Muito além da defesa pessoal
- Karoline Martins

- há 3 dias
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Atualizado: há 2 horas
No jiu-jítsu, mulheres encontram atenção ao risco, confiança para agir sob pressão e um espaço para falar de medo, rotina e recomeços

Por Karoline Martins | Agência Abre Aspas
“Não é sobre saber defesa pessoal, é sobre ter noção do perigo”. A frase de Tamara Borges ajuda a entender por que o jiu-jítsu entrou em sua vida de forma tão profunda. Faixa-preta e praticante da modalidade há 14 anos, ela aprendeu que a defesa pessoal não começa em um golpe. Começa antes, na leitura do ambiente, na atenção ao próprio corpo e na capacidade de perceber quando algo sai do lugar.
Foi esse tipo de atenção que a ajudou em uma noite depois do treino. Tamara havia encerrado as aulas na academia onde ensinava jiu-jítsu e seguia o mesmo caminho de sempre para casa. A rota era conhecida, repetida muitas vezes, até que um carro começou a passar devagar por ela. O motorista deu a volta no quarteirão e voltou a passar no mesmo ponto.
A poucos metros de casa, ela decidiu não entrar no portão. Preferiu seguir caminhando para não mostrar onde morava. Procurou um lugar com movimento, parou em um bar próximo e ficou ali por alguns minutos, tentando agir com naturalidade. Só saiu quando percebeu que o veículo havia ido embora.
Para Tamara, a decisão nasceu do treino. “Eu aprendi essa percepção no jiu-jítsu. Ele me ajudou a identificar quando estou em uma situação de perigo. Uma pessoa sem esse preparo talvez tentasse entrar em casa rapidamente ou pensasse que era coincidência. Mas o jiu-jítsu acende um alerta, como acontece na luta. Eu não travei. Raciocinei, continuei andando e procurei a melhor saída”, explica.
ANTES DA PRIMEIRA FAIXA
Antes de conhecer o jiu-jítsu, Tamara já tinha uma rotina ligada ao esporte. O futsal feminino na escola e a musculação faziam parte de seus dias. Ainda assim, quando alguém da academia insistia para que ela experimentasse a modalidade, a resposta era de desconfiança. “Esse esporte é a sua cara, faz uma aula, você vai gostar”, ouvia.
Ela não acreditava. Como muitas pessoas que observam o jiu-jítsu de fora, carregava certo incômodo com a ideia de contato físico. Ver pessoas se agarrando no tatame parecia distante de sua personalidade. Tamara nunca se considerou alguém confortável com toque excessivo e, por isso, a experiência parecia improvável.
A primeira aula mudou essa impressão. Em janeiro de 2013, ao pisar no tatame, encontrou um espaço que parecia incompatível com ela, mas que aos poucos se tornou parte de sua identidade. O que antes causava estranhamento passou a organizar uma nova forma de existir, mais atenta, mais firme e menos paralisada diante do medo.
A CONSTRUÇÃO DA FAIXA PRETA
Em uma modalidade historicamente ocupada por homens, Tamara encontrou espaço para crescer, aprender e permanecer. O caminho até a faixa preta, porém, não foi simples. No início, dividia o tatame com outras quatro mulheres em meio a dezenas de homens. A presença feminina existia, mas ainda era pequena.
Alguns colegas evitavam treinar com elas. Nem sempre por desprezo, segundo Tamara, mas pelo receio de machucá-las ou pela ideia de que mulheres não suportariam a mesma intensidade. Com o tempo, as outras praticantes foram deixando os treinos. Uma a uma, saíram. Ela permaneceu.
Houve medo, dores, pés torcidos, cortes na boca e dias em que o desgaste físico parecia motivo suficiente para desistir. Mesmo assim, algo a fazia voltar. A cada treino, Tamara mostrava que podia executar as mesmas técnicas, suportar a mesma intensidade e enfrentar os mesmos desafios. A desconfiança foi cedendo espaço ao respeito.
“Eu mostrava para os homens que também conseguia fazer. Com o tempo, eles foram percebendo isso e criando respeito por mim”, afirma.
QUANDO O TREINO CHEGA À VIDA
Se o jiu-jítsu ensinou Tamara a reconhecer situações de perigo, também mudou a forma como ela passou a enxergar a si mesma. A mulher que hoje ministra aulas, fala em público e conduz treinos com segurança é diferente da jovem tímida que evitava chamar atenção.
Essa mudança aconteceu aos poucos e chegou a diferentes áreas da vida. “O jiu-jítsu moldou minha mente e a minha forma de pensar. Eu era uma pessoa tímida, ficava pelos cantos, não olhava no olho das pessoas. Hoje consigo conversar, falar em público e lidar melhor com as pressões que a vida me traz”, relata.
A clareza exigida no treino é uma das lições que ela leva para fora do tatame. Durante uma luta, é preciso manter a calma mesmo quando o corpo está preso, pressionado ou sem espaço. Para Tamara, aprender a pensar nessas condições ajudou a lidar com problemas no trabalho, nos estudos e nas relações do dia a dia.
“Quando você consegue manter a cabeça no lugar enquanto alguém está tentando te estrangular ou te imobilizar, aprende a raciocinar sob pressão. Isso acaba sendo levado para outras situações da vida”, explica.
UM LUGAR PARA RESPIRAR
Para muitas mulheres, o esporte também se transforma em uma forma de respiro. O treino não elimina os problemas, mas cria um intervalo em que o corpo se movimenta, a mente desacelera e as tensões do dia encontram outra saída.
“Eu acredito que a pessoa que treina acaba aliviando um pouco das tensões e leva esse alívio para outros caminhos da vida. Muitas vezes, as pessoas chegam aqui dizendo que tiveram um dia ruim, que estão passando por problemas em casa. Elas treinam, vão embora e conseguem olhar para aquilo de outra forma. Às vezes, não resolve o problema, mas dá um alívio para o coração”, afirma Tamara.
Andressa Yavorivski, de 33 anos, é uma dessas histórias. Mãe de uma filha, ela enfrentava problemas pessoais, passava por um processo de separação e sentia sinais de depressão quando encontrou nos treinos um refúgio. “O esporte é uma válvula de escape. Aqui dentro eu esqueço tudo lá fora. Pode acontecer o que for. A hora que eu sair, eu resolvo, mas enquanto estou aqui está tudo tranquilo. E, quando eu saio, vejo a situação de uma forma diferente daquela que vi quando entrei”, conta.
A trajetória de Gisell também passa por esse encontro com o tatame. Depois de anos na dança, ela viveu uma fase em que se sentia perdida e sem motivação. Ao perceber a tristeza da mãe, o filho a incentivou a participar dos treinos com a família.
O que começou como tentativa de mudança virou pertencimento. “Hoje isso é muito importante para mim. Além de ser uma válvula de escape, estou aqui com as amigas, em um ambiente gostoso, aprendendo algo novo. E toda a minha família está aqui também”, relata Gisele.
Para ela, cada grau recebido e cada troca de faixa representam mais do que evolução técnica. São marcas de continuidade. “Conseguir um grau ou trocar de faixa é uma gratificação muito grande. É como se eu me presenteasse. Cada conquista é uma vitória”, diz.
REFERÊNCIA NO TATAME
Treze anos depois de pisar pela primeira vez em um tatame, Tamara percebe que sua maior conquista não está apenas na faixa preta. Ela aparece nas alunas sentadas ao seu redor antes dos treinos, nas mulheres que repetem movimentos, fazem perguntas e descobrem que também podem ocupar aquele espaço.
A turma feminina nasceu aos poucos, impulsionada pelos pedidos das próprias praticantes. Elas queriam um momento delas, um espaço onde pudessem treinar juntas, trocar experiências e falar sem constrangimento. Foi isso que encontraram. Nem todos os encontros são marcados apenas por quedas, raspagens ou posições. Há dias em que as conversas ocupam mais espaço do que os golpes. O treino também vira escuta.
O mesmo vale para a Gisele: confirme nome completo, idade. Isso fortalece a apuração.

Aceitar o papel de referência foi uma das partes mais difíceis da caminhada. Acostumada a viver em um ambiente predominantemente masculino, Tamara levou tempo para compreender o significado dos olhares que recebia das alunas. Quando alguma delas se impressionava ao vê-la ensinar uma técnica, os elogios pareciam estranhos. Com o passar dos anos, ela entendeu que aquelas reações falavam sobre o que sua presença representava para outras mulheres.
“Eu tenho essa consciência hoje de mostrar para as meninas que eu não vou abaixar a cabeça para ninguém. E quero que elas levem isso para fora da vida delas também”, diz.
Hoje, ao observar mais mulheres ocupando os tatames, Tamara entende que faz parte de uma mudança que ultrapassa sua trajetória individual. O jiu-jítsu continua sendo um ambiente com forte presença masculina, mas já não é o mesmo que ela encontrou quando começou. Aos poucos, outras mulheres chegam, permanecem e encontram ali algo que vai muito além da defesa pessoal: voz, confiança e um lugar para voltar quando a vida aperta.




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