Os pesos que Mateus Assis levanta fora do tablado
- Rayssa Farinon

- há 2 dias
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Atleta de halterofilismo, LGBTQIAPN+ e PCD, Mateus enfrenta estereótipos no esporte e transforma a própria trajetória em afirmação de pertencimento

Por Rayssa Farinon | Agência Abre Aspas
Em muitos ginásios, o som dos pesos contra o chão parece contar apenas histórias de força, disciplina e superação. Pouca gente imagina que, por trás de cada levantamento, também existam silêncios, medos e batalhas que não aparecem nas competições.
Ser atleta no Brasil já é uma rotina marcada por cobranças, falta de investimento e busca constante por reconhecimento. Para o halterofilista Mateus Assis, no entanto, o peso carregado vai além das barras de ferro. Ele também atravessa os estereótipos impostos a quem é atleta, LGBTQIAPN+ e PCD (pessoa com deficiência), ele possui mielomeningocele lombar baixa - condição que provoca uma malformação na parte inferior da coluna que afeta a medula espinhal e os nervos, podendo causar dificuldades de movimento e de controle da bexiga e do intestino, em graus variados-. Em uma sociedade que ainda tenta decidir quais corpos podem ocupar determinados espaços.
A sigla LGBTQIAPN+ é uma forma de representatividade e é formada por: L: lésbicas, G: gays, B:bissexuais, T: transgêneros, Q: queer/questionando, I: intersexo, A: assexuais/arromânticas/agênero, P: pan/poli, N: não-binárias, +: outras identidades não mencionadas diretamente, garantindo inclusão.Desde criança, Mateus percebia que havia algo diferente entre ele e os colegas. Não sabia explicar exatamente o que sentia, mas entendia que nem sempre se encaixava nas expectativas ao redor. Aos 13 anos, viveu o primeiro namoro, ainda guardado em segredo, entre o medo do julgamento e a tentativa de compreender a própria identidade.
Quando tinha 14 anos, próximo de completar 15, decidiu contar à mãe que era gay. O momento, que para muitos jovens costuma vir acompanhado de medo e incerteza, foi recebido com acolhimento. Na família, já havia outras pessoas LGBT, e o irmão também é gay. Essa escuta não apagou os desafios, mas tornou menos solitária uma parte da caminhada.
No esporte, porém, o acolhimento nem sempre aparece com a mesma naturalidade. Em um ambiente ainda atravessado por ideias rígidas sobre masculinidade, força e desempenho, Mateus precisou enfrentar olhares que tentavam reduzi-lo a uma contradição. Para algumas pessoas, parecia estranho que um homem gay ocupasse um espaço associado à potência física, aos halteres e às competições.
Esse estranhamento diz mais sobre a sociedade do que sobre Mateus. Ainda persiste a ideia de que homens gays precisam caber em estereótipos de fragilidade, delicadeza ou aparência. Quando ele aparece no tablado, com o corpo preparado para levantar peso e competir, essas imagens prontas entram em choque com a realidade.
ENTRE O PRECONCEITO E O CAPACITISMO
A deficiência também colocou Mateus diante de outro tipo de barreira. Além da LGBTfobia, ele convive com o capacitismo, forma de preconceito que trata pessoas com deficiência como incapazes, dependentes ou limitadas antes mesmo de conhecer suas histórias.
Para ele, uma pessoa com deficiência pode estudar, trabalhar, construir carreira, praticar esportes e conduzir a própria vida. Ainda assim, a sociedade costuma insistir em olhares de pena, surpresa ou desconfiança. Como se a deficiência anulasse sonhos, autonomia e desejo de estar no mundo. “ Para mim é sempre um prazer fazer parte do esporte e ter alcançado o que já conquistei é muito gratificante principalmente porque eu acho que todo lgbt se cobra muito a excelência então fazer as coisas certas é o que me motiva”. Afirma Mateus.
No caso de Mateus, essa cobrança aparece em camadas. Ele precisa afirmar que seu corpo pode competir, que sua orientação sexual não diminui sua força e que sua deficiência não define tudo o que ele é. Cada treino, cada competição e cada espaço ocupado tornam-se também uma resposta a quem tenta limitar suas possibilidades.
As lembranças da infância ajudam a explicar o tamanho desse percurso. Mateus conta que já recebeu apelidos homofóbicos na escola e em outros ambientes, em um período em que ainda tentava entender a si mesmo. As palavras machucavam porque chegavam antes da compreensão. Havia dor antes de haver resposta.
O CORPO QUE OCUPA O ESPAÇO
Com o tempo, o esporte deixou de ser apenas treinamento. Virou também um lugar de afirmação. Entre barras, anilhas e competições, Mateus encontrou uma forma de dizer que existem muitos modos de ser homem, de ser atleta, de ser gay e de ser PCD.
A presença dele no halterofilismo desafia a lógica de que certos espaços pertencem a determinados corpos. Quando compete, Mateus não carrega somente o peso da modalidade. Carrega também a responsabilidade, muitas vezes injusta, de representar pessoas que foram ensinadas a se esconder ou a pedir permissão para existir.
Isso não significa transformar sua trajetória em uma história simples de superação. Mateus não existe para inspirar os outros a qualquer custo. Sua história importa porque mostra como o preconceito ainda organiza expectativas, limita acessos e tenta definir quem pode ser visto como forte.
Ao mesmo tempo, sua presença abre caminho. Em um país onde tantos atletas enfrentam falta de apoio, e onde pessoas LGBT e PCD ainda precisam lutar por respeito básico, a trajetória de Mateus ajuda a ampliar a ideia de pertencimento no esporte.
PERTENCER TAMBÉM É VENCER
Quando fala sobre o futuro, Mateus deixa as medalhas, os recordes e os resultados em segundo plano. O desejo que carrega é mais amplo: ver a comunidade LGBT mais unida e mais aberta às diferentes realidades que a compõem.
Para ele, ainda existem exclusões dentro de espaços que deveriam acolher. Há julgamentos, padrões e disputas que afastam pessoas que já enfrentam preconceitos fora da comunidade. Por isso, seu pedido é simples e difícil: mais união, mais escuta e menos necessidade de provar que alguém merece pertencer.
No fim, a história de Mateus não cabe apenas no esporte. Ela fala dos pesos que a sociedade coloca sobre determinados corpos e da coragem de seguir mesmo quando esses pesos parecem maiores do que deveriam. No tablado, ele levanta barras de ferro. Fora dele, levanta a própria voz, sua identidade e a possibilidade de um esporte mais aberto à diferença.
Enquanto houver quem se surpreenda ao ver um atleta LGBT e PCD ocupando espaço, a presença de Mateus continuará sendo uma resposta. Não uma resposta em tom de justificativa, mas de existência. Ele está ali porque pode, porque quer e porque o esporte também precisa aprender a reconhecer todos os corpos que o constroem. “Eu lido bem hoje em dia com o preconceito no meio do esporte mas acaba que sempre uma piada aqui outra ali mas eu não dou ouvidos e sigo fazendo meu trabalho”. Finaliza.




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