vídeo, de conteúdo em conteúdo, sem reter nada. E a estrutura das redes é pensada exatamente para isso - para que você não saia do aplicativo e mantenha toda sua atenção voltada às pessoas desse círculo”, finaliza Juliane Brita.

A audiência no Instagram, quando bem construída e orientada, pode trazer resultados positivos para a sociedade: gerar renda, dar voz a projetos e causas ou impulsionar marcas iniciantes. Por outro lado, todos esses pontos podem ser utilizados de forma nociva, se não tratados com responsabilidade, transparência e foco no bem comum.



6 comentários


Willian Ricarte De Oliveira
Willian Ricarte De Oliveira
16 de jun. de 2025

Parabéns pelo Texto Hallis.

Curtir

Kariny Camilo
Kariny Camilo
12 de jun. de 2025

Parabéns pelo texto!

Curtir

Joysse Bevilaqua Rodrigues
Joysse Bevilaqua Rodrigues
12 de jun. de 2025

👏🏻👏🏻

Curtir

Daniela Dalmoro
Daniela Dalmoro
11 de jun. de 2025

👏👏👏

Curtir

Amanda Dalla costa
Amanda Dalla costa
11 de jun. de 2025

Parabéns pelo texto Hallis!!

Curtir
  • Instagram
  • TikTok

Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

©2025 - Agência Abre Aspas - Todos os Direitos Reservados

bottom of page