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O terrão como herança familiar

No chão batido onde tudo começou, o futebol virou memória, encontro e passagem de geração para geração


Comemoração de todos juntos, jogadores e torcedores. Crédito da foto: Felipe Oliveira
Comemoração de todos juntos, jogadores e torcedores. Crédito da foto: Felipe Oliveira

 

Por Karoline Martins | Agência Abre Aspas


O domingo amanhece diferente, nem precisa abrir a janela para perceber. Dentro de casa, antes mesmo do café ficar pronto, as perguntas começam a surgir uma atrás da outra.

 

— “Mãe, tá na hora?”

— “Vamos logo.”

 

É dia de Treme Terra jogar no terrão. E talvez quem nunca tenha vivido isso ache exagero dizer que um campeonato de bairro consegue movimentar tanto a comunidade. Afinal, olhando de fora, parece pouco: um campo de chão batido, bola pesada, poeira subindo, sem arquibancada, sem estrutura, sem premiação grande.

 

Ainda mais hoje, quando o futebol amador da cidade cresce cercado de gramado sintético, uniforme novo, transmissão na internet, alta visibilidade, premiação alta e campeonatos maiores espalhados por Cascavel.

 

Mas o terrão nunca foi só futebol. A movimentação começa cedo, pessoas chamando no portão, chuteira sendo tirada do armário ainda com barro grudado do último domingo, cadeira de plástico debaixo do braço, criança correndo pela rua já vestindo a camisa do time. Dentro das casas, a maionese é preparada antes do almoço, porque em domingo de terrão ninguém quer perder tempo, acordar cedo não é uma obrigação.

 

O Treme Terra nasceu em 2013, criado dentro da própria família com uma ideia simples: jogar o campeonato terrão da cidade. Foram os mais velhos que começaram: pais, filhos, tios, primos e até os vizinhos que, de tanta convivência, viraram parentes também. Desde então, o chão batido, a cal que desenha as linhas tortas do campo e a poeira  passou a fazer parte da história da família.

 

No terrão não existe separação entre torcida e jogador, não existe grade, não tem distância. Quem está fora das quatro linhas joga junto também, sofre, reclama, grita e comemora junto.

E quando sai gol, ninguém sabe quem é a torcida e quem é o jogador. As crianças invadem o campo, a mãe abraça o filho coberto de terra, os tios gritam segurando o copo na mão.

 

Os gritos vêm de todos os lados, da mãe que se assusta ao ver o filho cair depois de uma dividida, da esposa que acompanha o marido correr atrás de cada bola, do tio que reclama do juiz antes mesmo da falta acontecer. E das crianças observando tudo com os olhos brilhando, querendo entrar em campo antes mesmo de entender direito o que é futebol.

 

Talvez o mais bonito sejam justamente elas.

 

Sentado no barranco depois da partida, Jackson Cerqueira observa o campo sendo esvaziado. As chuteiras ainda carregam terra, o suor continua escorrendo depois do jogo. E enquanto olha para aquela terra, os domingos passados parecem voltar.

"Lembro da primeira vez que meus tios e primos foram campeões. A família inteira invadiu o campo para comemorar, todo mundo abraçando todo mundo, gritando. Eu era pequeno, tinha 7 anos, mas aquela cena ficou gravada em mim”.

 

Quando pequeno, os pensamentos iam longe. As pernas se mexiam sozinhas, os pés imitavam os jogadores sem perceber, o olhar de quem queria entrar em campo antes mesmo de o corpo ter tamanho para isso.

 

Jackson cresceu vendo os mais velhos vestirem a mesma camisa ano após ano. Ouvindo as histórias, admirações, ocupando o mesmo barranco e esperando o seu domingo chegar como quem espera um encontro marcado há muito tempo.

 

A ansiedade sempre vinha acompanhada da mesma pergunta: “Quando vai ser a minha vez?”

 

O tempo passou sem ninguém perceber. E muitas das crianças que antes assistiam aos jogos, hoje entram em campo usando a mesma camisa que cresceram admirando. Jackson é uma delas, os pés que antes chutavam o vento do lado de fora, agora levantam poeira no mesmo chão onde passou a infância inteira vendo os mais velhos jogarem.

 

Do lado de fora, o barranco também mudou. Muitos daqueles que criaram o time, correram naquele campo e viveram o começo de tudo, hoje assistem às partidas, comentando os lances, relembrando histórias de quando era eles, e a sensação de querer voltar igual quando as crianças queriam entrar.

 

Alguns já nem estão mais ali fisicamente. Mas continuam presentes de algum jeito: nas fotografias guardadas, nas histórias contadas depois dos jogos, nos nomes lembrados no meio das conversas e naquele pequeno silêncio que às vezes surge quando alguém recorda quem costumava ocupar certo lugar vestindo a camisa do Treme Terra.

 

Olhando de longe, talvez pareça simples demais, mas não é. Porque enquanto muitos times procuram campeonatos maiores, campos melhores, mais estrutura, mais visibilidade e mais premiação, o Treme Terra continua ali onde tudo começou. Não por falta de oportunidade de sair dali, mas porque foi naquele chão batido que começou.

 

Existem coisas que não sobrevivem apenas pela estrutura que possuem, continuam pela memória e herança que carregam. O terrão nunca virou apenas o lugar onde o Treme Terra joga, é o lugar onde a família continua se encontrando, mesmo com o tempo passando rápido demais.

 

E, no fim, cada domingo parece fazer exatamente isso: juntar tempos diferentes dentro do mesmo campo.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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