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Prato cheio, bolso vazio: a desigualdade na mesa dos brasileiros

Alimentação saudável deixa de ser apenas uma decisão individual e passa a ser também um privilégio de classe no Brasil


A falta de acesso a alimentos frescos compromete a saúde da população | Foto: Arquivo pessoal
A falta de acesso a alimentos frescos compromete a saúde da população | Foto: Arquivo pessoal

Por Leticia Patricia | Agência Abre Aspas


O que é uma alimentação saudável? E quem pode pagar por ela? Essas perguntas são essenciais para repensarmos os discursos que cobram que todos “comam de forma saudável”. Ainda mais em um cenário em que parte da população não tem acesso a produtos frescos e variados e, muitas vezes, precisa optar por alimentos mais baratos, nem sempre suficientes para garantir os nutrientes necessários ao funcionamento adequado do corpo.


Ir ao supermercado, para grande parte das pessoas, pode ser uma experiência estressante. Os altos preços retiram diversos itens, como frutas, verduras e carnes, da rotina diária das famílias. Produtos como café e leite vêm sendo substituídos por itens com “sabor de” ou “mistura de”, mais acessíveis para o grande público.


O PESO DO BOLSO NO PRATO


O acesso a nutrientes de qualidade no Brasil passa diretamente pela classe social. De acordo com a Conab, o paradoxo de ser um grande exportador de grãos contrasta com uma realidade interna desigual, na qual a população periférica e de baixa renda têm acesso restrito a alimentos frescos e saudáveis, como frutas e legumes. Em contrapartida, há o predomínio de alimentos ultraprocessados altamente calóricos e ricos em açúcar, sal e gordura , que comprometem diretamente a saúde física e mental desses indivíduos.


É contraditório que o país bate recordes como um dos maiores exportadores de grãos do mundo, enquanto parte da população enfrenta insegurança alimentar. Segundo o DIEESE, em 2026, o salário mínimo é de R$1.621,00. Para quem vive com essa quantia, equilibrar as contas é um desafio matemático, com a cesta básica custando mais de R$800,00 em algumas capitais.


Esse cenário gera impacto que ultrapassa a saúde física. Marianela Urrutia, especialista em nutrição comportamental e em fitoterapia, atuando em Cascavel, apresenta uma leitura necessária. “Quando o orçamento limita as escolhas aos ultraprocessados, a comida deixa de ser cuidado e vira fonte de angústia”. Afinal, como defende a especialista, a nutrição não pode ignorar a realidade social: ela precisa considerar o bolso do brasileiro.


ALÉM DA ESTÉTICA: SAÚDE E DESEMPENHO


A desigualdade não para na balança; ela se reflete na capacidade funcional do cidadão. A nutrição não é apenas sobre “estar em forma”, mas sobre o que permite a um trabalhador aguentar sua jornada ou a um jovem evoluir em sua prática esportiva. Quando o equilíbrio nutricional é restrito, apenas uma parte da sociedade tem acesso às condições necessárias para manter um corpo que funcione bem.


A nutricionista Bruna Cecchele, especializada em nutrição esportiva, analisa esse impacto técnico. “O rendimento físico, seja no esporte ou no dia a dia, depende de micro e macronutrientes que muitas vezes são negligenciados por falta de acesso financeiro. O arroz e o feijão são base da alimentação brasileira, mas sem proteínas e vegetais variados, a saúde a longo prazo fica comprometida. O grande desafio da nutrição esportiva hoje é democratizar o desempenho, mostrando que a saúde funcional não pode ser um pacote vendido apenas para quem pode pagar por suplementos e dietas caras”.


O PAPEL DO ESTADO E A CONSCIENTIZAÇÃO


O debate sobre alimentação precisa sair da bolha individual e das falsas promessas de “foco e força”. Comer bem não deveria ser tratado como mérito de quem possui disciplina, pois, na realidade brasileira, a dieta equilibrada se tornou um privilégio de classe. Não se trata apenas de força de vontade quando a escolha é limitada pelo preço. O que se vê é a distância entre o desejo de saúde e a capacidade de compra.


Para que a alimentação deixe de ser artigo de luxo e passe a ser tratada como direito básico, é urgente que o Estado atue. Isso passa por políticas públicas que diminuam o preço da comida de verdade e taxem de forma mais severa produtos que comprovadamente prejudicam a saúde pública. Enquanto o brócolis for mais caro que o salgadinho, a mesa do brasileiro continuará sendo moldada por uma imposição orçamentária, e não por uma escolha livre e consciente, conforme as diretrizes do Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde.


Nesse cenário, a sociedade começa a compreender a gravidade dos ultraprocessados, que deixaram de ser vistos apenas como uma “besteirinha”. No entanto, a conscientização esbarra em barreiras práticas: a falta de autonomia culinária e a escassez de tempo na rotina do trabalhador. Para muitos, preparar uma refeição fresca é inviável após jornadas exaustivas e longos deslocamentos, o que transforma o ultraprocessado na saída mais rápida.


Essa perda de autonomia passa por um distanciamento entre gerações. “Atualmente, a escolha foi retirada da gente. Minha geração era a da criança fora da cozinha, o que nos privou de crescer com uma intimidade que facilitaria muito a alimentação saudável”, explica Bruna. Sem domínio do preparo e sem tempo para cozinhar, o consumidor fica refém da indústria, que vende conveniência no lugar de nutrição.


Ocupar a cozinha é uma forma de ajudar. “Assim como as crianças aprendem o teorema de Pitágoras, elas deveriam aprender a cozinhar para, no futuro, fazer a escolha de continuar cozinhando ou não”, destaca Marianela.

O conhecimento facilita as escolhas alimentares. A pessoa pode até não querer cozinhar, mas passa a saber como a comida é feita e a reconhecer uma alimentação de qualidade. Implementar a educação alimentar nas escolas é uma forma de ampliar esse direito.


Enquanto continuarmos a tratar a alimentação saudável como uma escolha individual, e não como uma urgência estrutural, estaremos apenas “gourmetizando” a sobrevivência. Democratizar o acesso à comida de verdade é caminho para que a saúde deixe de ser mercadoria e passe a ser direito de todos os brasileiros. Enquanto o prato do trabalhador continuar vazio de nutrientes e cheio de ultraprocessados, a desigualdade continuará sendo uma das maiores carências alimentares do Brasil.

1 comentário


Texto impecável!!👏🏻💙

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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