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Por trás do que se vê: formação de subcomunidades em Cascavel

Grupos descontentes com a realidade cultural da cidade se formam espontaneamente


Cultura é essencialmente a regra de um grupo social; o que se forma é a exceção | Crédito da foto: Lucas Lobo
Cultura é essencialmente a regra de um grupo social; o que se forma é a exceção | Crédito da foto: Lucas Lobo

Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas

Os cavalos atravessam a estrada, rodeados de bandeiras brancas, hasteadas por corpos sustentados pelas galochas. A cruz é inevitável, mesmo que de ponta-cabeça, e as espadas brandidas se cruzam para anunciar o que poderá ser ou o que poderia ter sido. Profecias nunca cumpridas das travessias que finalizam no mesmo muro.

O conto é simples. Cidades do interior vivem em eterna contradição. O pluralismo de uma megacidade rompe com o tradicionalismo, em hibridização. Ao mesmo passo que o espaço se torna diverso, o passado é diluído.

Em uma metrópole em construção, a aceitação do diferente é constantemente posta em xeque pela inevitável formação de subcomunidades no seio da tradição. “Eu vejo que as culturas mais formadas aqui em Cascavel são mais conservadoras. Os grandes eventos, por exemplo, sempre trazem o sertanejo, funk paulista e esse tipo de parada…”, reclama Gustavo Rizotto, fundador do grupo de rap PedraBoys e participante de uma subcomunidade na cidade de Cascavel.

É importante entendermos que subcomunidades são agrupamentos específicos dentro de uma comunidade maior. Uma espécie de tribo, porém sem a característica de deslocamento completo da sociedade. Basicamente, são grupos com interesses e funcionamentos próprios, surgidos de maneira espontânea em grupos sociais mais amplos.

Por outro lado, o fato de existir um grupo menos amplo e menos generalizado implica a existência de uma comunidade geral, com gostos recorrentes e de fácil aceitação do fazer cultural já reproduzido. Em suma, um negativo da subcomunidade: agrupamentos pouco específicos e com formação de escopo bastante ampliado.

OESTE OUTRA VEZ

“Capital do Oeste”, o município em destaque na região paranaense é uma das principais áreas do agronegócio no Brasil, que por si só é um dos principais mercados do país. A produção ampla de diversas commodities importantes para a economia nacional e o ambiente receptivo para lideranças do setor produziram, ao longo do desenvolvimento e enraizamento local, algumas das grandes marcas culturais da cidade.

O Show Rural Coopavel, realizado em 2026, registrou recorde histórico de público. Foram 430,3 mil visitantes nos cinco dias de evento, segundo informações da própria organização. Prova da consolidação desse cenário como rosto cultural de Cascavel. Não à toa, o maior costelão de fogo de chão do mundo ocorre por aqui, na Festa do Dia do Trabalhador, outra ocasião pautada na produção agropecuária.

Outro espaço bem ambientado no imaginário cascavelense é a Feira do Produtor, local de comercialização de produtos artesanais e orgânicos. Por característica, o ambiente reúne a população em um lugar de contato direto com a produção e o comércio local, atravessando anos com um público fiel e comerciantes conhecidos. Nota-se, porém, que as culturas bem estabelecidas normalmente se relacionam com mercados e intervenções do Estado, como eventos fomentados pela própria Secretaria de Cultura.

Gustavo comenta que a iniciativa de formar um coletivo parte especialmente do descontentamento com o fato de culturas dominantes se manterem fechadas às diferenças e reforçarem sua força sobre possíveis insurgências. “Acho que o conservadorismo atrapalha sim. É difícil arrumar um evento e um público que ouça o tipo de som que eu faço, por exemplo”.

SUBCOMUNIDADES EM CASCAVEL

Nas fagulhas que emanam das chamas dos símbolos locais, pessoas frustradas com a realidade descrita se encontram e convergem interesses em realizações práticas. Entre diversas formações passadas e outras que ainda buscam sobreviver, alguns cenários parecem encontrar e, cada vez mais, demarcar seus espaços em Cascavel.

O grupo de k-pop New Wave surge a partir disso. Desde a década passada, o estilo vem se popularizando no Brasil, porém seu auge se localiza por volta de 2020. Na cidade, grupos surgiram e ocuparam principalmente os arredores do Teatro Municipal para o desenvolvimento autônomo da própria prática. “Sim, existem poucas escolas de dança que ensinam esse estilo, e também acreditamos que um motivador essencial seja a acessibilidade, pois nos reunimos em espaços públicos, sem professor, nem nada, e apenas dançamos por nós mesmos”, dizem as integrantes.

O rap parece ser outra subcomunidade que pouco a pouco se centraliza na produção local, ainda que sofra preconceito e retaliações. Em rodas que iniciaram nas periferias, com poucos membros, os encontros ganharam corpo com o tempo. Com diversas batalhas conhecidas em vários pontos da cidade, como a Batalha do Dedão e a Batalha do Salão, a cena da rima vem sendo pautada em comunicações alternativas, criando forças para reivindicações e, por vezes, sendo percebida por eventos oficiais para declamação de poesias, como ocorreu no último Dia da Mulher. “Víamos muitos MCs de batalha furando a bolha somente com o rap improvisado, só com o rap na rua, e agora Cascavel está com uma cena maior no rap gravado. Um bom exemplo de alguém que furou a bolha tanto nas batalhas quanto nas músicas autorais é a Mamacita MC”, cita Gustavo.

Embora os avanços sejam percebidos, ele ainda destaca que o espaço vago sendo ocupado e estabelecido como nova cultura produz, como efeito rebote, uma desunião entre diferentes áreas da produção. “Gostaria que tivesse mais em Cascavel essa união entre cenas. Parece que o rap de batalha, cloud rap, trap, boombap etc. acabam se distanciando umas das outras, sendo que elas deviam se unir e colaborar para a cena geral do rap aqui crescer de fato”.

Gustavo completa citando que o rock segue construindo um meio bastante consolidado, em especial por contar com estabelecimentos especificamente focados na estética e na realização de shows do gênero. Ainda que seja uma expressão histórica, em uma região de hegemonia sertaneja, é louvável que o estilo musical encontre seu nicho e se expanda cada vez mais ao posto de grito local.

As artes plásticas também vêm chamando a atenção com exibições recorrentes em espaços públicos, como o Museu de Arte de Cascavel e o Centro Cultural Gilberto Mayer. Aulas de pintura crescem na cidade e grupos de artistas demonstram apoio entre si para manterem a possibilidade de aparecer e se expressar.

PROCURA-SE EXISTÊNCIA

A lista de subcomunidades cascavelenses é longa. Grupos de k-pop dominam centros culturais e participam constantemente de eventos de dança. A cena geek é antiga, desde a finada Harukon, e conta com diversos surgimentos esporádicos que criam senso de comunidade para entusiastas, como o Genshiken Cascavel. Sebos e brechós reforçam o gosto pelo vintage, marcas de streetwear se formam e o skate recebe campeonatos de nível nacional.

É valioso destacar que uma das principais dificuldades relatadas por organizações de subcomunidades é a estigmatização de seus gostos por parte do normativo. As participantes do grupo New Wave comentam que, embora existam manifestações do estilo na cidade há mais de 10 anos, a desmoralização é carregada por diversos fatores. “A comunidade k-cover existe há mais de 10 anos aqui na cidade, sempre presente em eventos geek. Acreditamos que não tenha tanta visibilidade devido ao estigma em torno do gênero musical, principalmente por ser um hobby majoritariamente feminino. Todos sabemos como estes são desmoralizados e descredibilizados pela sociedade em geral”.

Mais importante do que tais existências ocultadas é a construção de pertencimento em um espaço pouco permissivo. Fato mais interessante do que as realizações de cada subcomunidade é a própria formação autônoma, nascida de um grupo de interessados, alçando o posto de reprodução cultural da cidade.

Especialmente em espaços marcados por opções limitadas de lazer e cultura, iniciativas como essas funcionam como forma de reagir ao que está impregnado e historicamente ditado. O efeito consequente é o fim e o nascimento de novas expressões, sempre atravessadas pelas tradições vivas ou já superadas. “Muito bem, mas há falta de investimento e eventos onde possamos manifestar nossa arte”, dizem as integrantes sobre as limitações enfrentadas na possibilidade de expressão.

A cultura está inevitavelmente em disputa. Toda formação não é composição de um catálogo de nichos. Em um tradicionalismo homogêneo, eventos organizados por subcomunidades cada vez maiores tensionam a maneira com que a padronização deste espaço pode reagir aos próprios interesses. Gerar a novidade é o papel fundamental e basilar de quem se posta em diferença.

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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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