Mapas do recomeço: trajetórias marcadas pela migração
- Karoline Martins

- há 1 dia
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As histórias de Eliemer, Gabriel e Solmarys mostram que migrar pode significar perda, medo e a reconstrução de uma vida longe do país de origem

Por Karoline Martins | Agência Abre Aspas
Eliemer Alejandra tinha 15 anos quando entendeu que o futuro imaginado na Venezuela já não cabia na realidade do país. A crise econômica deixou de ser uma preocupação distante e passou a entrar em casa pela falta de alimentos, pela insegurança nas ruas e pela decisão que nenhum adolescente espera enfrentar: partir.
Sua família não queria trocar apenas um endereço por outro. Precisava atravessar uma fronteira para tentar preservar o que ainda restava dos planos que tinham. Naquele momento, migrar não parecia uma escolha. Era a rota possível para continuar.
QUANDO PARTIR VIROU NECESSIDADE
O ponto de ruptura veio quando o pai, responsável pelo sustento da casa, percebeu que já não conseguia garantir o básico. Antes da crise, ele mantinha uma empresa de revenda de carros. Com o avanço da escassez, vendeu praticamente tudo o que tinha. Ainda assim, o problema deixou de ser apenas financeiro. Mesmo quando havia algum dinheiro, faltavam produtos para comprar.
A decisão definitiva veio em uma quarta-feira. A mãe de Eliemer, professora, deveria ter chegado em casa por volta das 14h, mas já passava das 20h e ela não havia aparecido. Com medo, pai e filha saíram para procurá-la. As ruas já estavam tomadas por uma insegurança que crescia junto com a falta de comida. Quando os três voltaram para casa, a conversa mudou de tom. “Não dá mais para viver aqui. Vamos procurar outras oportunidades e pensar para qual país a gente vai”, relembra Eliemer.
A VIDA QUE FICOU PARA TRÁS
A vida antes da crise, aos olhos de Eliemer, era marcada por conforto, família e planos simples. Ela cresceu cercada pelo cuidado dos pais. Tinha dois irmãos, que não moravam com ela, mas faziam parte de sua história. Como muitos adolescentes, imaginava uma rotina ligada aos estudos, à faculdade e a um futuro construído dentro do próprio país.
“Os planos não eram trabalhar. Era só estudar. Eu estava no meu conforto, no meu país, mas infelizmente a situação econômica me fez sair e procurar oportunidades melhores em outro lugar”, conta.
A despedida não foi apenas de um território. Foi de objetos, afetos, vizinhos, caminhos conhecidos e de uma ideia de futuro que precisou ser interrompida. Na hora de arrumar as malas, Eliemer queria levar tudo. O pai explicou que carregar muita coisa tornaria a viagem mais difícil. “Eu abandonei muitas coisas. Não só o material, mas também o carinho que eu sentia pelas minhas coisas”, relembra.
A PRIMEIRA NOITE NO BRASIL
A família vendeu carros, casa e outros bens antes de deixar a Venezuela. Ao atravessar a fronteira, porém, entendeu que o dinheiro recebido já não tinha o mesmo valor. A desvalorização da moeda venezuelana diante do real brasileiro fez com que a quantia fosse insuficiente até para pagar uma noite de hotel.
Sem ter para onde ir, passaram a primeira noite na rua. O pai encontrou a frente de uma loja e decidiu que ficariam ali até amanhecer. Pouco depois, um homem se aproximou e perguntou, em português, se eles moravam naquele espaço. Sem entender a língua, responderam em espanhol que eram venezuelanos e ficariam apenas até o dia seguinte.
Foi ali, na calçada, que Eliemer sentiu pela primeira vez a distância entre o país que havia deixado e a vida que tentava começar.
“Depois das 22h começou a chegar gente fumando, bebendo, pessoas drogadas. Meu pai chorava de desespero e tristeza por nos ver naquela situação. Foi o dia em que eu mais senti medo. Eu só queria estar em casa”, lembra.
Mesmo com a memória daquela noite, Eliemer faz questão de lembrar também da solidariedade recebida no Brasil. No dia seguinte, com a ajuda de uma conhecida da mãe, a família conseguiu providenciar documentos como CPF, cartão do SUS e carteira de trabalho. No início, cada orientação dada por desconhecidos ajudou a transformar o medo em possibilidade de recomeço.

ENTRE MANAUS E CASCAVEL
A adaptação não aconteceu de uma só vez. Entre Manaus, no Amazonas, e Cascavel, no Paraná, Eliemer conheceu realidades distintas dentro do mesmo país. Manaus ficou na memória pelo calor, pelo tamanho da cidade, pela sensação de insegurança em alguns momentos e, ao mesmo tempo, pelas pessoas que a acolheram.
“É uma cidade que me ensinou muito. Teve coisas e pessoas boas por lá, pessoas que até hoje considero como família. Ainda converso com elas. Conheci lugares, trabalhos, foi um local de muito aprendizado”, afirma.
Hoje, a vida está em Cascavel. A rotina envolve trabalho, maternidade e estudos. Eliemer tenta organizar os dias entre as próprias responsabilidades e os cuidados com a filha. “Eu trabalho, sou mãe, estou fazendo um curso agora. Às vezes saio, mas tento manter uma rotina com a minha neném. Levo ela na vovó dela, minha irmã cuida dela e depois do trabalho eu pego ela. À noite fico com ela também”, descreve.
A TENTATIVA DE VOLTAR
Anos depois, a saudade e a expectativa de reencontro fizeram Eliemer pensar em voltar à Venezuela. Após cerca de nove anos no Brasil e já com uma filha pequena, decidiu retornar para que a criança conhecesse parte da família e para se despedir da avó, que enfrentava um câncer. A princípio, a viagem tinha outro sentido. “Para mim, era uma volta definitiva. Eu fui para morar lá, mas percebi uma diferença muito grande. Havia poucas oportunidades. Eu senti um atraso em relação ao Brasil, na tecnologia, nos hospitais, no dia a dia e na locomoção”, relata.
A permanência, porém, não foi possível. A realidade encontrada ainda era marcada pela instabilidade e por dificuldades com serviços básicos. Em alguns períodos, faltavam luz e água por dias. O ponto mais doloroso veio dentro da própria família. Uma tia, irmã de sua mãe, adoeceu e precisou de atendimento hospitalar. Segundo Eliemer, não havia médicos formados disponíveis e um estudante acabou realizando o atendimento. A medicação foi aplicada de forma incorreta. Naquela noite, a tia morreu.
“Foi uma situação muito forte para mim. Ela chegou andando no hospital e saiu morta. Não tinha médico para atendê-la. Foi o dia em que eu falei: eu não quero isso para minha filha, eu não quero continuar vivendo isso. E eu vou voltar para o Brasil”, conta.
OUTRAS ROTAS
A história de Eliemer se aproxima da trajetória de outras pessoas que deixaram seus países em busca de segurança, trabalho e oportunidades. Cada caminho tem suas perdas, mas todos carregam a tentativa de reconstruir a vida longe do lugar de origem.
O colombiano Gabriel Usuga também tinha 16 anos quando decidiu vir para o Brasil. A chegada exigiu aprender outro idioma, compreender uma cultura diferente e encontrar seu espaço. Depois de nove anos no país, ele afirma que a adaptação deu lugar a um sentimento de pertencimento. “Minha chegada ao Brasil foi desafiadora, principalmente por causa da língua e da adaptação à cultura. Com o tempo fui aprendendo português, conhecendo pessoas e me adaptando. Hoje, depois de nove anos vivendo aqui, posso dizer que me sinto mais integrado”, relata.
A venezuelana Solmarys del Valle viveu um processo parecido. Também aos 16 anos, deixou a Venezuela com a mãe e as irmãs, atravessando a fronteira por Roraima em meio à crise econômica, à escassez de alimentos e à falta de perspectivas. No Brasil, enfrentou o idioma, a distância da família e a necessidade de se adaptar a uma nova rotina.
Apesar dos desafios, construiu família, tornou-se mãe e segue criando raízes no país. “Reconstruir uma vida aqui e se adaptar é mudança, uma crise, uma jornada humana universal e profunda”, resume.
RECOMEÇAR COMO ATO DE CORAGEM
As trajetórias de Eliemer, Gabriel e Solmarys nasceram em países, famílias e experiências diferentes, mas se encontram em um mesmo ponto: migrar, para eles, foi uma tentativa de preservar sonhos quando permanecer já não parecia possível.
Por trás de cada fronteira atravessada existe uma vida que precisou ser reorganizada. Há documentos, idioma, trabalho, saudade, medo e a necessidade de aprender quase tudo de novo. Mas há também a possibilidade de construir vínculos, encontrar apoio e desenhar outros caminhos.
No mapa pessoal de quem migra, o recomeço raramente aparece como linha reta. Ele se parece mais com uma rota feita de perdas, desvios e pequenas conquistas. Para Eliemer, Gabriel e Solmarys, o Brasil não apagou o país de origem, mas abriu espaço para continuar. E, às vezes, continuar já é uma forma de vencer a distância.


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