Quando a escola deixa de ser abrigo para estudantes LGBTQIA+
- Kamilly Felipe

- 29 de jun.
- 4 min de leitura
No Dia do Orgulho LGBT, levantamentos e decisões judiciais mostram como violência, silêncio institucional e falta de acolhimento afastam jovens da sala de aula

Por Kamilly Felipe | Agência Abre Aspas
O sinal toca. Para grande parte dos estudantes, aquele som anuncia alguns minutos de descanso, risos no pátio e conversas atravessadas entre uma aula e outra. Para muitos jovens LGBTQIA+, porém, o mesmo sinal pode marcar o início de outro tipo de intervalo: o da vigilância sobre o próprio corpo, a própria voz, o próprio jeito de existir.
Há quem saia da sala antes dos colegas para evitar comentários. Há quem escolha o caminho mais longo até o banheiro para não cruzar determinado corredor. Há quem esconda o casaco, a maquiagem, o cabelo, o nome, o afeto e até o medo, porque aprendeu cedo que a escola, lugar que deveria proteger, também pode ferir.
No Dia do Orgulho LGBT, celebrado em 28 de junho, a discussão sobre respeito e diversidade não pode ficar restrita às ruas, às redes sociais ou às campanhas coloridas. Ela precisa chegar à rotina escolar, onde adolescentes ainda são obrigados a calcular cada gesto para tentar passar despercebidos.
O MEDO NO CORREDOR
Os dados ajudam a dimensionar uma violência que muitos estudantes conhecem antes mesmo de saber nomeá-la. De acordo com a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Escolar no Brasil, realizada pela ABGLT (2016), 73% dos alunos LGBTQIA+ já sofreram agressões verbais no espaço escolar, enquanto 27% relatam ter sido vítimas de violência física em locais como corredores, pátios, banheiros e salas de aula.
O problema não está apenas no xingamento que aparece em voz alta. Ele também se instala no riso coletivo, no apelido repetido, no professor que escuta e não intervém, no funcionário que minimiza a situação e na direção que trata a dor como conflito entre alunos. Quando a escola chama violência de brincadeira, o agressor aprende que pode continuar.
A consequência aparece no boletim, nas faltas e no silêncio. Como se concentrar em uma prova quando o corpo está em alerta? Como participar de uma atividade em grupo quando a própria presença vira motivo de deboche? A queda de rendimento, a ansiedade e a vontade de não voltar para a escola não nascem do desinteresse pelos estudos. Muitas vezes, nascem do excesso de medo.
A SAÍDA PELA AUSÊNCIA
Quando a escola deixa de ser abrigo, a evasão passa a parecer uma forma de sobrevivência. Para jovens trans e travestis, essa realidade costuma ser ainda mais dura. Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Escolar no Brasil, mais de 54% desses estudantes deixam de usar o banheiro por medo. A recusa ao nome social, essa falta de banheiro seguro, o constrangimento na chamada e a exposição pública do corpo fazem com que a permanência na escola se torne uma travessia diária
O abandono dos estudos não acontece em um único dia. Ele vai sendo produzido aos poucos, na primeira piada ignorada, na primeira agressão sem resposta, na primeira vez em que o estudante entende que pedir ajuda talvez não mude nada. O estudante não simplesmente deixa a escola. Antes disso, muitas vezes, a escola deixa de recebê-lo como sujeito de direitos.
Quando esse percurso se rompe, o impacto ultrapassa os muros da instituição. Sem acolhimento escolar, diminuem as chances de acesso ao ensino superior, ao trabalho formal e a espaços de proteção. A violência que começa no corredor pode acompanhar uma vida inteira.
O DEVER DE PROTEGER
Desde 2019, por decisão do Supremo Tribunal Federal, atos de homofobia e transfobia podem ser enquadrados na Lei de Racismo até que o Congresso aprove legislação específica sobre o tema. A decisão reforça que a discriminação contra pessoas LGBTQIA+ não é opinião, piada ou divergência moral. É violação de direitos.
No ambiente escolar, esse entendimento amplia a responsabilidade das instituições. Escolas não podem se limitar a punir depois que a agressão acontece.
Precisam criar protocolos, formar professores, garantir o uso do nome social, acolher denúncias, orientar famílias e construir um espaço em que o estudante não precise escolher entre estudar e se proteger.
A educação que se omite também educa. Ensina ao agressor que o silêncio institucional tem valor de permissão e ensina à vítima que sua dor não merece prioridade. Por isso, combater a LGBTfobia nas escolas não é tema secundário nem pauta de uma data específica. É parte do compromisso básico de educar.
O DIA SEGUINTE AO ORGULHO
No Dia do Orgulho LGBT, as avenidas se enchem de cores, as marcas mudam logotipos e os discursos sobre respeito circulam com facilidade. Tudo isso tem valor, mas a prova mais difícil começa depois, quando a segunda-feira chega, o sinal toca novamente e estudantes LGBTQIA+ precisam atravessar o mesmo pátio onde já foram humilhados.
A verdadeira medida do orgulho não está apenas na festa, mas na possibilidade de uma criança ou adolescente existir sem medo dentro da escola. Está no professor que interrompe a piada, na direção que acolhe a denúncia, na família que escuta, no colega que não ri e no Estado que transforma direitos em prática cotidiana.
Enquanto o pátio não for seguro para todos, o sinal continuará anunciando uma liberdade incompleta. E uma escola que aceita perder estudantes para a violência não pode dizer que está formando cidadãos. Ela precisa, antes, aprender a proteger aqueles que ainda tentam permanecer.




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