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CBF em autofagia: o desprezo conservador brasileiro

25 de jun.
4 min de leitura

Frustração com desempenho da seleção tem raízes profundamente fundadas nas políticas de nosso tempo


Distanciamento simbólico é projeto político; distanciamento formal é fruto colhido | Crédito da Foto: Fabrice COFFRINI / AFP
Distanciamento simbólico é projeto político; distanciamento formal é fruto colhido | Crédito da Foto: Fabrice COFFRINI / AFP

Por Lucas Lobo | Agência Abre Aspas


Enquanto nos encaramos desamparados; enquanto buscamos respostas veladas; enquanto estudamos a consequência passada, a grande causa que nos glorificara hoje oprime nossa noção e exprime nossa saída: até quando “país do futebol” será mera alcunha? Pois, se não há sentido, vira jargão. Foi-se com o vento.

Somos, sim, o país do futebol, o futebol que não é nosso, nem nunca poderia ser. Afinal, os esportes, em sua progressão, tornam-se definição e marca nacional. Embora contrariasse Graciliano Ramos, o futebol adentrou a terra do espinho e configurou o ser Brasil; talvez o lendário escritor tenha se apegado demais à rejeição ao externo, faltou-lhe o exercício lúdico ou, ainda, talvez seja muito fácil que eu aponte ao passado neste exercício anacrônico. A verdade é uma só: não existe o Brasil do brasileiro sem que haja futebol. A razão eu não sei, mas gosto de entender a primazia do imprevisível e do plural que o esporte bretão sustenta como essência e pivô dessa relação fervorosa. “O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da ‘prosa coletiva’): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México, em 1970, a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira”, é o que diz Pier Paolo Pasolini, em passagem que mais parece uma dedicatória ao que chamou de futebol em poesia.

Mais Brasil que isso não imagino, mas sei que há também o Brazil em constituição. O Brazil em constituição nasce da mentira e cresce da imposição, ao passo que conflitaria, pelo resto da história, com o Brasil da mistura e da paixão. O Brasil leva a cosmologia popular às quatro linhas; o Brazil importa o pragmatismo.

De todo modo, embora destoem tão descaradamente, não se desvinculam. Brasil e Brazil seguem sendo a mesma nação da malandragem, da intensidade e da diversidade.

Em 2023, inflou, ou ainda, inflamou, diante do sucesso das ideias de Fernando Diniz na Copa Libertadores, entre os torcedores brasileiros, a perspectiva que tanto habita, de maneira vazia, no apelo nostálgico das gerações gloriosas: há simbologia em ser o país do futebol. Claro, se olhamos o Brasil como tal, olhamos necessariamente para o brasileiro como reprodutor de suas raízes. Ainda que o Brazil não queira que seja, são, sim, raízes. De todo modo, o êxito do Fluminense, que acende uma luz, é também representativo da impotência que o Brasil exibe frente ao Brazil. É assim que chegamos à entidade máxima do nosso esporte máximo. Ou melhor, é assim que chegamos a todas as entidades máximas de todos os processos pessoais em nosso território. Francamente: o país, em unidade, jamais superou sua condição de colônia. A bandeira verde e amarela, que tanto diz sobre o Brasil quanto vibra o Brazil, seguiu eternamente pisoteada em berço nada esplêndido. E, se chegamos ao entendimento de que país do futebol é nossa expressão, o processo de autofagia não pode nunca ser ignorado na equação.

Pois então, é a partir da CBF que toda a mesquinharia do Brazil se exibe. Se, de alguma forma, pudemos entender a seleção como Brasil, a captura dessa posição é mais um dos processos fraudulentos aos quais a burguesia brazileira, que tanto odeia o Brasil do brasileiro, adere. A verdade não está dada, não é simples. Não nos iludamos: todos os fascismos do mundo tocaram no sensível, evocaram um passado mítico e minimizaram nuances. Hoje, vivemos como colônia da bola, periféricos, sob a noção de que fomos superados e devemos nos adequar ao bom futebol. Fomos superados desde que nos fundaram. Melhor ainda, sequer alcançamos a posição de superação. Em 500 anos, formaram-nos e formataram-nos como bem entendiam. Enquanto dessas contradições se ramificou o Brasil, o Brazil sequencialmente fez questão de podar. Ainda faz. E, enquanto havia uma das últimas expressões tipicamente brasileiras, o laboratório imperialista brazileiro também a cooptou.

Junto da cor da camiseta, a seleção foi polindo a si mesma. Junto da insaciável imposição cultural; junto da experimentação neoliberal; junto de todo escanteamento popular, a seleção foi espelhando o Brasil como Brazil. Somos conservadores porque somos covardes, como quem reprime um atleta por usar a cor de cabelo que prefere; como quem tem medo de experimentar; como quem odeia a si, pois quer ser outro. Enunciamos toda a nossa pequenez trêmula e patética, símbolo de uma política tipicamente branca e importada, imposta. Acompanhar o progresso do futebol é a verdade que virou muleta de toda mentira que nos compõe como instituição. A muleta que sustenta, que mascara, que engana a si, o atraso e a supressão do Brasil como Brasil. Do Brasil brasileiro.

2 comentários


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Produzido pelos acadêmicos do 5º período do curso de Jornalismo do Centro Universitário FAG, na disciplina de Webjornalismo, sob orientação do professor Alcemar Araújo.

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