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O cuidado que resiste: histórias de uma agente comunitária de saúde

Em Ubiratã, Patricia Silva atravessa ruas, calor e urgências da atenção básica em visitas de casa em casa 


Visita domiciliar é uma das frentes do trabalho de Patricia Silva, que liga a unidade de saúde ao cotidiano da comunidade | Crédito da foto: Raissa Silva Rodrigues
Visita domiciliar é uma das frentes do trabalho de Patricia Silva, que liga a unidade de saúde ao cotidiano da comunidade | Crédito da foto: Raissa Silva Rodrigues

Por Raissa Silva Rodrigues | Agência Abre Aspas


O Sol nasce e, junto dele, a determinação de Patricia Silva, Agente Comunitária no posto de saúde de Ubiratã (PR), para mais um dia de trabalho. Ao chegar na unidade de saúde, ela organiza suas coisas, confere a lista de pacientes, separa os materiais necessários, revisa os atendimentos do dia anterior, coloca a prancheta e a caneta na mão e parte para mais um dia de visitas. Sempre acompanhada pelas manhãs quentes e tardes ainda mais abafadas, que fazem parte da rotina de quem trabalha diretamente nas ruas.


De casa em casa, leva informações, ouve e acolhe cada família e cada paciente. Em cada rua, em cada visita, surgem necessidades diferentes, que muitas vezes não chegam até a unidade de saúde sem esse contato direto. São demandas que vão desde orientações simples até situações mais delicadas, que exigem atenção e cuidado.


Entrar na casa das pessoas parece simples, mas muitas vezes é uma missão difícil. Nem todos os moradores colaboram, alguns não passam as informações necessárias e, às vezes, não fazem questão nem de atender ao seu chamado, o que torna o trabalho ainda mais desafiador e exige paciência no dia a dia.


A pele queimada, o suor escorrendo pelo seu rosto, os calos no pé. Marcas deixadas pela rotina intensa de mais de 10 anos de trabalho nas ruas. Mas nada disso impede que o cuidado chegue até a porta de quem precisa, mesmo diante das dificuldades encontradas todos os dias, enfrentando diferentes realidades.


CAMINHOS DIFÍCEIS

Patricia se recorda de uma situação difícil que passou com um paciente: “Havia um casal na minha área e o homem tinha diabetes, pressão alta e várias outras doenças. Eu sempre dava orientação, falava pra ele se cuidar, mas não adiantava (…) infelizmente ele acabou falecendo devido à diabetes. A esposa dele, que já é uma senhora de idade, ficou revoltada e me culpou pelo que aconteceu”. Ainda assim, ela seguiu com o seu trabalho e retomou o atendimento novamente.


“Na casa, havia três cachorrinhos, e, quando eu entrei, ela soltou os bichinhos e eles começaram a me morder. Eu caí no chão, com a prancheta e a bolsa, e tive que me defender batendo nos cachorros. Um vizinho viu a situação e veio me socorrer. Depois, tive que tomar a vacina de tétano por prevenção, mas, apesar de toda essa situação, não guardo mágoa de ninguém”, recorda.


Mesmo com essas situações, o compromisso com o cuidado prevalece, e seguir em frente faz parte da rotina desses profissionais.


NO BATER DA PORTA


Durante mais de 10 anos exercendo essa profissão, Patricia vivenciou outras histórias que ficaram marcadas em sua vida. Uma delas foi um acompanhamento de uma idosa de sua área, que enfrentava problemas constantes com a pressão elevada. “A gente não entendia o que estava acontecendo com sua pressão. Então, fui até a casa dela, conversei e ela me contou que não sabia ler. Foi aí que eu percebi que ela estava tomando a medicação errada. Peguei os remédios, levei para o posto e organizei tudo direitinho”. 


Patricia percebeu que, para cuidar das pessoas, muitas vezes precisava ir além do que fazia no dia a dia. Em vários momentos, teve que se adaptar à realidade de cada família.


“Separei a medicação e coloquei em potinhos. No da manhã, eu desenhei um sol; no da tarde, fiz um pratinho de comida, como se fosse depois do almoço; e, no da noite, desenhei uma lua e uma estrelinha, pra ela entender o horário certo de tomar. Depois que comecei a separar a medicação para ela todo mês, nesses potinhos, ela passou a tomar certinho. A pressão dela melhorou e ela não teve mais problemas”, completa em seu relato.


Essa situação marcou seu trabalho, mostrando como pequenos detalhes podem fazer diferença no cuidado com os pacientes e no acompanhamento da saúde.


Mais do que um profissional da saúde, o Agente Comunitário é um dos poucos que realmente conhece a realidade de dentro das casas das pessoas. Ele sabe a situação de cada família e, a partir disso, também busca orientar e auxiliar no acesso a direitos, como o Cadastro Único, o Bolsa Família e outros benefícios sociais, ajudando diretamente na vida dessas pessoas e contribuindo para melhorar suas condições de vida.


É o Agente Comunitário que realiza visitas domiciliares nas casas dos brasileiros, de porta em porta. É quem identifica necessidades, orienta a população e encaminha as pessoas para os serviços de saúde, sendo o contato direto entre a população e o SUS e criando esse vínculo com a comunidade ao longo do tempo.


Segundo Rafael Alexandre Pinto, coordenador e enfermeiro da unidade de saúde de Ubiratã (PR): “Além das visitas domiciliares e das orientações de cuidados, é feita a avaliação da prevenção de doenças crônicas, incluindo incentivo à prática de atividades físicas, alimentação correta, cuidados com o uso de medicamentos e atenção a hábitos diários para evitar novas doenças”.


Apesar dessa profissão ser importante, a condição dos Agentes Comunitários ainda é cheia de obstáculos. A pressão da alta quantidade de atendimentos, o clima, a resistência de alguns moradores e a ausência de valorização por parte da população e do governo são aspectos presentes no dia a dia desses profissionais, que precisam lidar com essas situações diariamente.



ACOLHIMENTO E PARCERIA


No ambiente de trabalho, o vínculo com os colegas também faz parte da rotina e do dia a dia das visitas, sendo fundamental para lidar com as demandas da profissão.


“Eu e a Patricia trabalhamos juntas por alguns anos. O que mais se destaca nela, como profissional, é o companheirismo. No nosso trabalho como agentes de saúde, a gente precisa muito uma da outra, e ela está sempre disposta a ajudar. Como pessoa, também é muito carinhosa, gosta de cuidar de quem está à sua volta. É por isso que eu gosto de trabalhar com ela , além de parceira no serviço, é uma pessoa muito boa”, conta Marinês Magni, colega de equipe.


Como marcas de bota pelo chão, ela deixa seu rastro por onde passa, e muitos pacientes demonstram gratidão com gestos. “Tem alguns que fazem questão de que eu tome café com eles. Eles preparam a mesa, oferecem um cafezinho, e é um momento que a gente compartilha junto”, conta. 


Os presentes vão desde frutas colhidas diretamente do pé, no quintal dos pacientes, até bolos caseiros e cento de salgados que são entregues na unidade de saúde. “Esses gestos significam muito para nós. É uma maneira de recordarmos que o nosso trabalho vale a pena. Tem pacientes que até sentem falta quando não consigo visitá-los, e me param até na rua para conversarmos. É uma relação de amizade também”, acrescenta. 


O CUIDADO CONTINUA


Apesar dos desafios diários do trabalho, todo dia é uma nova oportunidade para conhecer mais sobre cada paciente, algo que só o tempo da profissão traz. O trabalho nunca para, a cada dia surgem novos pacientes que precisam de toda cautela e zelo. 


Para Patricia, o contato com a população é o que impulsiona ela todos os dias: “Eu sempre gostei de lidar com pessoas, de conversar, de cuidar… acho que essa profissão acabou me encontrando”. Mesmo com o cansaço, as ruas quentes e as dificuldades, é no vínculo com a comunidade que ela encontra motivação para continuar. 


Histórias, aprendizados e encontros: o cuidado segue sendo construído todos os dias. E, assim, os agentes comunitários de saúde, como Patricia, continuam caminhando entre ruas, pessoas e histórias. Com o olhar humano sobre cada paciente.


Com a prancheta na mão, a bolsa nas costas e a lista de pacientes a cumprir, ela segue pelas ruas, de casa em casa, enfrentando o calor, o cansaço e os desafios da rotina. O trabalho nunca para, e na próxima porta, alguém já espera por ela.


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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